terça-feira, 14 de junho de 2011

Andorinha





Sábado, estação das águas, intenso frio domina a atmosfera. A cidade parece morrer. Pelas ruas poucas almas circulam, entre elas dirijo-me à loja de flores, quero uma rosa vermelha. Apenas uma, é tudo que minhas moedas podem comprar. Sem palavras para seduzir minha musa, traço estratégias de como chegar ao seu coração.

Com a flor sob o casaco, esquivo-me da irritante garoa que colabora para o tédio daquele dia. Enquanto percorro as ruas, dos poucos que passam por mim, miro os casais e imagino que bom estar acompanhado, sorrindo e sentindo o outro. Tais imagens ampliam meu desejo de tê-la a meu lado.

A passos largos sigo meu destino sob o clarão dos relâmpagos que anunciam a chegada duma tromba-d'água. Obrigando os desprevenidos, sem guarda-chuva e a pé, partirem em busca abrigo. Coloco-me debaixo da primeira marquise que encontro e contemplo os efeitos da natureza. Em instantes surge um aguaceiro levando o que encontra pelo caminho. Passam por mim embalagens, plásticos, papel e muitas latinhas.

Nos minutos em que ali permaneci, ensaiei os gestos e as palavras que revelariam minha paixão. Estava temeroso, seria um sim ou seria um não, como a incerteza incomodava-me. Não havia outro modo, com ou sem dúvida, só indo até lá. Lentamente a chuva cedeu, permitindo-me prosseguir. Restavam duas infinitas quadras.

Sem aguardar o final do expediente, rumei para o departamento de perfumes. Avistei-a e, enquanto arrastava-me pé por pé, admirava seu jeito encantador. Eram gestos delicados que somados ao meigo sorriso deixava ainda mais irresistível a sensualidade emanada daqueles lindos olhos negros. Tal cena alçava-me ao paraíso. Há tempos visitava o shopping para mirar a garota dos meus íntimos sonhos sem no entanto revelar-me. Seria naquela hora o momento há muito desenhado? A angústia da espera maltratava-me. Deveria acabar logo com aquilo. E assim, cheio de esperança lancei-me em sua direção. Ao me aproximar, meu coração disparou, em segundos senti-me suando frio, quente, morno e em todas as escalas possíveis.

Rapidamente a ansiedade transfigurou-me, meus olhos saltaram, a pele ficou vermelha e revelou veias que jamais imaginei existirem. As mãos tremiam e rígidas espremiam as pétalas contra o peito. Permaneci gélido como se a vida chegou até ali para mim. Sonhara com aquele encontro para selar nossos destinos, não suportava mais conviver com expectativas de isso ou aquilo. Iria até o fim.

Quando faltavam dois minúsculos passos, apavorado avancei com as mãos sob o casaco,  neste instante um alarme disparou e junto a gritaria de pega ladrão... pega ladrão... é um assalto, assombrou todos. Inclusive a mim que olhando para os lados reparei muitos dedos apontado-me. Será que estavam dizendo que o ladrão era eu. Sim estavam. E sem explicação alguma jogaram-me no chão. Esbofetearam-me e após alguns chutes lançaram-me pela porta afora. Lá na calçada desabei e junto às mãos restos de uma rosa vermelha. Em meu peito um coração aos pedaços, pois ela nem notou que eu existia. Não deu tempo. O destino conspirou contra nós.


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