sábado, 20 de dezembro de 2014

Rodrigo Constantino

Israel: uma pequena grande nação
A convite da ONG “The Face of Israel”, que visa a atrair jornalistas e formadores de opinião em geral ao país para conhecê-lo melhor e para além das fontes tradicionais da imprensa, muitas vezes enviesadas, passei os últimos cinco dias rodando algo como mil quilômetros e visitando cada canto de Israel, conversando com muita gente diferente, vendo in loco como é a vida nesse caldeirão de culturas, religiões e povos. Dos quase 8 milhões de habitantes, algo como 75% são judeus, sendo pouco mais de 10% ultra-ortodoxos, e há também muitos árabes, alguns cristãos e uma minoria de drusos.

Ao contrário de muitos que alimentam
um viés contra Israel, já cheguei lá com o respeito e admiração que tenho pelo que os judeus, com o auxílio de outras minorias, foram capazes de erguer em meio a um terreno hostil (menos de 15% da terra é arável), com boa parte desértica, em torno de vizinhos ainda mais hostis do que a própria natureza. Admito que saí de lá com uma impressão ainda melhor. Israel é algo impressionante mesmo.

Para começo de conversa, podemos transitar entre o que há de mais moderno do século XXI, na cosmopolita Tel Aviv, uma das cidades mais amigáveis aos gays no mundo, por exemplo, e algo como quase três mil anos de história, tudo isso em poucos quilômetros de distância, ou até metros. Jaffa, cidade portuária das mais antigas do mundo, incorporada a Israel na década de 1950, remete-nos aos textos bíblicos, quando Jonas foi engolido pela baleia.

Não é algo muito comum essa convivência mútua entre passado e modernidade. A chegada ao belo aeroporto de Ben Gurion e a primeira noite em Tel Aviv, infelizmente tempo curto demais para aproveitar o lado mais ocidentalizado e moderno do país, causam a nítida impressão de que chegamos a um rico país europeu ou mesmo aos Estados Unidos. Mas logo depois chegamos a locais que existem há milênios, impregnados de história, de conflitos religiosos, de tradição, de beleza e, para quem acredita, de coisas sagradas.

Rodando tudo isso com excelentes guias selecionados pela ONG, foi uma verdadeira aula de história em poucos dias, que pareceram algumas semanas, pela grande intensidade. Impossível absorver tanta informação e história em tão pouco tempo.

Foram inúmeras entrevistas com acadêmicos, com pessoas locais, com políticos, religiosos, e tudo isso será melhor explorado em textos posteriores. Há material suficiente para um livro. Aqui, gostaria apenas de dar minha visão geral da coisa, do que vi. Israel é uma nação desenvolvida, quase rica nos padrões europeus, com uma renda per capita acima de US$ 35 mil (a do Brasil é de US$ 12 mil). Mas não é só isso: há pouca miséria, quase não vemos pobreza, e também não vemos muita ostentação. Nem mesmo em Tel Aviv encontramos carrões, muito menos carroças. Ou seja, é um país classe média alta, basicamente. E, pelo incrível que pareça, seguro.

Provavelmente pela história de perseguições e sofrimento do povo judeu, assim como seus ensinamentos religiosos de solidariedade, trata-se de um país simples, em que o nosso motorista, por exemplo, um judeu de origem árabe, participou de todas as refeições com nosso grupo de jornalistas, sem qualquer distinção ou cerimônia. O acolhimento nos lugares que visitamos também era da mesma natureza. Temos a sensação de que não há frescuras, tampouco esnobismo ali.

Apesar de todas as guerras que atravessaram em poucas décadas como estado nacional, os israelenses demonstram grande otimismo em relação ao futuro. São pessoas que lutam para sobreviver e prosperar, via de regra, e demonstram um belo sentimento patriótico. É uma visão e tanto a daqueles jovens todos, meninos e meninas com cerca de 18 anos, circulando por todo lugar com seus fuzis pendurados, orgulhosos de seu aprendizado militar.

Os israelenses olham as dificuldades como obstáculos a serem superados. Como a falta de água, por exemplo. O gotejamento garante boa agricultura por todo lugar, além de árvores que embelezam o entorno. São tecnologias modernas, como a presente nas três fábricas de dessalinização. Quando a natureza apresenta o desafio, a inventividade humana cria suas alternativas.

Sua democracia é pujante, com a participação de todas as minorias, como a dos próprios árabes, que possuem algo como 10% dos 120 assentos no Knesset, o Parlamento israelense. Os debates são abertos, as críticas ao governo são duras. Uma característica visível no israelense é o hábito de ser franco e direto, de falar normalmente o que pensa sem muita cerimônia ou rodeios. Israel, nesse sentido (como em outros), destoa como um oásis democrático e livre no Oriente Médio, região dominada por ditaduras e teocracias.

Em suma, não resta dúvida de que os israelenses ergueram em meio a uma região complicada um pequeno pedaço de civilização mais avançada, próspera e livre. E, além disso, criaram finalmente um lar para o povo judeu, perseguido desde os tempos imemoriais. Como disse, reuni amplo material de entrevistas que pretendo utilizar em artigos futuros. Mas não poderia deixar de resumir logo essa primeira impressão: Israel é um pequeno grande país que merece nosso respeito, apoio e admiração.

Rodrigo Constantino
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