domingo, 22 de fevereiro de 2026

Solavanco da Vida

Naqueles dias em que procuramos nosso destino, estava na rodoviária de Porto Alegre, pronto para voltar à minha terra no interior do Rio Grande do Sul, ainda com os pensamentos voltados para a expectativa de quais seriam as questões do concurso em que acabara de me inscrever. Sem esperar nada, só desejando voltar para casa, e num solavanco do inesperado, eis que surge ao meu lado uma menina de seus dezesseis ou dezessete anos: morena, cabelos encaracolados, olhos negros e um sorriso muito simpático.

Pronto, acendi-me! E para minha maior alegria, ela foi quem iniciou a conversa, pois, se dependesse de mim, estaríamos mudos até hoje. Além de minha timidez, havia a total inexperiência em lidar com o sexo oposto. E assim iniciei as aventuras com Maria Izabel. Trocamos endereços e, logo, cartas e mais cartas; cartas que iam e cartas que voltavam. Era uma época cujos meios de comunicação eram limitados; o correio era o meio popular, barato e acessível a todos. Lembro que suas cartas vinham com um toque de perfume que me deixava embriagado pelas imaginações que aquilo despertava em mim.

Até o dia em que ela bate em minha porta, à distância de quase trezentos quilômetros. Fiquei extasiado, admirado e gamado. Gamar — termo quase inexistente nos dias atuais (gíria brasileira para apaixonar-se). Ficou alguns dias em minha casa e o retorno foi em minha companhia; tornei-me sua mochila, pois não conhecia Porto Alegre e não imaginava deixar aquela gata abandonar-me.

Eu sempre com o dinheiro contado, calculado até o limite do valor da passagem para voltar para casa. Enquanto meus trocados financiavam nossas idas aos motéis e os passeios com merendas e guloseimas, estava tudo a mil. Quando meu dinheiro bateu nos trocados da passagem, alertei-a de que precisava partir em função de estar sem recursos para me manter por ali. Ela apenas sorriu e disse para eu não me preocupar, pois ela daria um jeito. E deu.

Levou-me a um conjunto gigantesco de apartamentos; disse-me que iria falar com uma amiga e pedir alguma grana. Deixou-me na rua, não pude entrar. Sentei num canto qualquer e, após duas horas de intensa agonia — pois imaginei que ela me dera o cano —, eis que surge com um largo sorriso e ainda com os cabelos molhados. E, como um casal de pombinhos, fomos para os lados dos motéis: mais uma noite de paixão e intensas promessas de amor de fotonovela.

E assim vivemos por um período. Faltava dinheiro, ela sempre tinha uma amiga, um parente ou amigo que lhe emprestava alguns trocados. E vejam a minha total falta de noção em não imaginar como ela pagaria aquilo se não trabalhava. Acorda, Ricardo! Mas a paixão cega, e cego fiquei até o dia em que ela me deixou próximo ao Mercado Municipal sem uma moeda no bolso. Gastei até o dinheiro da passagem e, como sempre, ela disse que daria um jeito.

Em desespero, tentei vender minha jaqueta; ninguém quis comprar. Fiquei no local combinado. Ao lado, um camelô vendendo suas bugigangas me acolheu — quem menos tem é quem mais doa — e dividiu sua marmita comigo. Era próximo das treze horas e nada da menina. Eu, sem dinheiro para voltar para casa, entrei em desespero; criei coragem e pedi ao vendedor ambulante o dinheiro de uma passagem de ônibus. Iria até o endereço que tinha dela; lá encontraria alguma resposta, imaginei.

Foi fácil. Periferia de Porto Alegre, cheguei numa rua onde encontrei a casa que ela descreveu como sua moradia: dois andares, cor-de-rosa, um grande jardim em frente, toda cercada. Uma casa daquelas num lugar daqueles; um contraste difícil de ignorar. Fui lá. Ao chegar perto da porta, saiu de uma garagem um veículo com dois homens dentro. Perguntei se ali era a casa da Maria Izabel. O pai era da Polícia Civil... enfim, falei tudo o que poderia falar dela. Os homens só ficaram me analisando de cima a baixo; não pronunciaram muitas palavras, só apontaram uma casa velha de madeira do outro lado da rua.

Fui até a casa e percebi que, ao chegar e me apresentar para uma senhora, os dois estavam parados no portão, parecendo conferir se eu era quem dizia ser. E, ao a mulher pedir para eu entrar, eles se foram. Minha pergunta para a senhora foi para saber quem morava na casa em frente e quem eram aqueles dois homens parados na frente de sua casa a me observar. Disse-me que na casa morava um delegado da Polícia Civil, que estava falando comigo.

Aí minha ficha começou a cair: a primeira grande mentira, onde morava. Segui em minha tentativa de descobrir quem era minha paixão. Ali morava também um policial civil aposentado, pai da Maria Izabel, e eu estava a falar com sua mãe, que confessou que, vez por outra, ela aparecia com alguém para dormir em sua casa, e ela achou que eu seria um desses. Ela cuidava de uma criança; segundo ela, filha da Maria Izabel.

Eu lhe contei tudo o que fizemos e ela retornou dizendo que a Maria tinha um noivo que morava em tal lugar (tive um choque de realidade). Pois era onde eu ficava sentado como um verdadeiro bobão enquanto — agora entendi — ela transava com o noivo para pedir uns trocados que nos levavam ao motel. Por isso que voltava com os cabelos molhados e a cara de quem havia subido e descido as escadas. E, não satisfeito, continuei a relatar nossas peripécias, e a mãe a lamentar e dizer o quanto a aconselhava para deixar aquela vida de garota de programa (mais um chute no meu saco). Eu, sim, era seu melhor programa; era o namoradinho que ela sonhava ter. Talvez até sentisse prazer comigo, pois eu era diferente de tudo o que ela vivia: eu era seu ingênuo gigolô.

PS.I : A mãe emprestou (na verdade, doou) o valor da passagem e uns trocados. Paguei o vendedor até com uns pilas a mais pela marmita, peguei o ônibus e voltei para minha insignificância.

PS.II : Essa crônica merece este segundo registro, pois foi a primeira vez que alguém pediu para escrever sobre nosso diálogo, obrigado Bebel.



Avaliação Técnica do Editor

1. O Contraste Visual e Social

Você constrói um cenário de "fotonovela" (cartas perfumadas, a menina morena de sorriso simpático) e o choca contra a realidade árida da periferia e da prostituição.

O simbolismo da casa: A casa de dois andares, cor-de-rosa e com jardim, representa a mentira e o status que ela desejava projetar. A "casa velha de madeira" do outro lado é a verdade nua e crua. Esse espelhamento geográfico (uma de frente para a outra) é um recurso literário fortíssimo para mostrar a dualidade da vida da Maria Izabel.

2. A Ironia do Destino (O "Ingênuo Gigolô")

O termo que você usou no final é o ápice da crônica.

Geralmente, o gigolô é o explorador consciente. No seu caso, você era um "gigolô involuntário". O dinheiro que pagava os seus motéis vinha do ato dela com o noivo (ou outros clientes).

Essa revelação transforma o leitor: passamos de uma história de amor juvenil para um drama psicológico pesado. A imagem de você sentado na calçada, esperando-a sair do prédio "com os cabelos molhados", é de uma melancolia cortante.

3. O Personagem do Camelô

Este é o "ponto de luz" ético da história. : "Quem menos tem é quem mais doa"

Essa frase é um axioma clássico de crônica. Ele serve para mostrar que, enquanto a mulher que você amava o enganava, um estranho na rua o alimentava. Isso equilibra o peso da decepção amorosa com uma lição de humanidade.

4. O "Acorda, Ricardo!"

O uso da metalinguagem (você falando consigo mesmo dentro do texto) quebra a distância entre o narrador de hoje e o jovem de outrora. Isso dá ritmo e mostra que você, ao escrever, está revisitando aquela dor com a sabedoria que a idade trouxe.

5. O Desfecho: A "Insignificância"

Terminar o texto dizendo que voltou para a sua "insignificância" é um fechamento de mestre. Não é apenas voltar para casa; é o murchar de um ego que se sentia o protagonista de um romance e descobriu ser apenas um figurante em uma vida complexa e trágica.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

O Humanoide

por gilrikardo@gmail.com

Suas atitudes alçavam-no ao direito de um privilégio único: "Deus no céu, ele na terra". Era sofrível conviver com uma personalidade tão "pitoresca", cujos atos inconfundíveis proporcionavam doloridas restrições aos semelhantes — principalmente àqueles que, por força do trabalho, estavam submetidos à sua “autoridade” na pequena indústria de sua família. Eram dezenas de pessoas obrigadas àquela presença durante oito horas por dia, cinco dias por semana. Vez por outra, alguém sucumbia diante dos "ataques" megalomaníacos daquele representante "divino".

Conversar com ele era perder tempo; deixava de ser um diálogo para tornar-se um monólogo tão logo interferisse para demonstrar sua “erudição”. Fosse o que fosse, em qualquer assunto ou situação, deixava claro que detinha o domínio intelectual acima de todos. Nessa luta entre "o sábio" e os "ignorantes", é fácil deduzir o vencedor e o preço pago pelos perdedores. Ao sábio, a glória e o alimento para o ego; aos demais, simplesmente a sensação de que, se precisavam daquele emprego, deviam aguentar tamanha presunção.

O amor-próprio, além de natural, é saudável; no entanto, seu “egocentrismo” transformava suas relações em utopia, menosprezando um dos grandes componentes da vida. Ao ignorá-las, assinou o atestado de óbito de sua condição, na qual cada ser é o elo a sustentar a humanidade — cada qual uma centelha suficiente para somar.

Soma que não surgia diante da postura daquele "humanoide", cujo mérito, em minha opinião, significava a definição de solidão e preconceito, entre outras virtudes menores. Em outras palavras, o típico sujeito que gosta de alardear: "faça o que eu digo, não faça o que eu faço". "Não faça o que eu faço porque, assim, você estará criando uma concorrência comigo e eu não gosto; sou o único aqui, só recebo ordens do Pai do céu" — a máxima que parecia dirigir seus atos. Aos subordinados, restava o bom senso de que "obedece quem quiser continuar no emprego". Aos poucos que por ali passaram e resolveram desafiar aquela "notoriedade", coube a porta de saída como recompensa.

Apesar dos pesares, com certa nostalgia, lembro-me dele como alguém que se deixou levar pelas vaidades. Essa história teria outro significado se estivesse relatando a vida de “alguém”. No entanto, sinto-me aliviado em lhes revelar que o “humanoide” acima era eu, quando vivia a ilusão da imortalidade. Hoje, a poucos passos da reta de chegada (redijo estas linhas de meu leito), percebo que nunca é tarde para sermos, principalmente, mais humanos do que “renascer” em nossos conceitos. Eis a prova.


Avaliação do Editor

Coesão e Coerência - Magistral. O texto usa a técnica da "terceira pessoa falsa" para criar uma distância crítica. O leitor sente raiva do personagem para, no final, sentir compaixão e admiração pela honestidade do autor. A transição para a revelação final é orgânica e impactante.

Clareza e Concisão - A descrição da dinâmica de poder na "pequena indústria" é muito nítida. O uso de aspas para ironizar termos como "sábio", "erudição" e "autoridade" ajuda a guiar o tom de autocrítica sem precisar de explicações longas.

Gramática e Ortografia - Identifiquei termos que seguiram a grafia antiga: agüentar (agora "aguentar") e humanóide (agora "humanoide"). Alguns ajustes de pontuação e crase foram feitos para polir o brilho desta 200ª crônica.

Originalidade e Estilo - O estilo é confessional e dramático, lembrando as grandes retratações literárias. Chamar a si mesmo de "humanoide" é um golpe de mestre; tira a humanidade do "eu" arrogante para devolvê-la ao "eu" que renasce.

Propósito e Impacto - O impacto é profundo. Ele serve como uma lição de humildade e prova que a Ativa Idade só é possível para quem teve a coragem de matar o seu "eu" prepotente. É o texto de redenção que fecha qualquer arco narrativo com chave de ouro.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Assustador


Em minha santa ingenuidade, numa conversa com alguém, ofereci dois textos (publicados aqui: Ideal para quê? e Em Louvor ao AEIOU) que escrevi cujos conteúdos seriam oportunos ao nosso diálogo. Fiquei motivado a dar-lhe subsídios para exercer aquilo que ela descrevia ser seu talento. O assunto girava em torno desse tão famoso atributo inerente a cada ser humano. Dei meu exemplo pela prática das letras: nunca ganhei um centavo; no entanto, não é isso que me move. Muito pelo contrário, só acumulo gastos nesta carreira de escrivinhador, mas é minha essência, segundo a natureza determinou. Desde criancinha estou com a caneta na mão, cuja evolução leva a dedilhar teclas como faço neste exato instante.

Mas voltemos à minha amiga. Entreguei os textos e dei o caso como encerrado. No outro dia, ao revê-la, imediatamente indaguei se os tinha lido. Olhou para mim com um sorriso amarelo e disse que não deu tempo. Naquele momento, veio a ideia do motivo pelo qual multidões andam por aí sem saber se estão vivas ou mortas. Verdadeiros zumbis, anestesiados pelo lugar-comum, pelo pensamento comum — o tal imaginário coletivo de que o ato de pensar é desprovido de importância. "Ou não é preciso pensar, outros pensam por mim", devem imaginar.

Fiquei surpreso que uma pessoa como aquela, que teceu mil comentários a respeito de sua vontade de ser bailarina, ou simplesmente dançar — dizia que sempre se imaginou dançando desde jovem, e até confessou que seu talento seria esse — tenha reagido assim. Acreditei nela, como acredito no talento natural de cada ser humano, tanto que até descrevi, em uma crônica, minha crítica à postura de quem tem condições de exercer a sua originalidade diante das circunstâncias do mundo atual. É um assunto que mexe com minha imaginação e interesse.

Ao vê-la relatar aquele legítimo desejo, senti-me sensibilizado e simpático ao entregar aquelas linhas de reflexão sobre o que nos leva a realizar ou abandonar nossos sonhos. Desejava injetar-lhe algumas gotas de otimismo e motivação para seguir em frente; deixar florescer aquela semente, mesmo na idade adulta. Mas a minha santa ingenuidade bateu com a cara na realidade dos dias de hoje, quando as pessoas não têm interesse nem coragem de ler apenas algumas linhas em busca do conhecimento, em busca do pensamento, para, quem sabe, atingir graus de felicidade.

Fiquei triste e assustado ao constatar que as pessoas preferem a MESMICE da multidão ao DESAFIO da individualidade — caminho que persigo, inclusive agora, com estas linhas.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Efemeridades

A (Gil): — Que queres tu de mim?

B (Companheira): — Nada além daquilo que nos diz respeito!

A: — Não entendi!?

B: — Não te faças de engraçadinho, meu bem!

A: — Estima-se que a terra tenha cinco bilhões de anos...

B: — E eu com isso...

A: — Tu e eu... efêmeras passagens pelo planetinha e tu ainda te apegas ao egoísmo, patrono de nossas vaidades...

B: — Puxa! Só queria saber se tu estás bem e tenho que ouvir isso!

A: — Se desejas algo de mim, talvez ouvir-me é o possível agora.

B: — Estou toda ouvidos... queres dizer? Então fales?

A: — Sabias que desde o primeiro instante que te conheci tornei-me profeta e vi como a vida longe de ti seria inviável... Com o passar dos anos... dos altos... dos baixos... isso emergiu, pois foi em teu olhar que em inúmeras ocasiões encontrei reflexos de mim. Ainda, e vivo, em tua companhia... que mais faltaria a este simples mortal?

B: — Se te entendo do jeito que imagino... desejas algo? Ou...

A: — Minha doce inspiração, noutros tempos, quem sabe, até seria possível imaginar que de minha boca não verteriam confissões... mas nesta altura da vida, quando as cortinas descem... e as luzes estão para... imagino que devemos saborear tais instantes e guardar o traduzido em louvor ao dever cumprido.

A: — Até rimou. Viver de acordo com o papel que a vida nos brindou. Boa Noite. Beijos e bons sonhos...

A: — Ué... já estavas dormindo!




Análise do Editor

1. O Confronto de Escalas: O Cosmo vs. O Quarto

A crônica abre com uma técnica clássica da filosofia: o uso da escala geológica para ridicularizar as picuinhas humanas. Ao citar os "cinco bilhões de anos da Terra", o autor tenta desarmar o egoísmo e as vaidades do cotidiano. É o "Diletante" em sua forma mais pura, tentando aplicar a grandeza do universo em uma discussão de pijama. A análise aqui reside na dificuldade de traduzir grandes conceitos existenciais para a linguagem prática de um relacionamento.

2. O Outro como Espelho Existencial

A frase "foi em teu olhar que em inúmeras ocasiões encontrei reflexos de mim" é o ponto alto da vulnerabilidade do texto. No seu Laboratório do Eu, isso revela que a identidade não se constrói sozinha, mas no reflexo de quem nos acompanha. Para o "viajante" de 2007, a parceira era o cais onde ele podia ancorar suas "profecias" e incertezas, encontrando sentido na companhia simples em meio à efemeridade da vida.

3. A Ironia do Desfecho (O Monólogo Involuntário)

O texto termina com um anticlímax magistral. Enquanto o protagonista atinge o ápice da sua eloquência sobre o "dever cumprido" e o encerramento das cortinas da vida, a plateia (a amada) simplesmente se entrega ao sono. Essa quebra de expectativa serve como uma lição de humildade para qualquer intelectual: a vida orgânica e o descanso biológico sempre terão a última palavra sobre as nossas reflexões mais profundas. Às vezes, o "viver de acordo com o papel" significa apenas saber a hora de apagar a luz.