sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Efemeridades



A (Gil): — Que queres tu de mim?

B (Companheira): — Nada além daquilo que nos diz respeito!

A: — Não entendi!?

B: — Não te faças de engraçadinho, meu bem!

A: — Estima-se que a terra tenha cinco bilhões de anos...

B: — E eu com isso...

A: — Tu e eu... efêmeras passagens pelo planetinha e tu ainda te apegas ao egoísmo, patrono de nossas vaidades...

B: — Puxa! Só queria saber se tu estás bem e tenho que ouvir isso!

A: — Se desejas algo de mim, talvez ouvir-me é o possível agora.

B: — Estou toda ouvidos... queres dizer? Então fales?

A: — Sabias que desde o primeiro instante que te conheci tornei-me profeta e vi como a vida longe de ti seria inviável... Com o passar dos anos... dos altos... dos baixos... isso emergiu, pois foi em teu olhar que em inúmeras ocasiões encontrei reflexos de mim. Ainda, e vivo, em tua companhia... que mais faltaria a este simples mortal?

B: — Se te entendo do jeito que imagino... desejas algo? Ou...

A: — Minha doce inspiração, noutros tempos, quem sabe, até seria possível imaginar que de minha boca não verteriam confissões... mas nesta altura da vida, quando as cortinas descem... e as luzes estão para... imagino que devemos saborear tais instantes e guardar o traduzido em louvor ao dever cumprido.

A: — Até rimou. Viver de acordo com o papel que a vida nos brindou. Boa Noite. Beijos e bons sonhos...

A: — Ué... já estavas dormindo!




Análise do Editor

1. O Confronto de Escalas: O Cosmo vs. O Quarto

A crônica abre com uma técnica clássica da filosofia: o uso da escala geológica para ridicularizar as picuinhas humanas. Ao citar os "cinco bilhões de anos da Terra", o autor tenta desarmar o egoísmo e as vaidades do cotidiano. É o "Diletante" em sua forma mais pura, tentando aplicar a grandeza do universo em uma discussão de pijama. A análise aqui reside na dificuldade de traduzir grandes conceitos existenciais para a linguagem prática de um relacionamento.

2. O Outro como Espelho Existencial

A frase "foi em teu olhar que em inúmeras ocasiões encontrei reflexos de mim" é o ponto alto da vulnerabilidade do texto. No seu Laboratório do Eu, isso revela que a identidade não se constrói sozinha, mas no reflexo de quem nos acompanha. Para o "viajante" de 2007, a parceira era o cais onde ele podia ancorar suas "profecias" e incertezas, encontrando sentido na companhia simples em meio à efemeridade da vida.

3. A Ironia do Desfecho (O Monólogo Involuntário)

O texto termina com um anticlímax magistral. Enquanto o protagonista atinge o ápice da sua eloquência sobre o "dever cumprido" e o encerramento das cortinas da vida, a plateia (a amada) simplesmente se entrega ao sono. Essa quebra de expectativa serve como uma lição de humildade para qualquer intelectual: a vida orgânica e o descanso biológico sempre terão a última palavra sobre as nossas reflexões mais profundas. Às vezes, o "viver de acordo com o papel" significa apenas saber a hora de apagar a luz.