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quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Num dia qualquer

Por Gilrikardo

-Puxa! Tu não acreditas em nada?
-Não entendi. Por que dizes isto?
-Ora, meu caro, és ingênuo? Como não entendestes? Se tu ages contra deus e todo o resto...
-Calma lá! Queres dizer que minhas opiniões devem ser desqualificadas pelo simples fato de não acompanharem a maioria. Tenho manifestado-me de acordo com a lógica de meus pensamentos. Nada de escolher lado. Nada de estar com a maioria ou com a minoria. E sim dentro daquilo que meu discernimento determina.
-Não estás entendendo. É o seguinte, tu tens a mania de duvidar de qualquer assunto que nos leva a dialogar, assim fica difícil.
-Que mal há nisso? Duvidar em minha opinião é o primeiro passo que nos leva a refletir. Em meu caso este duvidar é o sinal de que estou analisando a questão, estou dando tempo ao tempo, para então demonstrar o meu respeito a ti com uma autêntica manifestação do que penso. Sem "achismos" como facilmente se agrada a maioria.
-Nunca vi alguém gastar tantas palavras para justificar a falta de crença. Tu precisas acreditar mais. Se um milhão acredita e tu não, o certo és tu?. Tu precisas praticar mais a fé... é isto que te falta... fé.
-Creio que deves estar equivocado comigo. Não imagino a que tipo de fé me aludes. O que posso te garantir é que essa confiança absoluta às vezes nos torna temerários. Por exemplo, dizer que não vou mudar de opinião, se as opiniões advêm dos fatos que nos cercam e que tais acontecimentos ocorrem numa dinâmica em constante evolução, leva-me fatalmente reavaliar meus conceitos.
-Tá vendo, isso que eu disse agora, estás duvidando de novo.
-Acredito que você nem escuta mais o que digo, simplesmente aguarda eu terminar de falar para novamente atacar minha forma de opinar.
...........
--Toc, toc, toc... paiêeeeeee, abre a porta que estou apurado, rápido...
--Tá bom, hoje tá difícil até fazer a barba em paz!

domingo, 13 de janeiro de 2019

Última lembrança

Por Gilrikardo

Estava de bicicleta, olhei para o horizonte e o prenúncio de chuvas parecia se confirmar. Imaginei que algumas gotas de água não fariam mal. E assim, sem pressa, pedalei rumo à minha casa. Era numa região sem asfalto, as ruas ainda em terra batida, cortada por uma valeta de um metro de largura que servia de córrego para o esgoto. Era uma baixada, pois ao se olhar ao redor, num raio de trezentos e sessenta graus, se via morros e mais morros, repletos de comunidade “urbana”. Entre os quais, eu e minha família, desde que cheguei neste mundo, ali residi. A clássica história de pai para filho. Recebi como herança e pelo andar da carruagem, será a herança de meu único filho.

Mas como eu ia dizendo, estava para chover e não dei importância para fato tão corriqueiro em uma cidade como a nossa. Aos poucos, os pingos foram descendo das nuvens negras numa velocidade e quantidade maiores, em poucos metros estava até com as cuecas molhadas, aquilo começou a me impressionar. Ao virar a esquina e subir o morro em direção à minha casa, quase não acreditei no que via, se me contassem com certeza não acreditaria, mas estava em meio daquilo e com os olhos bem abertos. Era como uma cachoeira vinda de todos os lados, desci a bicicleta e a pé tentei seguir, no entanto no primeiro aguaceiro que atingiu minhas canelas, desisti de minha “bike” e procurei um local seguro. Era igual aquelas cenas de filmes catastróficos, o mocinho lutando contra as forças da natureza em busca da família. E a água não parava de chegar de todos os lados e com maior volume, comecei a assustar-me, não avistei ninguém nas ruas, nem em janelas ou portas das casas que por ali havia. Era eu e eu. Fazer o quê! Em completo desespero, agarrei-me em uma árvore que pareceu-me forte o suficiente para garantir-me um abrigo. E ali permaneci, até que senti um calor intenso descer pelo meu corpo, e ao tentar evitar a queda ainda percebi o clarão e a fumaça por entre as folhas. Foi um raio. Foi minha última lembrança...

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Passei por aqui - O Livro

Prefácio 

Kkkkkkk .... essa foi minha reação ao receber o resultado do único teste vocacional realizado lá pelos anos setenta e poucos do século passado (1973). Naquele momento não cabia em minha mente que eu deveria escrever... ora, olhei ao redor e não vislumbrei que ali alguém poderia ter interesse em minhas escritas, nem eu. Mas a vida é como ela é (Nelson Rodrigues) e por mais que tentasse ignorar tal elemento em minha composição biológica, o destino encarrega-se de jogar papel e lápis em minhas mãos, provocando-me, insistindo para que minhas palavras encontrassem o caminho...

Vezes por vezes “vomitei” palavras com o único objetivo de aliviar a dor causada em mim o fato de ter idéias e não bota-las à deriva... Isso incomodou-me e ainda persiste o mal-estar advindo de não libertar meus pensamentos através da escrita... será que o tal talento ou tal vocação é isso... estou inclinado a finalmente dar mão a palmatória e concordar com minhas angústias a traduzir minha condição humana.


Condição de alguém nada especial... não sirvo de exemplo pra nada e pra ninguém... vivi do meu jeito (lembram My way... pois é...) entre acertos e erros... entre tapas e beijos... entre amor e ódio... entre sangue e lágrimas...

E por fim, segue relato de alguns dias que passei por aqui... 


quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Serei artilheiro...


Por Gil Rikardo

Ao pegar a caneta e traçar as primeiras linhas, meu desejo era próximo daquele atleta que admiramos... com a bola nos pés... dribles curtos e tiros certeiros. Sem medidas de medos ou receios dos adversários sem inspiração e da falta de palavras... nada em vão... é seguir em frente a dar voleios, correr aos cantos a bater escanteios. Ainda que a dúvida assaltar, seguir o instinto de ver as letrinhas rolarem num explícito ser o que sou... a fazer o que faço... sem medo de ser feliz... é o gol... é a letra: 

--Aaaaaaaaaaaa

A mor que me provoca sem esquecer da
B ênção que me diz abençoado e assim agradeço à
C oragem que em momentos cruciais salvou-me do
D esespero por imaginar-me sem forças de seguir adiante rumo à
E sperança que me fortalece a alma e traduz a
F é que teima residir em mim, além da
G ratidão tão necessária 
H oje em nome daqueles dias
I nfelizes, afinal nem todos (dias) devem ser iguais
J amais... assim evoluímos
K ibon...
L egamos à geração futura as cicatrizes
M arca da nossa existência
N o afã de privá-la do sofrimento, do gosto de sangue
O u do medo das incertezas inerentes ao existir
P or que a gente é assim?
Q uerer e não saber o porquê?
R eflexos do medo, do tempo perdido
S em noção do perigo
T empo... tempo... tempo...
U rge... então
V ivamos uma vida cheia de vivas onde o
W i-fi coração irradia o que somos
X ...
Y ... ou
Z ... na incógnita do destino.

domingo, 20 de maio de 2018

Em dias de brrrrrrr....

Por Gilrikardo 
Publicação original em 03/agosto/2011

Nasci e me criei na região serrana (Lajes SC, Lagoa Vermelha RS e Vacaria RS). Foram duas décadas de invernos, ventanias, geadas e neve a castigar-me o lombo. Eram nas manhãs de estudante, com os pés encarangados, orelhas doendo como se navalhas às tivessem riscado, lábios rachados a cantarolar resumos da matéria em dias de prova... 

Assim era minha jornada ao colégio. Momentos em que testemunhava uma cidade deserta, nem cachorro pelas ruas, só alguns gatos pingados, aliás estudantes que muitas vezes eram obrigados a voltar para casa, pois só havia a presença de cinco ou seis alunos por turma. Numa ocasião dessas, perguntei ao professor porque não se dava aula para quem chegou até ali, para compensar o esforço. Como resposta, perguntou-me se eu conseguia escrever diante de tamanho frio... tentei e então concordei.

Vivia-se naqueles dias, em eterno recolhimento, encorujado, resguardado em qualquer canto, longe do vento e do frio. Imaginava muito trabalho e tempo perdido só para se “aquentar”. Eram muitas horas dedicadas a expulsar a sensação de estar morrendo de frio... com isso se reduziam as atividades. Só se mexia quem era obrigado. Comprar comida. Buscar lenha. Comprar remédio. Nesse clima, certo dia despertou-me o desejo de conhecer outras paragens menos frias, pois acreditava que seria mais fácil viver o extremo num clima de verão.

Hoje, passados quase trinta anos longe daqueles frios, constato que em dias de muito calor é mais fácil a vivência... pois basta-me procurar uma sombra qualquer e consigo administrar o dia-a-dia sem muito trauma.

Contei essas passagens para comentar sobre aquelas imagens que a mídia disponibiliza como novidade a cada inverno. Turistas bem nutridos e muito bem vestidos. Dançando. Cantando. Nas geladas madrugadas, pedindo mais neve e frio - geralmente em frente ao carrão ou hotel cheio de estrelinhas. Para mim é um exemplo de como o ser humano se presta a tudo. Aqui atende aos apelos de consumidor de pacote turístico. É a roda capitalista girando, levamos os incautos a gastarem seus reais e a vida segue. Isso não elimina a dor que os miseráveis devem suportar em dias abaixo de zero. A esses me rendo, solidarizo-me e pergunto porque a gente é assim? Tão contraditório. Sem palavras é o eco... eco... eco...

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

A minoria “nimim”

Por Gilrikardo




Em muitas ocasiões estou a ver a banda passar. Percebo isso ao tentar acompanhar os ditos movimentos sociais que de uns tempos para cá, em nome da diversidade, surgem a empunhar bandeiras das mais variadas cores, sabores e odores. Surgem acompanhadas com certo toque de novidade, como se no mundo desde que é mundo não existisse o caldo da variedade.

Ainda assim, observei as tantas combinações e praticamente obriguei-me a redefinir certos conceitos, além de reavaliar a utilidade ou perigo de certos relacionamentos ditos até aqui como normais.

Feito isso, senti-me parte do horizonte que se abriu, e aí então é que a vaca foi para o brejo. Pois de cidadão tranqüilo, na condição de ser apenas mais um a desfrutar desta vida, de forma independente ou quase nada dependente de forças estranhas à minha legítima vontade. Conclui então que não era apenas mais um! O momento condena-me a diversidade!

E agora, a que minoria pertencer?
Em que bandeira abrigar-me?

Talvez na bandeira dos indignados com a política, será? Indignar-se é fácil, e aí, qual o sentido da indignação, que fazer para sair dessa ... é parece que não existe indignados pela política. Ou quem sabe o movimento dos sofredores do ensino, também só escuto resmungos e choradeiras, de concreto nada. É... não está fácil situar-me nesse “neoparadigma”. E o movimento daqueles sedizentes anarquistas ou contra todos os governos, ou ainda adoradores da iniciativa individual, assumidamente construtores do próprio destino... cadê?


Onde encontrarei minha bandeira? É... pelas que vejo tremulararem, dificilmente uma que defenda os libertários ascenderia mais que meio mastro. E agora josés, joãos e “eus” desta vida. Escutem! Eu disse que sou minoria, eu e minha cara, eu e minha coragem, eu e minha covardia, eu e minhas idéias sentado à beira dum caminho. Antes só, do que mal acompanhado.

sábado, 8 de novembro de 2014

Lembranças da querência

Catedral Nossa Senhora da Oliveira - Vacaria RS
Quando eu era católico
Por Gilrikardo

Ao olhar esta foto relembro meus dias de católico goela à baixo, inclusive tentava uma vaga de coroinha através do amigo Plinio também coroinha (soube do seu suicídio há dez anos). Tinha-lhe grande afeição devido à nossa convivência junto à biblioteca do Colégio São Francisco. Diria que éramos viciados em livros, tanto que nas tardes em vez do futebol entre outras atividades típicas de adolescentes, escolhíamos os livros. Já naquela época mantinha  relação estreita com o mundo literário cujo amigo compartilhava.

Voltando à igreja, ou a catedral, em meus dias de católico goela à baixo, foi ali também que meu encantamento pela religião e pelos padres morreu... foi só observar o desenrolar das missas e ver com quem o padre fazia questão de conversar, ouvir, cumprimentar, benzer, sorrir, para perceber que o interesse pela humanidade tinha destino certo. Até que um dia minha desconfiança materializou-se e levou-me para nunca mais voltar. Era um missa de domingo, num inverno brabo, daqueles de bater o queixo... a igreja lotada como sempre, e junto a primeira fila de bancos, encostados na parede, uma familia de gente pobre de dar dó, não lembro o número de crianças, mas era mais que três com certeza, O chefe tentava falar com o padre a todo o instante, mostrava-se aflito, com um semblante desesperado... de fome talvez... ou medo quem sabe. A cada tentativa o padre sinalizava e dizia baixinho.... espere aí que no fim da missa falo contigo. Não sei porque, mas resolvi testemunhar aquela cena até o final... fiquei de olho no padre e naquela família...

Encerrada a missa, a multidão esvaiu-se.... o padre aproveitou e abraçou alguns vereadores, o prefeito, cumprimentou os "ricos" da cidade com uma cara de "prostituta"... olhei para o outro lado, só para conferir, e lá estava o pobre homem e a prole aguardando a boa vontade do padre que aproveitando a movimentação sumiu de fininho.... fui o último a "garrar" a rua... a família saiu minutos antes de mim. Soube mais tarde que o homem havia perdido a casa num incêndio alguns dias antes, e perambulava pela cidade em busca de ajuda. Foi a última vez que entrei na igreja desejando lá encontrar algum sentido na vida.
 

terça-feira, 27 de agosto de 2013

O emblemático Marcos Q.

Por Gilrikardo

_Quando se fala em justiça, sistema judiciário, leis, ordenamento jurídico, “puliça”, autoridade, cidadão e ladrão, se tem a impressão de que tudo está de acordo como deveria estar e nos damos por satisfeitos pelos resultados advindos dessa “mistureba” de conceitos que teriam, sobretudo, a missão de garantir o mínimo, desde o mínimo cidadão até o rei, se por acaso existisse. 

_Entretanto, basta um paraquedista chegar em nossas terras, e aqui se travestindo de mega empresário, para nos depararmos com o fruto da dúvida, ou com a certeza de que algo nessa conta não fecha. 

_Vejamos. O senhor Marcos Q. aplica o famoso um-sete-um (estelionato) em centenas de pessoas e parece não se abalar muito com o fato de estar numa segura cela. E com razão. Nestes primeiros dias, restou a dor de centenas de miseráveis ludibriados em busca de reaver aquilo que nunca será como dantes, pois o golpista já sinalizou que não tem nada e que tudo não passou de uma série de eventos fora de controle que o levaram a sucumbir diante das dificuldades. Isto é, não tenho nada a ver com isso, tenho dois advogados para dizerem isso por mim, justifica-se (nunca faltarão palavras a quem a lábia privilegia). 

_E aí se traduz a lógica do que representa a justiça entre nós. Para o bandido, para o delinquente, para o meliante, enfim, para o transgressor do código tudo se apresenta mais fácil e com mais poder de prontamente fazer valer suas vontades e garantir seus “direitos”. E ai daquele que não respeitar tais preceitos, pois apesar de uma cidade inteira, ou 500 mil pessoas, compartilharem dos ocorridos, não se pode nem supor que o “falastrão” é estelionatário, só podemos sim, imaginar que se trata de um suspeito, e até se julgar e transitar em julgado, é inocente e digno de nosso respeito. 
_PODE um troço desses?!?!? É lícito o direito de um picareta consagrado sobrepor-se a centenas de vítimas e centenas de testemunhas afetadas pelas práticas ilegais dum pintor de paredes?!? 
_SIM, aqui em nosso meio, aqui onde a justiça parece ser cega, surda e muda, os valores sofrem mutações incompreensíveis (só legível para a lei) cujo teor os levam para o rol das anedotas do Brasil, tais como aquela que só mandamos para a cadeia ladrão de galinha. 
_Noutros termos, apesar das acusações e da cadeia em que se mantém seguro, é emblemática, é significativa, é EXEMPLAR a superioridade e confortável estratégia legalmente proporcionada ao ladino Marcos Q. FRENTE aos naturais despreparo e desamparo moral das vítimas cujas chagas sangrarão por “long time”. Coisas vida, diriam! 

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Opnião pública e o poder do rádio

Por Gilrikardo

Prezado Senhor Rogemar Santos

Desde minhas mais tenras memórias que acompanho os programas radiofônicos. Hoje afirmo com toda a convicção que devo muito de minha formação crítica às palavras de inúmeros radialistas cuja audição dedicava em qualquer período das vinte e quatro horas do dia, pois em diversas ocasiões amanhecia com o “radico” ao lado devido ao trabalho noturno em que exercia minhas atividades profissionais. Assim, aprendi inclusive a respeitar alguns poucos e descartar pretensos formadores de opinião que de opinião só tinham palpites. Pois qualquer assunto que se coloque no ar, entendo que se deve ter a consciência da quantidade de pessoas abrangidas, além do grau de discernimento respectivo cujos reflexos certamente atingirão a comunidade. 
Por isso, lhe dirijo esta em alusão ao teu comentário no programa de hoje pela manhã na Rádio Cultura, aproximadamente 7 horas. Quando o assunto era o Vigorelli e você tratou, em minha opinião, muito amadoristicamente, sem isenção, sem compromisso jornalístico, postando-se inclusive ao lado dos manifestantes invasores, tecendo comentários recheados de termos do coitadismo... isto é, eles não tem água, não tem energia, não tem esgoto, não tem estrada, não tem meio de transporte... e isso está CORRETO, pois todos sabem que aquela área não está sujeita à urbanização, é terreno de marinha*, e quem para lá foi sabia disso, e se lá fincou um palanque, fincou sabendo que a terra não era propriedade dele ou dela, sei lá. Eu sou um cidadão comum, nunca invadi área alguma, procuro diariamente praticar a cidadania do respeito às leis e aos membros de minha comunidade. Portanto, ao ouvir um formador de opinião com a tua categoria ficar contra a lei, deixou-me indignado e querendo puxar-lhe a orelha, então considere esta um puxão de orelha e não macules tua trajetória de radialista ao tecer comentários sem muita base legal. Deixo a sugestão para que em casos mais complicados, isto é, onde existe uma certa polêmica, procures estudar o assunto com cautela porque tua opinião poderá estimular ainda mais a invasão de locais proibidos. Continuo admirando teu trabalho e sendo um ouvinte cativo, caso contrário não estaria aqui dedicando-lhe estas palavras. 

Um forte abraço. 
*CONCEITO E NATUREZA JURÍDICA 
O Decreto-lei nº 9.760, de 5 de setembro de 1946, ora em vigor, estabelece, em seus arts. 2º e 3º, a conceituação legal dos terrenos de marinha e acrescidos, respectivamente: 
Art. 2º. São terrenos de marinha, em uma profundidade de 33 (trinta e três) metros medidos horizontalmente, para a parte da terra, da posição da linha do preamar-médio de 1831: 
a) os situados no continente, na costa marítima e nas margens dos rios e lagoas, até onde se faça sentir a influência das marés; 
b) os que contornam as ilhas situadas em zona onde se faça sentir a influência das marés. 
Parágrafo único. Para os efeitos dêste artigo, a influência das marés é caracterizada pela oscilação periódica de 5 (cinco) centímetros, pelo menos do nível das águas, que ocorra em qualquer época do ano. 
Art. 3º. São terrenos acrescidos de marinha os que se tiverem formado, natural ou artificialmente, para o lado do mar ou dos rios e lagoas, em seguimento aos terrenos de marinha.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Mister Eme - Coisas da vida

Por Gilrikardo

Se hoje, com meio século de existência, julgo-me portador de certa ingenuidade que poderia até classificar de patológica. Imagine então, há trinta e tantos anos, representava nesta terra o Cândido* em carne, osso e candura. Nada era feio. Nada era ruim, tampouco existia a maldade. O mundo era um festival de boas intenções, se algo desse errado, de imediato concluía, obra do acaso, nada proposital. Até o dia em que o rumo das coisas apontou outras direções e percebi que tinha muito mais a descobrir sobre a vida. Geralmente aprendemos pela dor, e no meu caso não foi diferente, foi pela experiência de terror vivida no início da adolescência. 
Encontrava-me ao redor de uma mesa entre “amigos” e “conhecidos”, era um jogo de cartas, muito comum lá pelas bandas onde fui criado. Bastava alguns “de varde*”, algumas moedas ou notas no bolso, e pronto, se instalava o cassino. O que iniciava como simples passatempo, logo se mostrava uma batalha entre os egos malandros, ambiciosos, valentões, bobalhões, enfim, era ali que comecei a perceber as transformações humanas, e isso com meu ingênuo olhar que naturalmente ainda não era capaz de prever a profundidade ou consequências dos atos que poderiam advir duma rodada com aquela malta. 
Como não tinha recursos financeiros para entrar no jogo, contentava-me em observar como era que aquilo funcionava. Entre a  fumaça e o cheiro de bebidas alcoólicas que permanecem em minhas narinas até hoje, aquela turma passava as tardes, ou as noites, dependia das sobras financeiras. Alguns não tinham esse problema, tinham sim muitos outros, menos a falta de dinheiro, e entre eles Mister Eme (esqueci-me de seu nome). Era um sujeito que se arranjou na vida aplicando o famoso golpe do baú. Casou-se com a única filha (feia qual canhão, coitadinha!) de uma viúva que além de rica, gerenciava uma grande propriedade rural de sol a sol. Mister Eme, um vagabundo de primeira, nunca havia trabalhado na vida, o pai tinha um pequeno pedaço de terra, suficiente para não morrer de fome. E o que um vagabundo faz quando ganha um monte de dinheiro... oras bolas... fará o que sempre fez... nada! Sim, continuava na mesma vida, só que de automóvel zero quilômetro e a guaiaca recheada. Foi com ele que vi pela primeira vez o novo carro da Chevrolet, o Chevette... o primeiro da região! 
Naquele ambiente existiam muitas outras figuras, mas hoje o que me trouxe aqui foi a lembrança de uma noite fria entre os “camaradas” e a “jogatina”. Lá pelas tantas, percebi o Mister Eme pegando uma carta que não seria a “da vez”, isto é, estava roubando, de imediato gritei que não era aquela, pois em minha cabeça se eram amigos, não poderiam roubar uns dos outros (esse era o Cândido). Foi quando o Mister Eme puxando um revolver do tamanho de uma espingarda, apontou em minha direção e mandou-me ficar sentado ao lado dele, pois assim eu poderia “cuidar” melhor do jogo. Num primeiro instante imaginei ser brincadeira, mas foi perceber o olhar do resto da turma para entender a gravidade do problema. Eu não conhecia o lado negro daquela figura, não tinha dimensão de onde estava a meter-me. Comecei a tremer (era isso que o filho da puta queria) e o ar de bandido baixou naquele sujeito. Imaginem o vagabundo, legítimo pé de chinelo se achando cheio de poder. Poderoso. Pronto para arrepiar, humilhar e dizer a todos que ali ele era o maioral. Eu imóvel, não mexia nem os olhos, só tremia... todos notaram meu estado de pânico total, e aos poucos começaram a tentar amenizar o impacto daquilo. Num determinado momento, meu algoz, disse que iria "tirar a água do joelho", pegou a arma,  apontou para mim e foi em direção ao banheiro, a três metros da mesa. Abriu a porta e não entrou, disse que iria mijar dali mesmo, para não perder a mira. Surtei. E agora. Graças a presença de espírito de um colega de escola que ali estava, percebendo a oportunidade se colocou em frente ao revolver e com a cabeça sinalizou para eu correr. Corri. Não olhei para trás. Só ouvi o estampido de dois disparos. Jurei naquele momento nunca mais chegar perto daquele sujeito.
Cumpri a promessa, segui minha vida em outras querências e tempos depois, retornando à cidade em férias, perguntei para alguém sobre o vivente, e pela primeira vez senti a alegria pelo fim de uma pessoa. Segundo relato, numa noite de muita chuva e intenso frio, Mister Eme e um amigo pegaram duas meninas na saída do colégio e as levaram a mais de cinquenta quilômetros em estradas de chão batido (com chuva, puro barro), tentaram, elas negaram, então deixaram as duas nuas a própria sorte no meio do mato, tiraram-lhes até as sandálias. 
Meses depois do fato, em frente ao colégio em que as moças estudavam, numa sorveteria, parou uma camionete com dois homens, um desceu, entrou e se dirigiu à mesa onde quatro pessoas jogavam cartas. Perguntou quem era o genro da fazendeira Candinha, em meio ao grupo surgiu a voz arrogante a pronunciar, sou eu aqui e daí... o homem na maior calma do mundo, ergueu a mão que segurava um trinta e oito, e ainda mantendo a maior calma mandou dois "tecos"... e os balaços atingiram em cheio o peito do canalha que foi ao chão de costas. Conseguiu balbuciar “eu não quero morrer”... e morreu. 
O atirador era o pai de uma das meninas, toda a cidade sabia, ele não escondeu a cara, nem fugiu, pois voltou para a casa comercial onde era gerente. Não apareceu testemunha para contar o crime na delegacia, nem a esposa e a sogra dele se importaram, ou seja, Mister Eme mexeu com a pessoa errada. Coisas da vida.

*Cândido (personagem Voltaire)
*Varde (expressão utilizada na serra gaúcha, estou de varde, ou seja, estou desocupado)


quarta-feira, 14 de agosto de 2013

O tomate e o Brasil

Por Gilrikardo

Para entender certas coisas, o Brasil entre as quais, devemos buscar a resposta no tomate. Pode parecer estranho, mas desde o ano passado que venho acompanhando de perto a situação. Em julho por exemplo, comprei em oferta a cinquenta centavos o quilo, para dali a alguns dias verificar uma alta que elevou a cinco reais o quilo. Um absurdo. A explicação apontava o vilão: as chuvas de inverno. Tudo bem. Mantive minha observação, pois aqui em casa quem compra e descasca o bichinho sou eu. De julho a dezembro, foram tantas altas e baixas que pipocaram inúmeras reportagens tentando desvendar o mistério. Para mim nada significavam, ou melhor, não explicavam o preço que elevou o produto aos inacreditáveis nove reais o quilo... isso aqui em Joinville SC... vi nos jornais o registro de lugares onde estavam cobrando até doze reais o quilo. Um absurdo. Até da China, as empresas processadoras importavam. Pois bem, lá em julho do ano passado, prometi que não pagaria mais que três reais por quilo, e assim o fiz, era mais barato comprar latas importadas a dois reais, e para saladas dezenas de outras alternativas. Este ano, desde janeiro, o tomate continua em sua odisséia, altas e baixas, e parece que ao bel prazer de alguém... a qualidade também continua lá e cá... hoje, em pleno mês de agosto, procuro a cotação e encontro preço CEASA Sorocaba SP caixa com 22kg 73,30 = R$ 3,33 kg, esse deve chegar ao mercado custando mais que cinco reais, por outro lado em Minas Gerais, produtores se negam a colher a safra, pois o preço que lhes é oferecido pela caixa com 22 kg é R$ 1,00 (um real), quando o custo de produção é estimado em vinte reais. Esse é o Brasil, aliás esse é o tomate na trajetória do Brasil. Onde tentar entender dá uma trabalheira.

PS "Só para comparativos futuros, dólar hoje R$ 2,30"


quarta-feira, 31 de julho de 2013

O Bergamota - Coisas da vida

Por Gilrikardo

Hoje lembrei de um fato ocorrido lá pelos anos oitenta, ainda residia no Rio Grande do Sul, tche! Pois bem, pode parecer uma anedota, piada ou coisa parecida, mas é verdade verdadeira. Acredito que em qualquer recanto desse mundo "véio" sem fronteiras há de se encontrar histórias parecidas. Onde existirem pessoas, existirão "causos pitorescos" como diriam alguns. Mas então vamos lá, desembucha! Tá bom, lá vai.

O ocorrido deu-se com uma figura muito conhecida, vivia da herança deixada pela família, devido à isso nunca se interessou pelo trabalho, nem pelo estudo, levava a vida como se o dinheiro nunca fosse acabar. Para ajudar a passar o tempo, o índio aprendeu a jogar cartas, e deu no que tinha que dar. Passa ano entra ano, e lá está nosso amigo entre cartas e outras jogatinas. Trabalhar nas terras herdadas nem pensar. Arrumar emprego muito menos. Estudar, vixe!, fora de questão. O negócio dele era não fazer nada mesmo. Sem esforço algum. Enquanto existia patrimônio para queimar, beleza, ninguém teria nada a ver com isso. Levou a vida dessa maneira durante dez anos, tempo suficiente para dilapidar quase cem por cento daquilo que havia ganho na moleza. Para sorte do vivente, sobrou só uma casa de madeira que transformou-se em sua morada. E para ganhar a vida, virou garçom do carteado onde apostou a herança. Ganhava praticamente para comer. Quando passava na rua, imaginem cidade do interior, todos repetiam a história sem parar, perdi a conta das vezes que ouvi tais relatos, talvez por isso tenha a boa memória que me leva a escrever hoje. Continuando. O homem literalmente bateu no fundo do poço. Não dava para descer mais. Só morrendo. Nessas ocasiões sempre pinta algum espírito de porco para praticar "Bullying" (naquela época seria sacanear mesmo). Era um brigadiano (policial militar) cuja imagem nunca foi das melhores. Era uma noite de frio, temperatura próxima do zero grau, e estávamos reunidos num Bar e Café aproximadamente cinquenta e poucas pessoas, aliás, cinquenta e poucos bêbados, pois só bêbado para ficar até altas horas num lugar daqueles com o frio de congelar até as canelas. Digo isso de cadeira, pois muitas vezes fui lá encher a cara. Era o "point" da época em que andar de bota, chapéu e pala era comum. E assim bebericávamos em meio a balbúrdia, fumaça de cigarro, charuto e palheiro misturados ao cheiro de bosta de vaca e de cavalo que vinham encravadas nas botas, mais o cheiro de café feito na hora, muitos tomavam com "Graspa", uma espécie de cachaça feita com o álcool da uva. Lá pelas tantas alguém entrou e ao fechar a porta, devido ao vento, escapou-lhe das mãos e deu um estrondo, todos olharam, era o nosso homem da herança, conhecido como Bergamota. Meio encabulado pelo ocorrido, baixou a cabeça e pediu um cafezinho. Lá do outro lado do salão, a vinte poucos metros, o brigadiano metido, era "otoridade". Cheio de trejeitos, bem afrescalhado mesmo, aquele tipo que se acha único e o melhor do mundo em todos os sentidos, escroto mesmo, pois bem, soltou a voz, gritou bem alto para todo mundo ouvir:

--E aí Bergamota, que tu vais fazer agora, contes pra nós, que tu vais fazer depois de enfiar todo o dinheiro no cú, perder uma fazenda no carteado, viver por aí qual mendigo quando poderia estar com a égua na sombra. Agora que você não representa mais nada, vais fazer o quê?

E o Bergamota quieto ouvindo tudo, olhou para o interlocutor, ergueu a cabeça (hoje mais do que nunca entendi o gesto) e com a calma dos justos, simplesmente respondeu:

--Bem, agora vou ser brigadiano!

Silêncio geral, uma quietude de uns trinta segundos, suficiente para marcar a cara de espanto de todos que ali estavam. A partir daquele dia, o Bergamota angariou dezenas de simpatizantes que até lhe facilitaram a vida, e o brigadiano metido, nunca mais apareceu por lá. Virou a piada da cidade até hoje, trinta anos depois. Dizem que são coisas da vida.


quinta-feira, 2 de maio de 2013

Pai e filho na estrada

Por Gilrikardo
 
Aproveitamos o feriado para percorrer a região. Saímos de Joinville numa verdadeira volta olímpica, isto é, Guaramirim, Jaraguá do Sul, Schroeder, Corupá, São Bento do Sul, Campo Alegre e finalmente retorno à Joinville. Ao nos aproximar de Campo Alegre (a 50km de casa), o relógio apontava dezoito horas, a temperatura baixa, um pouco de neblina e para piorar uma fina garoa. 
Seria a segunda vez que passaria por ali, na primeira ocasião era meio dia e verão de sol a pino, serviu para apreciar a paisagem, além de conferir o potencial perigo daquelas curvas. Com tais lembranças iniciei o último trajeto de nossa “aventura” já imaginando possíveis dificuldades que talvez enfrentaria.
E não demorou, pois em determinados trechos era impossível se enxergar a estrada. Não havia demarcação nem os providenciais olhos de gato. Em duas ou três curvas, praticamente reduzi a dez por hora com medo de descer alguma ribanceira. Ao lado meu filho “curtindo” a doideira, achando graça e rindo sem parar, reações típicas de adolescente, além de marinheiro de primeira viagem. 
Por outro lado, eu apreensivo e temeroso. Pedi-lhe que ficasse de olho no velocímetro que não poderia ultrapassar os quarenta quilômetros por hora,  velocidade que considerei segura para qualquer eventualidade, e assim fomos em direção à descida da serra. Até que num determinado momento fomos ultrapassados por duas camionetes, meu filho sugeriu que seguisse atrás, comentei em tom de brincadeira, mas falando sério, que esse negócio de seguir é perigoso, pois se aquele que vai na frente descer um abismo a gente vai junto. Ele achou a maior graça, riu tanto que lhe alertei para continuar de olho do velocímetro. Tinha essa preocupação pelo fato de toda minha atenção estar voltada para a pista que às vezes desaparecia à minha frente. Até que chegamos ao trecho crítico, ali encontramos uma fila de veículos descendo. Ufa!... respirei aliviado pelo simples fato de ter alguma noção de direção a nos conduzir. E próximo ao mirante, na primeira curva (parece um cotovelo), constatamos aquilo que havia dito instantes atrás sobre seguir quem vai na frente. Dois veículos, na curva seguiram reto, pegando o barranco, um atrás do outro. Sorte que era um matagal e terra fofa, assim tão logo sairam da pista perderam a velocidade e ninguém se machucou. Meu filho observou que eles tiveram sorte, pois se fosse no precipício mais à frente o final seria outro. Suspiramos ao nos aproximar da última curva que anunciava trechos planos pelo resto do caminho. 
-Puxa pai! Não sabia que você dirigia tão bem, você é braço hein!
-Não meu filho, dirigi com medo e preocupação, por isso não perdi a atenção nem a noção do perigo. Esse dia é daqueles que você guardará para sempre.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Fatalidade ou fatal idade

Drogas14/04/2013 | 21h55

Polícia investiga morte de adolescente por overdose em Joinville




Por Gilrikardo

Ao ler a matéria cuja manchete reproduzi acima, não pude evitar o meu pitaco que segue: hoje em dia uma moça de dezessete anos não pode ser considerada adolescente, ainda mais se trabalha e estuda - atividades que exigem responsabilidade. Além disso, creio que era esclarecida o suficiente para saber que correria algum risco ao ingerir "balinha" de substância entorpecente. Foi levada pela curiosidade, será? Foi a primeira vez? Talvez, talvez e talvez! Agora só restam as hipóteses. Meu pêsames à família da jovem e meu sincero lamento. 
 
Isso me leva aos meus tempos de “drogado”, sim, já passei essa fase. Iniciou-se com colegas de escola oferecendo “benzina”, um tipo de lança perfume de pobre. Cheirávamos aquilo e já era possível perceber que nossos corações prestes a explodir. Alucinações e visões malucas dominavam cada mente a sua maneira. Foi a porta de entrada para o refinamento do aprendizado de buscar novas drogas. A maconha ainda não era popular, muito menos a cocaína, então sobrava além da benzina, os comprimidos ditos “boletas”- anfetaminas e afins como Mandrix (Mandrax), Anaroxil, Estenabina, Disbutol, Preludin, Mequalon, Lipomax, .... E naqueles dias, se alguém fosse tachado de boleteiro, tava ferrado em mais alto grau. Era considerado um pária. Na minha turma ninguém chegou a tal nível, mas andamos perto. Eramos loucos, mas não burros, como diria meu pai em certa ocasião, assim muito devagar cada um experimentava a dose que imaginasse suficiente (na verdade ninguém sabia dos verdadeiros limites), alguns se contentavam com uma bola, outros duas, três, quatro... e por aí a fora. Certa vez, sozinho em casa, fui para meu quarto e detonei um vidro de Reactivan, fiquei dois dias com o olhar pregado na parede, sem dormir. Foi o maior susto que tomei. E a partir dali meus dias de drogado estariam contados. Mas isto é história para outra hora. 
 
Voltando a menina. Acredito na fatalidade, e não adianta os paladinos virem empunhar bandeiras contra isso ou contra aquilo. Desejar fechar a boate ou casa de shows, responsabilizar outros pela decisão que sempre passará pela escolha individual de cada pessoa. Desde que o mundo aí está, o ser humano persegue o prazer... pouco importa a fonte... então novas drogas virão, novos drogados surgirão, e estatisticamente falando, é provável que novas mortes também.

Adendo da Wikipédia sobre anfetaminas
 
As principais drogas sintéticas proscritas são:

Anfetamina: (“Bolinha” ou “arrebite”). Droga produzida desde 1927 como vasoconstrictor, com ação semelhante à cocaína. Muitas drogas sintéticas são derivadas de anfetaminas.
LSD 25 (Dietilamida de ácido lisérgico). Sintetizado em 1938, e usado como alucinógeno a partir da década de 1950.
Quetamina (Special-K): Anestésico de uso veterinário e humano na forma líquida ou cristal branco que é aspirado. Foi produzido nos anos a partir da década de 1960.
GHB (ácido gama-hidroxibutírico): É usado na forma de sal ou diluído em água (conhecido como “ecstasy líquido”). Inicialmente foi produzido como anestésico, e a partir dadécada de 1960 como droga alucinógena.
GLB (Gama-butirolactona). Derivado do GHB, utilizado com a mesma finalidade.
PCP (Cloridrato de eniciclidina). Pó branco cristalino solúvel em água que surgiu nos anos 70. É inalado, ingerido ou injetado
Cetamina. Droga anestésica derivada do PCP para uso veterinário e humano produzida em 1965, utilizado logo como alucinógeno.
DOB (2,5-dimetoxi-4-bromoanfetamina). Conhecida desde 1967. É um derivado da anfetamina, podendo ser usado como base para a produção do ecstasy.
PMA ( Para-metoxianfetamina ) . Afetamina modificada.
PMMA (Para-metoximetilanfetamina). Anfetamina modificada produzida com o nome de “mitsubishi”
2-CB ( 4-bromo-2,5-dimetoxifenetilamina) . Conhecida como “nexus” tem efeito psicodélico semelhante ao LSD.
2-CT-7 ( 2,5-dimetoxi-4(n)-propiltiofenetilamina ) com efeito psicodélico semelhante ao LSD. O D-CB e o 2-CT-7 foram produzidos na década de 70.
MDMA ( Ecstasy , extase ) : Um derivado de anfetamina. Comprimido ingerido por via oral. O ecstasy foi sintetizado em 1912, e o seu uso como entorpecente iniciou-se na década de 70 nos EUA.
4-MTA (4-metiltioanfetamina) (“flatliner”) é uma anfetamina modificada produzida nos anos 70.
Ice. Uma anfetamina modificada. Um cristal branco semelhante ao gelo. Pode ser injetado, ingerido ou inalado. Surgiu nos anos 80.
Anabolizante: Versão sintética da testosterona. Comprimidos ou ampolas. Via oral ou intramuscular para aumentar a massa corporal.
MPTP (1-metil-4-fenil-1,2,3,6-tetrahidropiridina ) – Surgiu na década de 80 provocando sintomas semelhantes ao mal de Parkinson.

domingo, 14 de abril de 2013

Motoristas?!?!?

Por Gilrikardo

O que dizer de pessoas que ligam o alerta de seus carros em situações diversas - paradas em fila dupla, estacionadas em cima da calçada, em locais de parada proibida, rodando em baixíssima velocidade, ou em alta velocidade, em faixas para pedestres, em vagas destinadas a idosos ou deficientes... enfim da maneira que não encontramos no código nacional de trânsito. Em outras palavras, em desacordo com a lei. E não é simples observação minha, essa prática está pegando corpo, e a cada dia mais pessoas se utilizam de tal artimanha  que parece o  clássico jeitinho brasileiro. 
É dessa maneira que as pessoas desmoralizam ou esvaziam o senso de utilidade do sinal de alerta. Aqui veremos acontecer o que acontece com aquela pessoa mentirosa que após tanto mentir perde a credibilidade, e infelizmente quando conta a verdade ninguém lhes dá ouvido. Assim, ao se ver um carro com o alerta ligado, de imediato deduzimos, é tudo, menos uma EMERGÊNCIA. Ai então, se por acaso vier a ser real perigo, o condutor correrá riscos devido aos motoristas não associarem as piscadas a ocorrências anormais. 
Ultimamente, para mim o sinal de alerta é um aviso de que ali vai um motorista mal educado (em leis de trânsito), além de nota muita baixa em urbanidade.

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Lei 9503 – Código de Trânsito Brasileiro

PISCA-ALERTA - luz intermitente do veículo, utilizada em caráter de advertência, destinada a indicar aos demais usuários da via que o veículo está imobilizado ou em situação de emergência.

Art. 40. O uso de luzes em veículo obedecerá às seguintes determinações:
V - O condutor utilizará o pisca-alerta nas seguintes situações:
a) em imobilizações ou situações de emergência;
b) quando a regulamentação da via assim o determinar;

Capítulo XV Das Infrações

Art. 251. Utilizar as luzes do veículo:

I - o pisca-alerta, exceto em imobilizações ou situações de emergência;
II - baixa e alta de forma intermitente, exceto nas seguintes situações:
a) a curtos intervalos, quando for conveniente advertir a outro condutor que se tem o propósito de ultrapassá-lo;
b) em imobilizações ou situação de emergência, como advertência, utilizando pisca-alerta;
c) quando a sinalização de regulamentação da via determinar o uso do pisca-alerta:

Infração - média R$ 85,13
Penalidade - multa.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Ensino público

Por Gilrikardo

A esperança é a maior e a mais difícil vitória que um homem pode ter sobre a alma" Bernanos, Georges

Um dos grandes entraves do ensino público no Brasil é a total falta de responsabilidade de alguns pais, principalmente daqueles alunos que vão para a escola pelos mais variados motivos, menos estudar. Atitude que compromete a qualidade ainda mais, pois as professoras se vêem investindo tempo e energia na tarefa ingrata de impor a disciplina. Frente a fatos corriqueiros que se transformam num embate porque aquela pessoa não trouxe do berço as mínimas noções dos princípios elementares de uma convivência coletiva. 
E assim, minutos preciosos que deveriam destinar-se a estudos da matéria, costumeiramente se perdem em meio às tentativas de impor algumas regras de urbanidade. Não obstante o estresse desnecessário que, em muitos casos, contribui para a formação dum professor desmotivado, além de abalado física e psicologicamente. 
Aqui cabe a pergunta. Onde andam os responsáveis pelas crianças? cadê o pai? cadê a mãe? cadê... cadê... pois nada mais justo que também dividissem a parcela com os professores. 
Aos pais (mães) caberia a responsabilidade pelos atos desordeiros, de falta de respeito e de intolerância praticados dentro da escola. Mas não é isso que ocorre, e enquanto assim perdurar, a indisciplina vai dominar. Isso é fácil constatar. É só checar as estatísticas sobre violência nas escolas que facilmente emergirão dados que de alguns anos para cá, assustadoramente os índices se elevam. E ninguém... nem da sociedade... nem da comunidade... nem da escola... nem do sindicato... muito menos do governo surge com essa cobrança. 
Creio ser justa, além de ser o "Q" da questão. Se o aluno é mal educado, vamos educar o aluno e o responsável. De que forma? A cada indisciplina e falta de comprometimento do aluno, convoque o comparecimento do pai na escola. Mostre com esse ato como é perder um precioso tempo de sua vida por causa da falta do filho. Se forem todos os dias, que sejam chamados diariamente ou até aprenderem. 
Desde que o mundo é mundo, inclusive entre os bichos, os genitores assumem e defendem com unhas e dentes suas crias. Diante disso, ousaria afirmar que em determinados casos, os animais irracionais estão cumprindo em melhor escala o papel que a natureza lhes legou, pois exercem de maneira exemplar tanto a paternidade quanto a maternidade. Comportamentos a desejar em muitos humanos ditos racionais. 
Mesmo diante de um cenário horroroso, não se vê nem nas entrelinhas alguma iniciativa de governo que venha a responsabilizar os pais faltosos em cumprir seus indelegáveis papéis. Enquanto tal compromisso não ficar claro, bem definido, com regras e consequências... continuaremos a lamentar o tempo perdido.
Questiono-me, que tenho a ver com isso, infelizmente respondo que tenho tudo a ver com isso, digo infelizmente porque nada poderei fazer, nada em mim tem algum poder, aliás, a única coisa que me mantém é a crença na esperança atiçada em mal traçadas linhas! Até a próxima!

PS: Enquanto isso aos professores e professoras, mui injustamente, imputa-se a responsabilidade de pais / mães e não de educadores.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Papo-furado

Por Gilrikardo

Hoje pela manhã, no trânsito, ouvia um programa de uma rádio local. Não peguei o início da conversa, mas era um vereador se justificando, não consegui captar toda a conversa, só me fixei em sua despedida e na forma que esses caras fazem "política":

--Eu não queria ser vereador, só aceitei para defender os mais humildes, só para ajudar. Mesmo porque o meu trabalho sempre foi o rádio, a comunicação, isso sim é minha cachaça. Por isso continuarei no ar. E se eles falam mal é porque estão incomodados e querem me tirar da política. Mas não adianta, vou continuar porque essa gente pobre que não tem nada precisa do nosso trabalho.

Abaixo, leitura e comentário das entrelinhas:

Esse papo de dizer que não queria, já é antigo. É a famosa justificativa para as futuras ações cujo resultado tanto faz, já que ele não queria ser vereador. O que fizer estará bem feito. Mesmo que não faça nada. E o pior de tudo que esse raciocínio dá certo, pois no próximo pleito será reeleito.

Seguindo, defender os mais humildes sempre dá voto, pois são os detentores da maioria dos títulos eleitorais e esse papo é para quem o elegeu. Cá para nós, quem não gosta de poder e dinheiro, pelo menos entendo assim, se aceitou foi pelas vantagens que o cargo dá. Fora disso, é hipocrisia. 

Se o rádio e a comunicação é o que interessa, por que não ficou no rádio. Na verdade essa questão nada tem a ver com gostar ou não gostar... acontece que no próximo ano ocorre a eleição estadual e o dito nem esquentou a cadeira e precisa do rádio/televisão para continuar em campanha na mira dum cargo estadual... (me engana que eu gosto) 

E por favor, não critiquem o menino, se não ele apela para o chavão mais antigo da política: é intriga da oposição. Essa é a resposta para toda e qualquer crítica cujo candidato não tem justificativa ou resposta. (E faz de conta que no Brasil existe oposição. Nossa política é um PARTIDÃO DOS POLÍTICOS e o resto.)

Finalmente, ratificou mais uma vez o pedido de votos aos pobres em geral (pois são maioria e são de fácil convencimento). É a famosa política do coitadismo ou paternalista, ou esmoleira, ou da compra de votos, ou enganação... tudo que não represente inteligência e conscientização... se eu não pagasse imposto em hipótese alguma estaria aqui perdendo tempo, mas infelizmente meu suor ajuda a mantê-los, assim pelo menos me dou o direito de berrar e espernear,   já que o minha opinião pouco ou nenhuma diferença fará. Essa é a Joinville que roubou meu coração. E acreditar que têm gentes de montão que não estão nem aí para tais questões. Talvez por isso somos dominados por uma classe dessa "catigoria". Cheia de vícios... e principalmente, cheia de papos-furados.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Associação de Eleitores de Joinville

Por Gilrikardo
Diante do atual quadro político do país, dificilmente o povo terá literalmente vez e voz, pois a quem caberia nos representar nesta tarefa há muito virou as costas, e por vários motivos, entre os quais o exclusivo envolvimento em questões pessoais. Sai eleição, entra eleição a cada dois anos e vergonhosamente transparece o intuito primeiro de ajeitar a vida dos correligionários que ficaram avulsos pelo meio do caminho, isto é, perderam eleição ou não se reelegeram, ou ainda a perda dos famosos cargos comissionados, e aí a máquina estatal (sob gestão partidária) sempre solícita, prioriza a minoria em detrimento da maioria. 
Esta é a cultura. É a prática implantada por quem faz as leis e cria as determinadas facilidades. Aos que deveriam opinar, ou pelo menos serem ouvidos, nunca chegam as consultas e da forma que vai, nunca chegarão. 
Está na hora de rompermos o silêncio e conquistarmos o nosso direito de participar ativamente de nossos destinos. Não basta passar uma procuração em branco na esperança de que as “PROMESSAS” serão cumpridas. Já possuímos exemplos suficientes para não aceitarmos mais esse tipo de relação. PROMETE > É ELEITO > NÃO CUMPRE O PROMETIDO e fica por isso mesmo. Existe uma maneira para enfrentarmos essa distorção entre tantas outras, é atuarmos organizados como eles se organizam. 
E como nos organizamos? 
Através de uma ASSOCIAÇÃO DE ELEITORES. Sim, essa é uma forma legal e inteligente de fiscalizar aqueles a quem demos a procuração para defender e trabalhar pelo interesse da maioria. Coisa rara em nossos dias. 
Fica aqui minha sugestão e proposta, se você acredita que assim poderemos fazer algo de concreto, por favor entre em contato, e quando atingirmos um número significativo de interessados formaremos a Associação de Eleitores de Joinville SC. 
Endereço para contato: gilrikardo@gmail.com 

sábado, 30 de março de 2013

Uma partida de dominó

Por Gilrikardo

A vida de cada um de nós é, mui provavelmente, o sentido que cada um de nós lhes dá. É o realizável que muitas vezes distante do desejo nos apresenta a frustração. Estou aqui por quê? Isso significa algo em minha vida? São indagações que por nós, unicamente nós, devemos responder, além de viver, pois em um mundo cheio de oportunistas, não faltarão slogans a determinarem tais destinos: “Por que você merece” “Feito para você” “Quem tem é o melhor”... e assim por diante. Em outras palavras, a tua vida é o que tu fizeres por ela. Abaixo registro um momento a fim de ilustrar minha opinião. 

- Vivemos o paradoxo em se querer saber tudo e assim viver em um poço sem fundo onde nem todas as respostas estão disponíveis ou conformar-se com o mundo que aí está e pronto. Acredito que ideal é o bom senso, o meio-termo, é o equilíbrio entre essas duas situações, no entanto essa batalha em estabelecer limites tanto para nossos questionamentos quanto para nosso conformismo parece ser a “graça” a nos conduzir. 

E continuava ele... 

- Poderíamos dizer que esta falta de medida em nos determinar limites é a força que nos leva, mesmo a trancos e barrancos, a agir como “seres humanos”; seres aptos a decidir, mesmo sem os ideais para tal, o rumo e a forma de nossos pensamentos.” 

Dito isso, aquele velho jogador de dominós, levantou-se da mesa e pôs-se a questionar seus amigos. Perguntou-lhes se a vida era para ser gasta jogando dominós. A resposta que obteve: 

- Grande amigo e companheiro de tantas jogadas, em nossa atual condição, velhos aposentados e prontos para a “reta de chegada” nos caberia mais o quê, além do prazer de estar na presença daqueles que nos trazem conforto. 

- Conforto! Isso é estar confortável? 

- Sim, para mim isto é sentir-se tranqüilo. Estar entre às pessoas que já me conhecem há muito; portanto conhecedoras de minhas limitações e virtudes. 

- Então você quer dizer que está satisfeito com nossa atual situação. Tudo está como deveria estar e fim. 

- Sim! 

O velho não contestou, simplesmente coçou “a careca”, ajeitou as calças, lançou o olhar ao horizonte e continuou em sua reflexão. Ainda preso a seus pensamentos, senta-se à mesa, pois deveria fazer a sua jogada, restavam-lhe três pedras. Após dispensar a pedra seis e quatro, volta-se e continua perguntando: 

- Não acredito que estejamos somente velhos e aposentados, essa é uma condição parcial sobre nossas vidas, isto é, nos limita a certas atividades. Um garoto de dez anos não pode dirigir ou um senhor de quarenta e poucos anos nunca será um atleta olímpico, essas limitações são naturais e compreensíveis. 

O amigo responde-lhe: 

- Puxa!, hoje você tá um “baita xaropão”, o que você quer que a gente faça. Estamos nessa rotina há anos e você agora vem querer mudar nossos destinos. 

Levanta-se da cadeira e lança seus argumentos: 

- Quem sabe de seus destinos? Estou perguntando se a sensação de que seus pensamentos e emoções ficaram idosas, é isso que eu quero saber, pois eu me sinto sempre o mesmo, não tenho a impressão de que estou com mais de setenta anos, sinto-me naturalmente o mesmo de sempre, com algumas adaptações inerentes a vida humana (a dentadura às vezes lhe incomodava). 

O amigo pede para ele continuar a partida, pois ainda tem jogo pela frente, ele joga a pedra três e dois, só lhe resta mais uma. Seu olhar permanece alerta como se estivesse procurando alguma resposta no horizonte. Eram cinco amigos que haviam crescido no mesmo bairro e estudado no mesmo colégio, enfim pareciam irmãos de tantas semelhanças em suas vidas. 

Lá vem ele novamente: 

- Qual o motivo que nos traz aqui nesta mesa quase todos os dias, será que é somente o dominó? Será a agradável companhia dos amigos? Ou será que não procuramos alternativas melhores e nos conformamos com o que está aí porque está pronto. 

Ao que o amigo responde: 

- É, hoje você tirou o dia para “filosofar” e pelo jeito vamos chegar ao lugar de sempre... nenhum? Aproveita e joga, é a tua vez. 

- Hummm! Passo, não tenho cinco e dois, mas estou pela boa pessoal. 

E assim, seguiram animados em mais um dia de dominó, cada um com seus pensamentos e opiniões. Eu insatisfeito com a idéia de que só nos restaria jogar dominós, segui meus instintos e por isso estou aqui digitando essas linhas na tentativa de amenizar meu inconformismo ou quem sabe alimentar meu otimismo pelas possibilidades que a vida nos dá em qualquer momento da jornada.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Arapuca - Coisas da vida

Por Gilrikardo 
Na vida nada se perde, tudo se transforma. Talvez seja a minha oportunidade de fazer uma limonada. Vamos ao que interessa.

Curitiba, anos oitenta, o guri recém chegado do interior, trazia no currículo toda a ingenuidade, valores e desconhecimentos cultivados desde o berço naquele rincão dos quintos do Rio Grande do Sul. Não seria o primeiro que ali aportava para também garimpar aquilo que praticamente todos os seres humanos almejam – condições melhores de presente e futuro. Pois donde vinha, o destino já estava traçado, ser o que seus antepassados foram, apenas sobreviventes a duras penas. E essa concepção de mundo não lhe agradava nem um pouco. Assim, cheio de gás e de esperança, passava os primeiros dias percorrendo as páginas dos classificados e também as agências de emprego. Não era fácil entender a dificuldade, pois num mundão daquele tamanho, com aquela quantidade de prédios, pessoas, carros, ruas e movimentos, as oportunidades de emprego não se apresentavam com semelhante intensidade. 

Indagava-me se havia algo de errado comigo, não enxergava nada, aliás todos temos dificuldades em nos olhar no espelho e ver quem realmente somos. Na maioria dos casos não chegava nem na entrevista, o motivo anunciado era a tal falta de experiência. Como vencer essa barreira. Ai lembrei-me porque em minha cidade de origem se falava que fulano tinha “padrinho”, que beltrano tinha “Q.I.”. Pois era assim que a etapa da experiência era lá ultrapassada. Ali onde estava o currículo era a peça fundamental e a maior pedra no meio do meu caminho. Sem padrinho, sem Q.I., sem currículo, sem dinheiro, não conseguia nem imaginar o que mais me faltaria. Mas uma coisa eu tinha para dar e vender, a necessidade de persistir. Dessa maneira prosseguir tornou-se meu meio de vida. Prosseguir. Dia após dia. Prosseguir. Até que surgiu um classificado precisando de pessoas sem experiência e com vontade de ganhar dinheiro. É o tipo de anúncio compatível com quase cem por cento da população, e não é a toa. 

Apresentei-me, era em um hotel cinco estrelas, no auditório um lanche para os “esfomeados” que vinham chegando, meu deus, parecia que ali era albergue para matar a fome, os caras enfiavam cinco bolachas de uma vez na boca, em vez de cafezinho, pegavam o copo de tomar água e enchiam com café até vazar. Nossa, fiquei surpreso com aquelas gentes, mais ainda por estar ali forçado pela minha condição, caso contrário daria meia volta sem vacilar. 

Os "empresários" eram cinco ou seis, bem articulados, pronunciaram cada um seu discurso, conversa é que não faltava àquele bando. A proposta consistia num emprego na filial que seria aberta em breve, para se chegar à vaga, os candidatos deveriam obter o maior número de pontos oriundos da venda de uma peça de plástico adaptável ao liquidificador - segundo a empresa, era parte do teste de seleção. O pessoal que não gostava de vendas, levantou-se e foi embora, ficamos os necessitados e apavorados. Peguei a minha cota, dez aparelhos. Para conquistar tal emprego, era necessário vender no mínimo cinquenta peças, sem esse número a gente só ganharia a comissão. Saí a campo com aqueles badulaques, e no primeiro dia vendi cinco peças, o bastante para me animar e sair cedinho no próximo dia. 

No decorrer da semana não consegui vender as restantes, sobraram três peças. No fim do quinto dia, coincidência do destino, uma menina que também estava lá no hotel, cruzou no meu caminho. Talvez sensibilizada pelo que estava prestes a acontecer comigo, abriu o jogo e contou-me que ela já havia caído na “ARAPUCA” noutra ocasião e que essa não parecia diferente. Ou seja, contratavam as pessoas com a promessa de uma vaga de emprego. Como teste de seleção, faziam os idiotas trabalharem de graça. Sim de graça, pois a comissão era uma merreca. Para eles importava a venda do produto, ali estava a grande parcela do lucro. Não importava a quantidade vendida, pois não existia empresa nem emprego algum. Agradeci à moça, e indignado terminei o dia. À noite na companhia de meu travesseiro, quase não dormi, iria a polícia no outro dia, resmungava. 

Amanheceu e pela manhã direto à Delegacia Especializada, não lembro o nome, mas segundo informações que recebi de um agente parado em frente a uma viatura, o meu tipo de ocorrência era lá. Ao entrar um duplo sentimento se apoderou de mim, a raiva por estar fazendo papel de otário aliada ao medo daqueles sujeitos. Pedi para falar com o delegado, queria fazer uma denúncia, prontamente me encaminharam para a sala do homem, abri o verbo e contei a história. Agora era só me levantar e deixar a bomba explodir. Quando esbocei ir embora, o delegado olhou-me e soletrou, e o senhor fica aí, vais aguardar a chegada dos elementos para apontá-los. Quase desmaiei, agora que aqueles caras vão me matar, imaginava eu. Se soubesse disso, não teria vindo. E agora. Esperei e quando a rapaziada chegou, o delegado se revelou, mandou que todos esvaziassem os bolsos e colocassem em cima da mesa. Enquanto isso eu permanecia sentado, agora sob o olhar da quadrilha. Antes de prosseguir, o delegado na presença de dois agentes, apontou o dedo para mim e pronunciou as seguintes palavras: 

--Olha aqui, corja de estelionatários, quando vocês virem esse guri aí pela rua, fiquem o mais longe que puderem dele, sugiro nem pegar o mesmo ônibus que ele, nem em sonho se dirijam a ele, a melhor coisa que tem a fazer é esquecer que ele existe, entenderam?... Entenderam vagabundos?... Silêncio... Querem me testar? Última chance... Entenderam?

--Sim senhor, sim, entendemos, sim senhor, pode ficar tranquilo chefe, entendemos perfeitamente. 

Momento em que o delegado começou a procurar em meio a papelada atirada em sua mesa, o dinheiro deles e colocar no bolso da camisa, isso na minha frente e de todos que ali estavam. Fiquei apavorado, mas logo a seguir fui liberado e ao rumar para a saída encontrei com algumas dezenas de pessoas na garagem, pois a ordem era trazer tudo que estivesse na sala do hotel. Um policial comunicou que poderíamos levar do lote da apreensão a quantidade de produtos que conseguíssemos carregar. Não me fiz de rogado. Abracei umas vinte caixas, peguei a rua e desci a ladeira com jeito, sentimento e cara de tristeza lembrando que ARAPUCA em minha terra era para prender passarinho e ali para pegar “trouxa”. 

P.S. “Deixo essa limonada em sinal de alerta às pessoas que pelas circunstâncias também procuram oportunidades de trabalho”