Mas voltemos à minha amiga. Entreguei os textos e dei o caso como encerrado. No outro dia, ao revê-la, imediatamente indaguei se os tinha lido. Olhou para mim com um sorriso amarelo e disse que não deu tempo. Naquele momento, veio a ideia do motivo pelo qual multidões andam por aí sem saber se estão vivas ou mortas. Verdadeiros zumbis, anestesiados pelo lugar-comum, pelo pensamento comum — o tal imaginário coletivo de que o ato de pensar é desprovido de importância. "Ou não é preciso pensar, outros pensam por mim", devem imaginar.
Fiquei surpreso que uma pessoa como aquela, que teceu mil comentários a respeito de sua vontade de ser bailarina, ou simplesmente dançar — dizia que sempre se imaginou dançando desde jovem, e até confessou que seu talento seria esse — tenha reagido assim. Acreditei nela, como acredito no talento natural de cada ser humano, tanto que até descrevi, em uma crônica, minha crítica à postura de quem tem condições de exercer a sua originalidade diante das circunstâncias do mundo atual. É um assunto que mexe com minha imaginação e interesse.
Ao vê-la relatar aquele legítimo desejo, senti-me sensibilizado e simpático ao entregar aquelas linhas de reflexão sobre o que nos leva a realizar ou abandonar nossos sonhos. Desejava injetar-lhe algumas gotas de otimismo e motivação para seguir em frente; deixar florescer aquela semente, mesmo na idade adulta. Mas a minha santa ingenuidade bateu com a cara na realidade dos dias de hoje, quando as pessoas não têm interesse nem coragem de ler apenas algumas linhas em busca do conhecimento, em busca do pensamento, para, quem sabe, atingir graus de felicidade.
Fiquei triste e assustado ao constatar que as pessoas preferem a MESMICE da multidão ao DESAFIO da individualidade — caminho que persigo, inclusive agora, com estas linhas.
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