terça-feira, 19 de maio de 2026

A Moça do Shopping

Aquela era minha tarde no shopping em companhia de meu namorado, combinamos lanchar e tirar uns momentos de descontração. Nos ajeitamos num local aleatório. Ali, após alguns minutos de conversas banais, meu namorado se “agarrou” no celular e eu, já acostumada com tal rotina, descansei o olhar na paisagem do local. E para minha alegria visualizei a três metros aproximadamente, no balcão onde se carregam celulares, a presença de duas pessoas vividas, os cabelos brancos e a careca dele contrastavam com a figura feminina e vaidosa ao seu lado.

Não resisti e acompanhei aquele momento onde os gestos dele, ao acariciar seu rosto e ao roubar-lhe um beijo, a deixavam dengosa, com risinhos de quem está aceitando aqueles avanços discretos e cheios de intenções. Pareciam estar em outro mundo, pois agiam sem perturbarem-se com o ambiente cheio de pessoas num vai e vem de sábados. Aos poucos me perdi no quanto tempo estávamos ali, eu e aquele casal em sua aventura amorosa, dois seres em busca de conexão duma maneira gentil, e cheia de ousadias contidas, bem ao sabor de quem tem anos de estrada.

Minha observação foi tomando um volume tão grande que parecia hipnotizada, meus olhos denunciavam a quem me visse que eu estaria noutro mundo. Aquela relação eu só tinha visto em filmes e romances infanto juvenis. Por isso não resisti e quando eles levantaram para sair, seus olhares cruzaram comigo e pude perceber a vida pulsando em duas almas vividas e cheias de amor pra dar.

Obrigado ao casal.


terça-feira, 12 de maio de 2026

Uma Tarde No Shopping

Ao me levantar da cadeira e girar o corpo para ir embora, fui sequestrado pelo olhar da moça na mesa ao lado. Ela me fitava de uma maneira intrigada, como se quisesse dizer alguma coisa. Percebi em seu semblante um fascínio mudo, um desejo indiscreto de decifrar quem eu era. O contato visual se sustentou até que eu, por iniciativa própria, desviasse os olhos. Mas aqueles poucos segundos de encarada criaram em mim a necessidade de entender a cena.

E como explicar aquele olhar sem revelar o que a moça estivera assistindo na última hora e tantos minutos? O que ela via éramos eu e minha companhia feminina em pura expressão de nossas emoções. Estávamos imersos na conversa de dois adultos maduros iniciando um relacionamento. O assunto só poderíamos ser nós e a nossa conexão. Assim, a cada palavra dita, eu acariciava seu rosto e roubava-lhe um beijo de leve.

Os dengos seguiam a cadência de quem deseja ser acariciada, e eu não economizava energia nem entusiasmo ao segurar suas mãos, apertar seus dedos e provocar com aquela sutil conotação de desejo. Ouvir sua risada de concordância instigava ainda mais o guerreiro que despertara dentro de mim.

Tudo isso fluía com a naturalidade de duas pessoas que não estão nem aí para o ambiente ao redor. O que nos importava era o nosso aqui e agora. Aquele era o momento que ficaria gravado em nossas memórias, porque a nossa conexão havia, enfim, dado a partida. Era a primeira marcha; era o início do nosso destino sendo escrito à vista de todos.

E como não reparar naqueles dois "velhos" imersos numa onda de carícias e intimidade quase explosiva? Foi exatamente isso que atraiu a atenção daquela desconhecida, que acompanhou a nossa partida com um misto de curiosidade e reverência. Um olhar que testemunhou a vida que fervia em nós.

Obrigado, moça!

terça-feira, 5 de maio de 2026

O Lamento da Bobinha de Balneário

Tenho em minha cabeça de cronista a imagem viva da "Bobinha de Balneário Camboriú", a Terezinha. Sinto a necessidade de descrever o lado ingênuo e humano dessa mulher que construiu uma fantasia sobre mim; uma fantasia que eu, percebendo, ainda alimentei por uma semana antes de romper a relação que, convenhamos, estava destinada ao fracasso desde o primeiro instante.

A conheci num site de relacionamentos. Em duas ou três conversas, intimei-a para um encontro. Queria ver se teríamos algo em comum, além dos caracteres de uma tela. De imediato, sem questionar, ela me deu seu número. Ali começou um diálogo onde a fantasia foi o ponto culminante. Desde as primeiras impressões, ela me tratava como algo especial, um enviado de Deus que ouvira suas preces. Para ela, eu não tinha defeitos — era um conjunto de virtudes e mais virtudes: inteligente, bonito por dentro e por fora, de coração bondoso e um escritor talentoso.

Aquilo começou a me incomodar. Não é normal alguém olhar para você e enxergar apenas a perfeição. Nenhuma crítica, nenhum comentário sobre um detalhe menos nobre... nada, nadinha. Essa ausência de senso crítico despertou em mim a sensação de que ela estava, na verdade, desesperada.

O atrativo físico era zero. Ela carregava os resquícios de uma obesidade mórbida; provavelmente fizera bariátrica, mas restara a papada, os braços mais volumosos que os meus e uma barriga saliente. E mancava. Ela jurava que rompera os tendões e que não mancava mais, mas o passo coxo era impossível de esconder. Aquilo me perturbava. O que eu estava fazendo ali?

Fui porque acreditei na sua "conversa mole": disse que também escrevia, que adorava ler, que tinha centenas de CDs e LPs. Posicionou-se como minha versão feminina. Dei-lhe o crédito e colaborei com sua fantasia, mas, ao confrontar os discos e os livros, o castelo veio abaixo. Era tudo material de igreja: escritos para cultos, livros de pastores e religião. Percebi, então, o tiro errado que eu dera.

Para piorar, ela não reservou um minuto sequer para a nossa intimidade — o que hoje, sinceramente, agradeço. Como "empresária", colocou-me em sua caminhonete e fomos cobrar contas. Só imaginei que, em breve, estaria carregando caixas para ela. Levou-me para conhecer a mãe, de quem cuidava. Não aguentei e perguntei se era um "combo": para levar a filha, teria que levar a mãe junto? Ela apenas concordou.

Na sua imaginação de cinco anos de viuvez, ela sentia falta de exibir um parceiro. Queria sair de mãos dadas, desfilar na orla de Balneário, tirar fotos para mostrar ao mundo. Ver aquilo me deixou triste e frustrado. Comecei a sentir pena. Mas o golpe fatal veio da forma mais mesquinha: ao voltarmos do mercado, ela me sinalizou desesperadamente para que eu não entrasse na casa. Mandou-me esperar lá fora, escondido, porque a filha chegara para visitar a avó e ela não queria me apresentar.

Aquilo foi o fim. Uma autoridade em Joinville, cidadão de vida ilibada e de primeira categoria, tendo que se esconder de uma desconhecida. Ali ocorreu a ruptura. Voltei mais tarde, cancelamos o passeio noturno e, após o jantar, mandei a mensagem e disse-lhe ao vivo: estou indo embora. A reação dela foi mais fria que um picolé. Disse apenas: "Tudo bem, é o que você quer".

Nos abraçamos, demos um tchau e nunca mais a vi. Trocamos poucas mensagens de adeus e deixei que ela tomasse a iniciativa de me bloquear. Essa história não habita meu coração como raiva ou frustração. Fica como um lamento de respeito à memória dela; um lamento e uma ponta de pena da "Bobinha", incapaz de enxergar um palmo diante do nariz. Sei que continuará solitária, pois na vida que leva, entre os compromissos com a igreja e a mãe, será difícil dividir-se com alguém que fatalmente precisará de afeto e carinho — artigos inexistentes na rotina dela.

Coisas da vida que me fazem cronista.