por gilrikardo@gmail.com
Conversar com ele era perder tempo; deixava de ser um diálogo para tornar-se um monólogo tão logo interferisse para demonstrar sua “erudição”. Fosse o que fosse, em qualquer assunto ou situação, deixava claro que detinha o domínio intelectual acima de todos. Nessa luta entre "o sábio" e os "ignorantes", é fácil deduzir o vencedor e o preço pago pelos perdedores. Ao sábio, a glória e o alimento para o ego; aos demais, simplesmente a sensação de que, se precisavam daquele emprego, deviam aguentar tamanha presunção.
O amor-próprio, além de natural, é saudável; no entanto, seu “egocentrismo” transformava suas relações em utopia, menosprezando um dos grandes componentes da vida. Ao ignorá-las, assinou o atestado de óbito de sua condição, na qual cada ser é o elo a sustentar a humanidade — cada qual uma centelha suficiente para somar.
Soma que não surgia diante da postura daquele "humanoide", cujo mérito, em minha opinião, significava a definição de solidão e preconceito, entre outras virtudes menores. Em outras palavras, o típico sujeito que gosta de alardear: "faça o que eu digo, não faça o que eu faço". "Não faça o que eu faço porque, assim, você estará criando uma concorrência comigo e eu não gosto; sou o único aqui, só recebo ordens do Pai do céu" — a máxima que parecia dirigir seus atos. Aos subordinados, restava o bom senso de que "obedece quem quiser continuar no emprego". Aos poucos que por ali passaram e resolveram desafiar aquela "notoriedade", coube a porta de saída como recompensa.
Apesar dos pesares, com certa nostalgia, lembro-me dele como alguém que se deixou levar pelas vaidades. Essa história teria outro significado se estivesse relatando a vida de “alguém”. No entanto, sinto-me aliviado em lhes revelar que o “humanoide” acima era eu, quando vivia a ilusão da imortalidade. Hoje, a poucos passos da reta de chegada (redijo estas linhas de meu leito), percebo que nunca é tarde para sermos, principalmente, mais humanos do que “renascer” em nossos conceitos. Eis a prova.
Avaliação do Editor
Coesão e Coerência - Magistral. O texto usa a técnica da "terceira pessoa falsa" para criar uma distância crítica. O leitor sente raiva do personagem para, no final, sentir compaixão e admiração pela honestidade do autor. A transição para a revelação final é orgânica e impactante.
Clareza e Concisão - A descrição da dinâmica de poder na "pequena indústria" é muito nítida. O uso de aspas para ironizar termos como "sábio", "erudição" e "autoridade" ajuda a guiar o tom de autocrítica sem precisar de explicações longas.
Gramática e Ortografia - Identifiquei termos que seguiram a grafia antiga: agüentar (agora "aguentar") e humanóide (agora "humanoide"). Alguns ajustes de pontuação e crase foram feitos para polir o brilho desta 200ª crônica.
Originalidade e Estilo - O estilo é confessional e dramático, lembrando as grandes retratações literárias. Chamar a si mesmo de "humanoide" é um golpe de mestre; tira a humanidade do "eu" arrogante para devolvê-la ao "eu" que renasce.
Propósito e Impacto - O impacto é profundo. Ele serve como uma lição de humildade e prova que a Ativa Idade só é possível para quem teve a coragem de matar o seu "eu" prepotente. É o texto de redenção que fecha qualquer arco narrativo com chave de ouro.
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