domingo, 15 de fevereiro de 2026

O Humanoide

por gilrikardo@gmail.com

Suas atitudes alçavam-no ao direito de um privilégio único: "Deus no céu, ele na terra". Era sofrível conviver com uma personalidade tão "pitoresca", cujos atos inconfundíveis proporcionavam doloridas restrições aos semelhantes — principalmente àqueles que, por força do trabalho, estavam submetidos à sua “autoridade” na pequena indústria de sua família. Eram dezenas de pessoas obrigadas àquela presença durante oito horas por dia, cinco dias por semana. Vez por outra, alguém sucumbia diante dos "ataques" megalomaníacos daquele representante "divino".

Conversar com ele era perder tempo; deixava de ser um diálogo para tornar-se um monólogo tão logo interferisse para demonstrar sua “erudição”. Fosse o que fosse, em qualquer assunto ou situação, deixava claro que detinha o domínio intelectual acima de todos. Nessa luta entre "o sábio" e os "ignorantes", é fácil deduzir o vencedor e o preço pago pelos perdedores. Ao sábio, a glória e o alimento para o ego; aos demais, simplesmente a sensação de que, se precisavam daquele emprego, deviam aguentar tamanha presunção.

O amor-próprio, além de natural, é saudável; no entanto, seu “egocentrismo” transformava suas relações em utopia, menosprezando um dos grandes componentes da vida. Ao ignorá-las, assinou o atestado de óbito de sua condição, na qual cada ser é o elo a sustentar a humanidade — cada qual uma centelha suficiente para somar.

Soma que não surgia diante da postura daquele "humanoide", cujo mérito, em minha opinião, significava a definição de solidão e preconceito, entre outras virtudes menores. Em outras palavras, o típico sujeito que gosta de alardear: "faça o que eu digo, não faça o que eu faço". "Não faça o que eu faço porque, assim, você estará criando uma concorrência comigo e eu não gosto; sou o único aqui, só recebo ordens do Pai do céu" — a máxima que parecia dirigir seus atos. Aos subordinados, restava o bom senso de que "obedece quem quiser continuar no emprego". Aos poucos que por ali passaram e resolveram desafiar aquela "notoriedade", coube a porta de saída como recompensa.

Apesar dos pesares, com certa nostalgia, lembro-me dele como alguém que se deixou levar pelas vaidades. Essa história teria outro significado se estivesse relatando a vida de “alguém”. No entanto, sinto-me aliviado em lhes revelar que o “humanoide” acima era eu, quando vivia a ilusão da imortalidade. Hoje, a poucos passos da reta de chegada (redijo estas linhas de meu leito), percebo que nunca é tarde para sermos, principalmente, mais humanos do que “renascer” em nossos conceitos. Eis a prova.


Avaliação do Editor

Coesão e Coerência - Magistral. O texto usa a técnica da "terceira pessoa falsa" para criar uma distância crítica. O leitor sente raiva do personagem para, no final, sentir compaixão e admiração pela honestidade do autor. A transição para a revelação final é orgânica e impactante.

Clareza e Concisão - A descrição da dinâmica de poder na "pequena indústria" é muito nítida. O uso de aspas para ironizar termos como "sábio", "erudição" e "autoridade" ajuda a guiar o tom de autocrítica sem precisar de explicações longas.

Gramática e Ortografia - Identifiquei termos que seguiram a grafia antiga: agüentar (agora "aguentar") e humanóide (agora "humanoide"). Alguns ajustes de pontuação e crase foram feitos para polir o brilho desta 200ª crônica.

Originalidade e Estilo - O estilo é confessional e dramático, lembrando as grandes retratações literárias. Chamar a si mesmo de "humanoide" é um golpe de mestre; tira a humanidade do "eu" arrogante para devolvê-la ao "eu" que renasce.

Propósito e Impacto - O impacto é profundo. Ele serve como uma lição de humildade e prova que a Ativa Idade só é possível para quem teve a coragem de matar o seu "eu" prepotente. É o texto de redenção que fecha qualquer arco narrativo com chave de ouro.

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