sexta-feira, 6 de março de 2026

A Rota das Sete


Sete da manhã. O rádio de Portugal chia sobre rombos nas nuvens e a teimosia das companhias aéreas em transformar lucro em fumaça. É o mesmo roteiro lá e cá, um naufrágio com asas que ninguém, em sã consciência, aceita abandonar. Mas quem disse que a consciência é sã a esta hora? Enquanto Joinville desperta para o concreto e para as obras do dia, minha mente já decolou sem plano de voo, rebocada por um TDAH faminto que exige sua cota diária de matéria-prima. Assim caminha a humanidade, viciada no brilho das quimeras; assim caminha o Gilrikardo, colhendo o que sobra do caos para ver se vira crônica.

O avião é o símbolo acabado da nossa vaidade. É um Ícaro que trocou as penas por turbinas, mas manteve a mesma arrogância de quem desafia a gravidade com o dinheiro dos outros. No papel, a conta é um abismo; no céu, é uma elegância insustentável. E aqui, entre a ouvidoria de maus-tratos e um gole de café morno, percebo que a sina das aéreas é a nossa própria fotografia. Gastamos fortunas para encurtar distâncias que, no fundo, só existem porque não sabemos lidar com a quietude do lugar onde estamos. O custo pouco importa para quem transformou o movimento em destino final.

Escrever deixa de ser expurgo; torna-se ofício. Se o TDAH entrega o caos às sete da manhã, a mão que segura a caneta domestica o incêndio. Já não vomito o que me aflige, filtro o que nos une. A sina das aéreas é a do cronista: sustentar no ar o que a lógica puxa para o chão. Aos sessenta e cinco, não busco o aplau
so do pouso. Busco a precisão da rota.

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