segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Entrevista com Janer Cristaldo

:: Entrevista


A contrapartida da papagaiada

por Diogo Chiuso e Sidney Vida (do Jornal Eletrônico O Expressionista)

Não é fácil entrevistar alguém que sempre tem algo interessante a dizer, principalmente na hora da edição do texto. Essa é a parte complicada quando o entrevistado é alguém como o jornalista Janer Cristaldo, que deixou clara a impressão de que para cada assunto levantado caberia mais e mais perguntas.

Felizmente no jornalismo online não temos os problemas técnicos e de espaço em papel, como no jornalismo impresso. Portanto, no final das contas, toda a complicação teve uma simples solução: publicar a entrevista na íntegra, sem cortes, nem edição.

Mas não poderíamos privar os leitores de tentar conhecer como Janer Cristaldo é pessoalmente. Já lá com seus 56 anos, mais parece um garotão entusiasmado com a beleza das mulheres e das lindas cidades européias. Até hoje não possui automóvel, pois preferiu gastar seu dinheiro em momentos bem vividos em viagens à Europa, estampadas em lindas fotos de bares e cafés nas paredes. "Adoro bares, aliás, é meu lugar preferido para a leitura", confessa, apontado, numa das fotos o seu preferido, um café em Viena.

Além da agradável recepção em seu apartamento no charmoso bairro paulistano, Higienópolis, Janer fez questão de nos guiar pela imensa biblioteca que viaja pelo mundo das idéias, da literatura e até dos "inimigos", como refere-se com zombaria aos comunistas. Relembra fatos de sua infância em Dom Pedrito - pequena cidade do Rio Grande do Sul - e fala de suas experiências nos jornais paulistas Folha de S. Paulo e Estadão. Considera a imprensa brasileira, apesar de tudo, muito boa por abranger o mundo todo na editoria internacional, diferente da americana e européia que centralizam as notícias em informações "caseiras". Em compensação, critica o jornalista que não gosta de ler e tampouco tem sua própria biblioteca, pois esse profissional, segundo ele, tem a obrigação de conhecer melhor o mundo em que vive.



Hoje, Janer escreve em diversos jornais na internet que dá a ele a liberdade que jamais teria nos de papel, além de não precisar bajular o grande público. Janer é polêmico, mas não por querer ser conhecido, obter fama ou coisa parecida - que aliás diz ter ojeriza a essas coisas - mas, sim, por não ser preso a nenhuma ideologia ou convicção religiosa: 

"...abandonei Deus lá pelos meus dezesseis, dezessete anos, e senti uma baita sensação de liberdade", afirma com a convicção de quem viveu muito bem a maior parte da vida sendo ateu.


Janer Cristaldo é a essência do homem anti-politicamente correto, no sentido de, com responsabilidade, falar o que pensa sobre qual for o assunto, sem se importar com as reações adversas e o ranger dos dentes daqueles que crêem nos objetos de suas críticas.

Portanto, o que o leitor verá a seguir são análises sérias e contundentes de um homem que tem o que dizer, em contrapartida dos papagaios que encontramos aos montes arrotando a sabedoria alheia, por não ter a capacidade de pensar por si mesmo.

Atualmente a religião Católica, que é a mais praticada no Brasil, parece estar meio sem rumo. Antigamente tínhamos o conhecimento muito vinculado aos colégios católicos, além dos grande filósofos da Igreja como São Tomás, Santo Agostinho etc. O que aconteceu para que a Igreja Católica perdesse esse status de produtora de grandes pensadores?

A meu ver, hoje não há grandes pensadores, nem dentro nem fora da Igreja. É como se os antigos tivessem esgotado todas as formas de enquadrar o ser humano e a realidade, e não restasse aos contemporâneos senão papagueá-los. No campo da filosofia ocorre a mesma coisa. Não se vê mais surgir Sócrates, Kants ou Descartes. O que surgem são repetidores confusos.

Que mais pode acrescentar a Igreja ao que disseram os antigos doutores? Além do mais, a Igreja tem uma espécie de AI-5, o dogma, que inibe todo pensamento. Católico algum pode negar o dogma. Até mesmo um marxistóide como Leonardo Boff tem de engolir a virgindade de Maria, tanto que ele escreveu um livrinho, A Ave Maria - o Feminino e o Espírito Santo, endossando esse fenômeno típico de certos pulgões da lavoura, a partenogênese. O pensador católico tem também de engolir que o pão consagrado não é mais pão, mas carne, e o vinho consagrado não é mais vinho, mas sangue. Mas atenção: pão e vinho não são símbolos da carne e do sangue, mas a própria carne e sangue. Ou seja, todo católico é no fundo um canibal ou hematófago. Impossível pensar a partir de dogmas.

Só poderia surgir algum pensamento na Igreja no momento em que esta abandonasse o dogma. E não só o dogma, mas também boa parte dos livros do Antigo Testamento, e mais alguns do Novo, particularmente aqueles que defendem genocídio, massacres, escravidão. Que esses livros permaneçam como documentos históricos, muito bem. Mas deveriam ser eliminados do corpo doutrinário de uma religião contemporânea, particularmente de uma religião que se pretende defensora dos direitos humanos...

Embora o sr. seja ateu, deve concordar a base moral dos últimos dois milênios da humanidade foi erguida sobre os ensinamentos judaíco-cristãos. Como o sr. vê os ataques mútuos entre ideologias e religiões, principalmente no século XX?

Em primeiro lugar, vamos acabar com essa história de sr. Até parece que tu és mais jovem que eu (risos). Continuando: vocês falam na base moral da humanidade. Da humanidade, não. Mas do Ocidente, pois no Oriente a realidade é outra. Mesmo assim, a esses elementos judaico-cristãos se deve acrescentar o legado greco-romano. Junte-se esses ingredientes todos e temos o que se convencionou chamar de Ocidente. Quanto aos ataques mútuos, estes decorrem do problema que já apontei, o dogma. Aliás, antes de serem mútuos, são internos. A negação dos dogmas provocou cismas, perseguições, massacres, fogueiras.

Depois, surge o problema do monoteísmo, a origem da maior parte das guerras. Com tanta pedra no deserto, Maomé inventou de subir aos céus a partir de uma rocha sagrada para os judeus. Esta história é curiosa. No espaço de uma noite, Maomé voou de Meca a Jerusalém, montado em uma mula alada chamada Burak, com cabeça de mulher e rabo de pavão. Lá, da rocha onde Abrahão iria sacrificar Isaac, subiu ao céu para receber a revelação. Toda pretensão árabe a Jerusalém, todo o atual derramamento de sangue no Oriente Médio, tem no fundo esta lenda estúpida. Árabes e judeus até hoje estão se matando em função da luta pelas mentes de dois deuses ciumentos, Alá e Jeová. Cristãos e protestantes estão se entredevorando na Irlanda, shiitas e sunitas se massacram no mundo islâmico, cristãos e muçulmanos se mataram com gosto nas recentes guerras iugoslavas. Melhor o antigo mundo grego. Os deuses eram tantos que soaria ridículo um deles se declarar como único.




Qual o seu conceito de Deus?


Não tenho conceito algum de deus. Se tivesse, seria um crente. Tenho, isto sim, um conceito da idéia de deus. Esta idéia responde, de forma primitiva, é verdade, aos mais profundos anseios humanos. Primeiro, serviu como tentativa de explicar o inexplicável. A medida em que o homem desenvolvia seu conhecimento, esta idéia foi sendo relegada a um segundo plano. Quando a física, a química, a biologia começaram a tornar o universo compreensível, deus foi se reduzindo à sua insignificância. Isto permite que, no final do XIX, Nietzsche proclame: Deus morreu. Verdade que o alemão se enganava. As multidões contemporâneas, cada vez mais famintas de misticismo, reduziram o brado de Nietzsche a um ingênuo wishfull thinking.

Hoje, Deus é uma espécie de esperança para as grandes massas incultas. Aliás, desconfio que as pessoas que dizem crer em Deus, pouco estão se importando com o tal de Deus. O que importa realmente é a transcendência da própria alminha. Encontramos isto mesmo no universo pagão. Que eram os deuses lares, manes e penates romanos, senão reencarnações dos próprios antepassados? O homem que cultuava seus lares estava em verdade cultuando seus mortos. A família era mais sólida naquele mundo pagão. A progênie era uma benção e a infertilidade uma maldição. Quem não procriasse, uma vez morto não teria quem lhe oferecesse os manjares que agradam aos lares.

O ser humano é um bicho que se viciou com a vida, aspira ardentemente à eternidade. O que, se pensarmos bem, é um grande engodo. Se uma vida já cansa, imagina ser eterno. Deus ainda tem algum prestígio porque promete vida post-mortem, paraíso ou inferno conforme os méritos do cliente. Se um deus dissesse: “olha, te comporta como quiseres, não tenho nada a ver com isso, afinal depois da morte não existe nada mesmo”, é claro que esse deus não teria Ibope. Eu ousaria avançar que, no fundo, ninguém crê em Deus. Prova disto é o pavor dos crentes na hora da morte. Ora, a morte propicia o encontro com Deus. Deveria ser ardentemente desejada. Mas não é isto que ocorre. Na hora do jesus-está-chamando, até mesmo o papa busca medicina de ponta. Em A Peste, pela voz do padre Panélou, Camus fala de antigos cristãos que se envolviam em lençóis usados pelos pestíferos, para morrer depressa e mais depressa se encontrarem com Deus. Este tipo de cristão não existe mais.

Alguns pensadores - e até o senso comum - costuma associar a crença em Deus a manutenção de comportamentos éticos (os dez mandamentos, por exemplo). O escritor Dostoievski chegou a afirmar que, se Deus não existe, tudo é permitido. Há, no entanto, diversas interpretações para tal frase da mesma forma que parte da filosofia ergueu uma ética sem Deus. Uma pessoa, enfim, pode ter uma vida de virtudes sem Deus, sem esperar as recompensas transcendentais que as religiões oferecem? Qual a sua posição diante de tal dilema?

Vamos aos fatos. Em primeiro lugar, Dostoievski nunca afirmou isso. Se alguém afirmou, teria sido Ivan Karamazov, um de seus personagens. Não se pode confundir personagem com autor. Em segundo lugar, Ivan tampouco afirmou isso. Quem o afirmou foi Sartre, ao escrever que o existencialismo francês estava fundamentado no argumento de Ivan Karamazov, de que se Deus não existe, tudo é permitido. Os fatos são um pouco diferentes. Em verdade, Ivan conclui que se Deus não existe, não existe imortalidade. E “se não existe imortalidade, não existe virtude”. O que, aliás, confirma minha tese: o que preocupa realmente as pessoas é a transcendência.

Para efeitos de raciocínio, admitamos a proposição “se Deus não existe, tudo é permitido”. É uma proposição safada. Dita por um libertino, significaria que tudo é permitido mesmo, já que Deus não existe. Elimina-se qualquer ética, como se ética dependesse da existência de Deus e não de um acordo entre homens. Dita por um crente, é um alerta: cuidado, se Deus não existe, tudo é permitido. Para que tudo não seja permitido, é preciso que Deus exista. Mas de que deus fala quem assim fala? É bom que lembrar que, no universo do monoteísmo, os deuses são vários. Mesmo na Bíblia não existe um só. A que deus se referem esses pensadores e o tal de senso comum? Ao que não só permite, mas também ordena guerras, massacres, pestes e catástrofes? Ou àquele outro que fala em amor e perdão? É bom ainda lembrar que este deus amoroso do Novo Testamento, segundo o Apocalipse, deve voltar a ferro e fogo para fazer tábula rasa do planetinha. Pela primeira vez, nos textos sagrados, Cristo monta um cavalo, arma de guerra.

Quanto aos Dez Mandamentos: estamos naquele período histórico em que religião não se distingue de legislação, onde ainda não há Estado mas apenas um poder religioso. Ora, isto faz mais de três mil anos. De lá para cá, o homem ocidental foi suficientemente sensato para separar as duas coisas. Uma das grandes confusões de nossos dias é a falta de distinção entre preceito religioso, preceito ético e lei. Lei deve ser cumprida, sob pena de sanção. Preceito ético pode ser cumprido ou não, depende do conceito de ética de cada um. Pode até ocorrer alguma sanção da comunidade, em caso de transgressão, mas esta sanção não tem o aval do Estado, nem pode ser exercida através de força policial. Quanto ao preceito religioso, este deve ser cumprido apenas pela comunidade que crê naquela religião. Ou pelo menos assim deveria ser. Que os cristãos considerem pecado o aborto ou o homossexualismo, isto é um problema que diz respeito apenas à comunidade cristã. Tal condenação não pode ser imposta a um Estado laico, como pretendem os papistas. Pessoalmente, não preciso de Deus nem de recompensas transcendentais para ser honesto. E penso que não somos poucos os que assim pensamos.

Mas no Brasil a questão religiosa é complicada. A maioria é católica, porém, nada impede que freqüentem terrenos de candomblé ou até sigam as doutrinas espíritas de Kardec, que aliás, o Brasil é um dos únicos países que ainda levam à sério a "ciência-religião" deste francês. Na sua opinião por que há esse desespero em querer salvar a alma? Neste sentindo o ateu é mais tranqüilo, já que sabe que seu fim não é a eternidade proposta pelas religiões?

O candomblé se deve à porção africana do Brasil. Há toda uma população que não se reconhece no deus e santos brancos europeus. Apela então às tradições animistas africanas. É uma religião de negros e pobres, mas que gera muito dinheiro e poder, particularmente na Bahia. Até um comunista empedernido como Jorge Amado achou melhor fazer o jogo dos orixás. Quanto ao espiritismo, foi uma fórmula encontrada por um setor das elites brasileiras para escapar ao catolicismo sem cair no animismo. O kardecismo tem suas origens no mesmerismo, doutrina proposta pelo austríaco Franz Anton Mesmer, para quem a alma humana ultrapassava os limites do corpo e atuava fora dele. Que o corpo humano emitia radiações, compostas de elementos materiais, que seriam os veículos transmissores da ação da alma e que continha forças vitais. Kardec - em verdade Denizard Rivail - aproveitou esses elementos, mesclou-os com uma teoria da reencarnação e estabeleceu bate-papos com os espíritos através de mesas girantes. Não sei se já observaste, mas muita gente que perde um filho ou pessoa próxima, logo é assediada pelos espíritas. Na ânsia de transcendência, de comunicação post-mortem, há pessoas que caem no engodo. É uma variante mais pragmática da vigarice da vida além-túmulo dos cristãos.

Kardec está sepultado no Père Lachaise, em Paris. Multidões de brasileiros visitam sua tumba. Se fores perguntar a um francês quem foi Kardec, ele não te dirá nada, pois nem sabe de quem se trata.

Eu não saberia dizer nem onde nem quando surge essa idéia estúpida de salvar a própria alma, aliás tão estúpida quando a idéia de alma. Isto é tarefa para historiadores, mas obviamente o cristianismo não é inocente neste imbroglio. Claro que o ateu é um homem mais tranqüilo, ele dispensa muletas espirituais. Mas atenção: há dois tipos de ateus. Há aquele que simplesmente não acredita em Deus nem na craca metafísica que vem junto com essa idéia, nem faz proselitismo Existe ainda um outro, o ateu militante, aquele que procura adeptos para reforçar sua descrença. Este, na verdade, está doidinho para acreditar em deus. Mal um deus qualquer lhe pisca um olho numa esquina, ele adere de corpo e alma à nova crença..

Então Marx acertou em dizer que "a religião é o ópio do povo"?

Ópio do povo e mais um pouco. Fonte de renda e poder para elites, atraso para o pensamento e para a ciência, um peso inútil para o indivíduo. No caso da Igreja Católica, é um tremendo fator de miséria para o Terceiro Mundo. O Vaticano tem assento na ONU e sempre se opõe às políticas de controle da natalidade. Fator de insalubridade, também. Toda vez que as autoridades falam em preservativos para conter a Aids, não falta padre ou bispo que se manifeste contra. O Congo, que tem uma população de 52% de católicos, está sendo arrasado pelo HIV, graças aos padres que se opõem ao preservativo. Estas políticas merecem um só adjetivo: criminosas.


Vamos falar de literatura. Na sua opinião, qual o valor dos livros na vida de uma pessoa? E quais livros uma pessoa jamais deveria deixar de ler?

Sem livro, não há cultura. Vê os índios, por exemplo. Há tribos ágrafas no Brasil que continuam chafurdando no paleolítico, para alegria e sustento dos antropólogos. O livro, primeiramente, com Gutenberg, e depois a democratização do livro, com Aldus Manutius, foi uma poderosa ferramenta do desenvolvimento humano. O livro liberta, nos livra de idéias pré-concebidas, de crendices e religiões. Ensina e humaniza. Tem mais: se não for instrumento de libertação, de informação e de degustação estética, para nada serve. Curiosamente, um dos primeiros livros que me ajudou a jogar fora idéias religiosas, foi a Bíblia. Não há fé que resista a uma leitura atenta da Bíblia. Lendo-a com atenção, vê-se que deus é uma criação humana, e seu conceito depende de época e geografia



Mas o livro também tiraniza. Já deves ter notado o poder de que se imbui um desses pregadores de rua, ou mesmo de púlpito, ao brandir uma bíblia. Eles se apegam apenas a alguns aspectos da bíblia, os que mais convêm a seus dogmatismos, e ameaçam a clientela com inferno, fogo e sofrimento eterno. Não por acaso, o livro predileto deles é o Apocalipse.

Quanto aos livros que uma pessoa jamais deixaria de ler, a pergunta é complicada. Eu diria que, ocidentais, todos temos de dar uma olhadela em Platão e seus Diálogos. O Quixote é outro grande livro, mas atenção: é preciso que o leitor goste da ironia literária, da Espanha e, principalmente, da antiga Espanha. Sem isto, o Quixote pode tornar-se uma leitura maçante. As Viagens de Gulliver, de Swift, este tremendo libelo contra as instituições humanas, é outro livro importante. 1984, de Orwell, é fundamental para conhecermos o debate do século passado. Para se ter uma idéia das instituições do Ocidente, eu sugeriria A Cidade Antiga, de Fustel de Coulanges. Para bem entender os fundamentos de nossa cultura, importante ler A História das Origens do Cristianismo, de Ernest Renan. São sete volumes, mas é leitura que prende. Particularmente para quem gosta de viajar, é uma visita - ou revisita - a Jerusalém e Roma antigas. Em matéria de poesia, penso que Fernando Pessoa é o grande poeta do século passado, apesar de a universidade tentar destruí-lo com suas análises teóricas. E sou apaixonado por José Hernández, este poeta maior da América Latina, tão pouco conhecido no Brasil. Martín Fierro é certamente o poema que mais adoro. A propósito, se alguém não o conhece, aqui está: 

Mas isso são as minhas leituras. Um outro leitor certamente proporia outras. A leitura da Bíblia também é fundamental, não posso considerar culto quem não a tenha lido. Mas é preciso lê-la sem fé, sem idéias pré-concebidas, ou então a leitura só serve para reforçar fanatismos.

A literatura e a intelectualidade já estiveram muito ligadas à boemia, principalmente nas décadas de 1920 e 1930, em que muitas obras "nasceram" em meio a conversas de bar. Você não acha que existe hoje uma certa predominância do meio acadêmico no processo de produção literária? O escritor Gore Vidal acha, por exemplo, que a literatura norte-americana praticamente transferiu-se para a universidade, confundindo-se com a crítica literária. Não há uma separação muito abissal entre o escritor que narra as coisas do cotidiano dos que fazem sua literatura com base na cultura adquirida na universidade?

Considero a literatura como uma expressão da revolta. Ou a literatura contesta a própria época, ou é mero  entretenimento. A universidade é uma instituição fortemente ncorada no stablishment. Quando a universidade adota uma obra, é porque essa obra já perdeu sua força de contestação.

O suporte da indústria do livro, hoje, é a universidade. Se um dia o livro foi um instrumento sem o qual a universidade não podia existir, hoje a universidade é um instrumento sem o qual a indústria do livro perde seu vigor. O que era fim, a aquisição de saber através da universidade, se tornou meio para sustentação de um comércio. E o que era meio, o livro como instrumento de deleite espiritual ou comunicação do saber, tornou-se fim, uma mercadoria como qualquer outra, para alegria de editores e massagens no ego de escritores com boas relações junto ao MEC e crítica acadêmica. Claro que estou falando da área humanística da universidade, e particularmente dos cursos de Letras. Na área científica e tecnológica encontramos mais seriedade.
















A universidade está até mesmo determinando como deve ser feita a literatura. Há milhares de escritores escrevendo para agradar acadêmicos. Mais ainda: a universidade preserva em formol autores que há muito deveriam estar sepultados. Os acadêmicos criaram um mercado artificial, que chamo de indústria textil - textil assim mesmo, sem acento, a indústria do texto - e só assim certos defuntos ainda nos chateiam. Machado de Assis é um deles. Duvido que algum editor apostasse na publicação do Machado se este não fosse leitura obrigatória de vestibulares e ementas universitárias. Mas Machado até que tem algum valor, como referência histórica. Que mais não seja, como cronista de sua época. O pepino são as clarices lispector da vida, as lígias telles, os guimarães rosas. São elefantes brancos que estariam repousando em paz nos cemitérios de paquidermes, não fosse a venda forçada imposta pela universidade. Guimarães Rosa, por exemplo. Todo mundo cita e ninguém lê. Não fosse a pressão universitária, jamais seria reeditado. Além disso, em Grande Sertões, perdeu uma excelente oportunidade de escrever o grande romance homossexual brasileiro. Diadorim era mulher. A família está salva.


Certa vez, em uma palestra na PUC de Porto Alegre, afirmei mais ou menos isso. Após a palestra, uma professora me procurou. Disse-me sentir-se gratificada ao ouvir aquilo, pois ela não suportava a Clarice Lispector, seus alunos abominavam a Clarice Lispector e ela tinha de impor a Clarice Lispector a seus alunos. O que me espanta em tudo isto é que os universitários engulam calados estas imposições curriculares, sem nenhum protesto, nenhuma proposta de mudança de currículo. Há uma indústria estatal no país, títulos que são impostos à rede escolar por compadrismos dos autores ou herdeiros de autores junto ao MEC ou universidades. A audácia que se atribui aos jovens é mero chavão. Os jovens são covardes e, de um modo geral, engolem tudo que se lhes serve.

Denuncia-se muito a corrupção no governo neste país, mas ninguém ousa denunciar a corrupção no santo dos santos, a universidade. Lygia Fagundes Telles, por exemplo, que participou de uma comissão que escolheria 300 títulos a serem comprados pelo Fundo Nacional para o Desenvolvimento da Educação, teve o desplante de sugerir um livro seu, "Ciranda de Pedra" para a lista dos trezentos. Do dia para a noite, sua cotação subiu nesta suspeita bolsa de valores. Segundo a revista Veja, seu passe foi comprado pela editora Rocco, para a publicação de doze livros, por 500 mil reais. Ora, isto é corrupção.

Mas nem Machado de Assis escapa?

Quando o Machadinho estava preocupado com o tremendo drama da Capitu - se ela corneou ou não o marido - Nietzsche estava lutando a tapa contra Deus, Dostoievski estava discutindo os grandes problemas da condição humana, o assassinato, o poder, a revolução. Marx (sem entrar em seus méritos ou deméritos) já havia declarado sua guerra particular à Europa. A impressão que se tem é que Machado desconhecia esses autores. Ou, se os conhecia, preferiu ignorá-los. É muito pobre, muito tacanho. Mas Machado não tem culpa do que mais me irrita nele: é sua circulação forçada nas escolas e universidades. Sem falar que ele cometeu um pecado que não tem perdão, criou essa associação de pavões medíocres que se chama Academia Brasileira de Letras.

Essa mediocridade está clara hoje, por sermos totalmente órfãos de bons textos literários e dramatúrgicos, o que reflete, principalmente, em nosso cinema, que não tem boas estórias para transpor para as telas. Na sua opinião, por que isso acontece?

A escassez de bons textos não é só brasileira. É como se a ficção, a força de multiplicar-se, tivesse se exaurido. O escritor tinha uma função social importante até o século XIX, até a primeira metade do XX. Era uma espécie de filósofo, maître-à-penser, o sonhador da comunidade. A indústria editorial cresceu desmesuradamente e a literatura foi se banalizando. Imprensa, cinema e televisão foram aos poucos invadindo o território antes ocupado pelo escritor. Qual a diferença entre um filme e um romance? Do ponto de vista estrutural, nenhuma. Do ponto de vista prático, no filme há imagens e sons, e além disso pode ser degustado em menos de duas horas. Em uma época em que as pessoas são pouco dadas à leitura, isto se reflete na literatura.

Houve época em que escritores promoviam revoluções. Que fez Marx, que influiu no século passado de ponta a ponta? Marx não fez nada senão escrever. Mas o mundo mudou. As revoluções hoje são feitas por cientistas e técnicos em laboratórios. A pílula anticoncepcional foi mais eficaz que milhões de palavras contra o obscurantismo. O chip de silício aproximou mais os homens que inflamados discursos em prol da solidariedade.

Pessoalmente, não leio mais ficções. Cansei. O autor leva muito tempo e muitas páginas querendo criar um clima especial, para então plantar sua tese. Sei disso porque cometi algumas ficções. Prefiro ensaios, que são mais diretos, e particularmente ensaios históricos. E adoro essa novela sem fim nem roteiro, as notícias do mundo que o jornalismo traz. Leio hoje os jornais com o prazer que um dia li ficções. Há romances para todos os paladares, sempre segundo a fórmula do antigo folhetim. Desde clássicos antigos como A Guerra dos Seis Dias, Watergate, A Guerra no Golfo, A Queda do Muro, Ex-URSS, O Conflito nos Bálcãs, até outros mais contemporâneos como A Guerra no Iraque, Intifada em Israel, Rio sem Lei, O Presidente Analfabeto. São obras surpreendentes, que autor algum, por mais imaginoso que seja, ousou conceber.

Para você qual o melhor escritor de todos os tempos?

Pergunta complicada. Dentro do pequeno universo que li, o que mais me toca é José Hernández, talvez por minhas origens gaúchas. Martín Fierro é minha bíblia predileta. Quanto me exilei na Suécia no início dos 70 (voluntariamente, bem entendido, afinal ninguém me obrigou a sair do país) levei no bolso um pequeno exemplar de Fierro. Invejo a capacidade de síntese de um Renan. É preciso muito talento e obstinação para montar aquele imenso quebra-cabeça histórico. Invejo também a intuição de Orwell em 1984, a meu ver a obra mais importante do século passado. Não quero dizer que estes sejam os melhores escritores de todos os tempos. São apenas os que mais admiro. Ah! Tenho também de pôr Pessoa nesta cesta básica. Foi o outro autor que levei em minha bagagem para Estocolmo. Hernández e Pessoa foram os amigos que reconfortaram naquelas noites brancas, solitárias e geladas de Estocolmo.

Fale um pouco sobre os seus livros e quais as influências literárias que você teve para escrevê-los; e aonde eles podem ser achados pelos leitores interessados?

Meu primeiro livro foi um ensaio sobre a Suécia dos anos 70, O Paraíso Sexual Democrata. Publiquei depois vários livros em papel e eletrônicos (contos, dois romances, crônicas, ensaios) e traduzi vinte títulos do sueco, espanhol e francês, entre estes praticamente toda a obra de Ernesto Sábato. Como as publicações em papel estão todas esgotadas, o leitor pode encontrar os eletrônicos no E-books Brasil. Dois romances, Ponche Verde e Laputa. O primeiro é um romance de exílio, dez anos na vida de um grupo de gaúchos que sai de Porto Alegre e perambula por Estocolmo, Berlim e Paris. O segundo, as angústias de um professor de Letras em uma ilha tropical, leia-se Santa Catarina. Mensageiros das Fúrias é minha tese de doutorado em Letras Francesas e Comparadas na Sorbonne Nouvelle (Paris III). Nesta tese, em torno às obras de Albert Camus e Ernesto Sábato, há um capítulo que hoje não assinaria mais, é o capítulo sobre o Che Guevara. Ocorre que Sábato o tomou como personagem em Abadón, o Exterminador, e faz do assassino frio um herói generoso e sonhador. Eu endossei a proposta do autor, também tomei Che como personagem. Hoje, considero que não se pode maquiar impunemente um personagem histórico. Sábato, tenho hoje de convir, caiu na armadilha do Terceiromundismo. Foi cúmplice póstumo deste mito que só tem atrasado a América Latina.

Mais os ensaios Engenheiros de Almas (sobre o stalinismo em Jorge Amado e Graciliano Ramos), Qorpo Santo de Corpo Inteiro, Ianoblefe (ensaio jornalístico sobre essa tremenda farsa que foi o massacre de ianomâmis em 93) e A Indústria Textil, ensaios sobre a corrupção literária e universitária. Textil assim mesmo, sem acento, a indústria do texto. Em crônicas, há mais títulos: Crônicas da Guerra Fria, EleCrônicas, Flechas contra o Tempo, Ressentidos de Todo o Mundo, Uni-vos e o último, A Vitória dos Intelectuais, compilação de crônicas do ano passado. Minhas crônicas atuais, e muitas das anteriores, podem ser encontradas no Baguete, Mídia sem mascara, Brazzil.com e Jornaleco.

Influências? Os autores que mais me transformaram, já os citei. Aos leitores, recomendo minhas últimas crônicas. O jornalismo na Web não depende de grandes custos em papel, máquinas, distribuição, logo não precisa bajular o grande público. A liberdade que tenho nos jornais eletrônicos, eu jamais a teria nos jornais em papel.

Você acha que o nível das nossas universidades melhorou ou piorou nas últimas quatro décadas? Quais os motivos? Você não acha que está sendo instituída uma supervalorização do diploma universitário?

Piorou, e piorou terrivelmente. Senti isso quando lecionei Letras na Universidade Federal de Santa Catarina. No último ano de curso, meus alunos não dominavam nem mesmo o português. Aí lembrei de meus dias de ginásio, no Colégio Patrocínio, em Dom Pedrito, pequena cidade gaúcha na fronteira com o Uruguai, na época com uns 15 mil habitantes. Completei o ginásio aos quatorze anos, com um português impecável, um excelente francês, um inglês razoável e arranhando um bom latim. Essa educação, que tive no ginásio, nenhuma universidade fornece hoje. Basta ler os jornais e ver o resultado. Jornalistas oriundos até mesmo da prestigiosa ECA já não conseguem conjugar o subjuntivo e se enredam com os verbos reflexivos. O pronome reflexivo está em vias de extinção. Urge criarmos uma Sociedade Protetora do Pronome Reflexivo, ou este pronome desaparece da língua brasileira. Os jornalistas cometem até mesmo erros crassos, como trocar a letras l (ele) por u. Sauva tua auma, como li certa vez em uma cruz de uma Igreja no interior.

Certa vez, na Folha de São Paulo, escrevi a palavra “preito” em um texto-legenda. Escândalo na editoria. Um subeditor veio reclamar que ninguém conhecia aquela palavra, deveria ser palavra muito antiga. Ora, todas as palavras são antigas, e a imensa maioria delas são bem mais antigas que nós. Tenho dezenas dessas histórias. Isso nos dá uma idéia do nível do ensino universitário hoje.

Quanto à supervalorização do diploma: o papelucho é algo mítico para o brasileiro. Os mercadores do ensino sabem disso e as faculdades proliferam como cogumelos após a chuva. Dessa expansão descontrolada decorre o baixo nível dos cursos. Não há preocupação das universidades na seleção dos melhores. As universidades querem clientes, e quanto mais clientes melhor. Agora chegou no Brasil, tardiamente, a moda das cotas. Querem enfiar os negros à força nas universidades, mesmo quando ineptos para o ensino universitário. Se a moda pegar, vai piorar ainda mais. Todo brasileiro sabe que um marceneiro ou mecânico ganha mais do que muito profissional diplomado. Mas há quem prefira ganhar menos ou mesmo nada, desde que tenha o diploma na parede.

Como você vê a dicotomia entre o grande número de formados que saem das universidades brasileiras todos os anos com a crescente queda de oferta de empregos no mercado formal para pessoas qualificadas?

Isto não é difícil de entender. É decorrência do que falei antes. Ninguém está preocupado com possibilidades no mercado, o que interessa é o diploma. Em minha cidadezinha, vi gente pobre, pagando o que não podia a faculdades particulares, para que os filhos tenham um diploma que não servirá para nada. Diploma é sinal de status no Brasil. Que mais não seja, sempre pode render um empreguinho público ou mesmo um casamento morganático. Só um setor tem ganhos garantidos com a expansão descontrolada do ensino superior: os mercadores de ensino superior. Em minha passagem pelo curso de Letras, vi que o magistério pode não levar a nada, mas tem suas mordomias nada desprezíveis. Bolsas no Exterior, congressos literários, intercâmbio universitário. Isto é, turismo à la farta, boa gastronomia, vida sexual mais diversificada que na província. Tudo isto às custas do contribuinte. Denunciei amplamente, na imprensa, esta corrupção na Universidade Federal de Santa Catarina, que eu chamava de UFSCTUR. Deu em nada. O reitor me processou, mas também não levou nada.

Na sua opinião o que é uma pessoa culta?

Culto, a meu ver, é o homem que conhece história suficientemente para entender a época em que vive. Também acho que uma pessoa, hoje, para entender o mundo em torno a si, deve conhecer pelo menos uns dois ou três idiomas além do vernáculo. Idiomas são janelas abertas para o mundo e viver em ambientes fechados não é nada salutar. Não se pode admitir que um brasileiro medianamente culto não entenda espanhol, francês e inglês. Espanhol, porque é língua irmã, língua do vizinho. Francês, além de ser língua irmã, é a língua das artes. E inglês, queiramos ou não, é o esperanto que deu certo. Se não entender estas três línguas, não saiu da aldeia.

Mas qual o incentivo para estudar se você pode virar um jogador de futebol rico e famoso?

Bom, tens de convir que o jogador de futebol tem vida mais dura que o intelectual. Transpira mais, faz mais esforço. Mas a fortuna só bafeja uns poucos. Para cada moleque de favela que sonha ser um Pelé, há milhares que não chegam sequer a um time de porte médio. A verdade é que o futebol é um meio de ascensão rápida no Brasil, para quem nasceu pobre. É como as touradas na Espanha. Ou como os seminários. A grande safra de padres no Brasil - e provavelmente no mundo todo - depende de famílias pobres, que jogam os filhos numa escola gratuita e num ofício que lhes dá alguma proeminência social. Se o objetivo é ser rico e famoso, estudar de pouco vale.

O que você acha desta busca desenfreada nos dias de hoje - principalmente dos jovens - por alguns valores como fama, poder, corpo perfeito, riqueza e sexo. Essa busca demasiada de tais valores seria característica do declínio da nossa civilização? Por que não se cultiva mais a justiça, lealdade, honra, amor, honestidade e etc., em nossa sociedade?

Começo pela ordem inversa. Sexo é ótimo. Tens algo contra? Riqueza não é ruim, não. Quem gosta de pobreza são os católicos e marxistas. Eu adoraria ser rico. Seria pródigo, daria bolsas e viagens às pessoas que julgasse merecê-las. Bill Gates doa um bilhão de dólares por ano aos países do Terceiro Mundo. Te confesso que adoraria doar um bilhão de dólares. Infelizmente, não posso doar nem mil. Corpo perfeito é uma bela idéia, desde que não seja obsessão. O sedentarismo inerente à cidade deforma o corpo, mas que fazer? Como dizia Sócrates: a vida no campo é linda, mas os amigos estão em Atenas. Quanto a poder e fama, bom, são coisas que não me atraem. Para se chegar ao poder é preciso mentir, bajular a opinião pública. Está aí o Lula. Para chegar lá, mentiu a vida toda. Mas chegou.

Fama também exige mentir. A idéia de escrever para agradar o maior número de pessoas possível me horroriza. Daí minha ojeriza a best-sellers, sejam livros, sejam filmes. Best-seller, por definição, é algo medíocre. Se o que escrevo não irrita boa parte de meus leitores, em algo devo ter errado.

Quanto à justiça, todo mundo clama por ela. Tanto o Lalau como o Fernandinho Beira-Mar se sentem injustiçados. Lealdade é virtude muito cara aos gaúchos, mas quando falo em gaúchos me refiro àquele ser mítico já extinto, que um dia habitou Uruguai, Argentina e a Fronteira Oeste gaúcha. Lealdade é uma virtude camponesa, pouco encontradiça na urbe. Honra? Está fora de moda. Hoje vale mais saldo bancário, carro importado, roupa de grife. Amor? É um mito literário que surgiu nos poemas de Safo, de Lesbos, na Grécia, invadiu a Idade Média e hoje rende milhões de dólares a indústria cinematográfica, particularmente Hollywood. É talvez o mais lucrativo produto de exportação ianque. Honestidade? Já encontrei pessoas que me confessaram ter vergonha de serem tidos como honestos. Passam por panacas. Assim é o mundo em que vivemos. Não adianta deplorar.

Quem gosta de música, quem precisa de música, acha-a uma emoção, uma sensação, uma onda de prazer. Você não pode sentir prazer se não se permitir sentir, principalmente no caso da música erudita - o prazer de um Mozart, de um Beethoven, tem que penetrar em você suavemente, sem que você perceba, dando uma sensação de bem estar. Mas é notório que nos últimos vinte anos - sendo muito otimista -, a música erudita foi marginalizada na nossa cultura; ninguém quer sequer experimentar tais emoções. 

Qual a sua opinião sobre os ramos atuais da música erudita em nossa cultura?


Vou discordar de teus pressupostos. Existe, é claro, essa massa informe que vai a megashows, curte rock, funk, reggae e barulhos do gênero. Ou essa música fajuta caipira que de caipira nada tem. São multidões, como multidões são também os leitores de Paulo Coelho ou Harry Potter. Essa gente não interessa, são mercado. Mas a música erudita não foi marginalizada, não. Tenta encontrar um ingresso para uma ópera em Paris, Roma ou Viena. Se não tentares com um mês de antecedência, só vais encontrar o "assento do ceguinho". Em Nova York, há duas salas de ópera, lado a lado, com espetáculos diários, eternamente lotadas. Conheço pessoas que economizam o ano todo para fazer circuitos de ópera em ópera no Exterior. Concertos de música erudita também são muito concorridos no mundo todo.

Eu acho espantoso - e reconfortante - que obras de Mozart, Verdi ou Bizet, escritas há séculos, ainda atraiam multidões. Não só atraiam, como também comovam. Há momentos em Carmen ou Don Giovanni que até hoje nos fazem chorar de emoção. A música erudita vem de séculos e tem excelente futuro pela frente. Considerada a população do planetinha, seus cultores são minoria. Mas é uma minoria de milhões. Outro dia, tomei um táxi com uma amiga, o taxista escutava a Carmina Burana. Mal entramos, desligou. Minha amiga chiou: deixa aí. Ele ficou surpreso, disse que o CD estava sendo um sucesso entre seus passageiros. Estatisticamente, isto não quer dizer muita coisa. Mas já é algo.

Além disso, o CD e o DVD trouxeram a música erudita para mais perto de seu público. Hoje, podemos assistir dezenas, centenas de vezes, a uma ópera de Mozart. Ou as diversas encenações de uma mesma ópera. Mozart não teve essa chance.

Por que tudo se politizou no Brasil? Ou é da natureza do homem desde sempre?

Não me parece que o Brasil se tenha politizado. Há setores politizados, isto sim. O povão gosta mesmo é de futebol, samba, carnaval, novelas da Globo, Ratinho e Sílvio Santos, Fórmula Um e besteiras do gênero. 

O que você acha das medidas do governo Lula? Você acha que tais iniciativas diferem das do ex-governo FHC? Acredita que até terminar seu mandato o sr. Luiz Inácio Lula da Silva finalmente cumprirá parte do ideário socialista de suas propostas iniciais?

Lula começou com uma grande bobagem, o tal de Fome Zero. A meu ver, será este programa o fator maior de desmoralização de seu governo. É uma idéia de jerico dar de comer a uma grande massa. Há inúmeros planos assistenciais no Brasil, desde o governo Fernando Henrique. No ritmo em que vamos, teremos em breve metade do país trabalhando para sustentar uma outra metade ociosa e improdutiva. Não se constrói riqueza deste jeito. Esta é a melhor fórmula para 
chafurdar eternamente na pobreza.



Lula não está seguindo exatamente ao pé da letra o programa de Fernando Henrique, está indo além. Fernando Henrique tentou taxar os inativos, mas acabou desistindo. Para Lula, é uma questão de honra levar a velharada à miséria. Com o argumento de acabar com aposentadorias milionárias, que são exceção, quer tascar a mão no bolso de milhões de pessoas que estão longe de receber aposentadorias milionárias. Não importa se isto ferir um dos pilares dos regimes democráticos, o direito adquirido. O PT pode ter-se civilizado, mas dadas suas raízes stalinistas, pouco está ligando para democracia. Quer fazer caixa rapidamente. Como afirmou o presidente, nem o Congresso nem o Judiciário irão impedi-lo deste propósito. Só Deus. Quanto ao ideário socialista, ao que tudo indica, o PT, uma vez no poder, o abandonou. Ainda bem.

Mas o Brasil não está passando por uma revolução comunista aos moldes de Antonio Gramsci?

Não creio. Se o PT tivesse ascendido ao poder nos anos 80, quando ainda o urso soviético arrotava e fazia ouvir seu arroto no Terceiro Mundo, sem dúvida teríamos corrido o risco de virar uma gigantesca Cuba. Verdade que o socialismo serviu de bandeira para a tomada do poder. Mas, como dizia Roberto Campos, o poder é como o violino: pega-se com a esquerda e toca-se com a direita. Derrubado o Muro, desmoronada a União Soviética, não há mais clima para aventuras socialistas neste mundo contemporâneo. Se os brasileiros todos estrilam contra um salário mínimo de 75 dólares, não vejo como reduzir, nos dias atuais, o salário de um médico ou professor universitário a vinte ou trinta. O paraíso cubano, onde médicos e professores foram reduzidos a esta condição de miserabilidade, só serve de referência para militantes idosos, saudosos de suas bandeiras de juventude, e universitários sem noções da História recente, como o são geralmente os universitários hoje. O salário de um profissional liberal nos atuais países socialistas e ex-socialistas, um mendigo diligente o tira em uma semana no Brasil. Tampouco consigo imaginar os brasileiros se submetendo à tirania de um partido só.

O poder tornou o PT mais pragmático. Um dos últimos movimentos no mundo a empunhar as bandeiras do obscurantismo hoje é a guerrilha católica do MST, cujas lideranças cultuam assassinos como Mao, Lênin e Castro como paradigmas para a sociedade. Há quem desconfie do namoro dos encanecidos petistas com o regime de Cuba. Árvore velha não se curva, sob risco de quebrar. Condenar Cuba, para vetustos senhores como José Dirceu, Genoíno, Tarso Genro, seria algo como negar a própria biografia. O mesmo fenômeno vemos nas universidades, onde velhos marxistas continuam fiéis à antiga crença. Negá-la seria o mesmo que afirmar: “eu fui um idiota a vida toda e minha obra não vale nada”. A um homem já maduro, é preciso muita coragem para tal admissão, e coragem é moeda rara. O máximo que o PT conseguirá fazer é afundar um pouco mais o país na pobreza. E daí não passa. Espero.

Quanto ao Gramsci, me parece que atualmente seu maior divulgador é o Olavo de Carvalho, ao conceder-lhe créditos por esse pensamento comunizante que ora vige no país todo. Discordo. Não consigo ver a militância do PT, de Gramsci em punho, tentando encontrar em seus livros a fórmula de introduzir o comunismo no Brasil. Não é preciso ler Gramsci para concluir que, dominadas a universidade e a imprensa, tem-se o controle do que pensa a população. As esquerdas brasileiras são malandras e não precisam de maiores leituras para saber disso. O Olavo vê o mundo a partir de um prisma filosófico e pensa que atrás de todo fenômeno social deve existir um pensamento. Ora, não é bem assim. Basta apanharmos os milhares, talvez dezenas de milhares, de jovens que se dizem marxistas. Raros, raríssimos, são os que leram Marx. Nessas doutrinas messiânicas há algo de místico que não apela à razão, mas ao irracionalismo. De fato, no Brasil le fonds de l'air est rouge, como diziam os franceses em 68. Daí a estabelecer um regime comunista, vai uma longa distância. Comunismo significa miséria. Se os brasileiros já acham injusto um salário mínimo de 75 dólares, imagino que a população jamais aceitaria um regime onde um médico ganha 20 dólares por mês.

Com a falência do chamado socialismo real, surgiu o neoliberalismo (sic) como saída política e econômica para as sociedades ocidentais. Esse modelo, no entanto, já começa a dar sinais de falência. O sr. enxerga uma terceira via nesse processo ou uma saída inovadora baseada em novos princípios?

Isso de neoliberalismo mais me soa como insulto criado pelas esquerdas para atacar o poder. Palavras como capitalismo, burguesia, classes dirigentes, tornaram-se obsoletas com a derrocada do comunismo. Era preciso criar um novo vocabulário, novos palavrões ideológicos. Conheço pensadores, teóricos e obras do liberalismo. Do tal de neoliberalismo, não conheço nada. O PT usou muito o novo palavrão em sua campanha. Agora, ao repetir o programa de Fernando Henrique, faz boquinha de siri. As sociedades ocidentais encontraram uma boa saída tanto no capitalismo como nas sociais-democracias, sistemas que aliás em pouco diferem. Isso de buscar uma terceira via é recurso retórico dos derrotados da história que não querem admitir que foram derrotados. Os petistas já andam piscando o olho para a social-democracia, que até bem pouco era considerada reformismo. Será divertido ver o PT, partido no governo de um país pobre, sendo aceito pela Segunda Internacional, movimento de países ricos. Será um vexame, algo como um penetra maltrapilho em baile da corte.

O que é ser um estadista? Você acha que houve algum em nosso país?

Quem decide quem foi ou não estadista é a História e, no caso brasileiro, esta senhora parece não ter-se decidido por nome algum. Mas há um grande má vontade, um propósito veemente de negar a importância dos governantes militares de 64 em diante. Da mesma forma que Francisco Franco salvou a Espanha - e a Europa, eu diria - do comunismo, nossos militares salvaram o país desta peste que contaminou o século passado. Da mesma forma que Franco, foram situados como vilões. Até o século XIX, os vencedores escreviam a História. Do século XIX em diante, graças à propaganda soviética, surgiu um fenômeno novo: os derrotados passaram a escrever a História. Hoje, no Brasil, são cultuados como heróis os apparatchiks financiados por Moscou, pagos para transformar o país numa tirania comunista.

Podemos acreditar em um futuro para o nosso país?

Futuro é claro que o país tem, já que não há perspectiva alguma de que amanhã desapareça do mapa. Como vai ser este futuro? Esta é a pergunta que se impõe. Não sou nada otimista. Com as favelas se multiplicando, com os ditos moradores de rua aumentando nas metrópoles, com o tráfico dominando e administrando comunidades inteiras, com os sedizentes sem-terra invadindo fazendas, repartições e pedágios, com um governo populista dando - ou pretendendo dar - comida em vez de trabalho e educação, não consigo ver dias lindos pela frente. Tenho mais de meio século de existência e neste curto tempo já vi países escapando à pobreza e levando prosperidade a seus cidadãos. Sem ir mais longe, aí estão a Irlanda, Espanha e Portugal, que deram um tremendo salto econômico nas últimas décadas. Se antes forneciam mão-de-obra aos demais países europeus, hoje têm de fechar fronteiras para escapar aos migrantes da África, Ásia e Leste europeu. O Brasil marcha em ritmo de ganso: um passo, uma cagada. Vivi na Europa e viajo seguidamente para lá. Cada viagem me dói na volta. Vejo países cada vez mais lindos, organizados e ricos e volto a um país cada vez mais sujo, bagunçado e pobre.

Qual a sua mensagem para os jornalistas que estão iniciando sua carreira?

Resumindo: antes de mais nada, aprender português. Depois, ler História.




Gloria Alvarez

A morte do Janer Cristaldo

Terça-feira, 28 de outubro de 2014



Perdi ontem um dos meus grandes amigos. Estou triste. Não lembro de ter ficado tão triste assim em outra ocasião na vida. 
Éramos amigos ao longe. Pessoalmente nos encontramos poucas vezes, sempre na Kibelândia. Quando morou em Florianópolis - foi professor na UFSC - e quando quando, já em São Paulo, vinha visitar a cidade. 
Mesmo sem encontros presenciais, conseguimos desenvolver uma amizade profunda e duradoura. O que fez desses encontros uma grande amizades foi uma das coisas que mais prezo no ser humano: a confiança. 
Janer participou e colaborou com todos os projetos jornalísticos que tive. Foram cinco jornais, sempre de oposição ao poder instalado e de denúncias de corrupção. Tê-lo como colaborador em minhas publicações era uma honra e também sentia como se fosse um apoio aos meus projetos. Sempre esteve presente. Mesmo quando eu e o jornalista Jurandir Pires de Camargo, durante três anos, tivemos um jornal no Uruguay, Janer nos encontrou e nos mandava seus artigos ácidos por correio. Infalível! 
Jornalista, escritor e intelectual primoroso não transigia com a ignorância. Era implacável com as religões e tecia suas críticas sempre calçado em um profundo conhecimento das "sagradas" escrituras que havia devorado em todos as suas edições e idiomas com sua visão crítica e independente. 
Gaúcho do Ponche Verde (Dom Pedrito), era acusado pela esquerda de direitista e pela direita de comunista. Respondia às tentativas de classificações com seu texto poderoso, crítico, claro e mordaz. Tinha desprezo pelo classificadores. 
Não era nada, só detinha todo o conhecimento do mundo! 

Paraíso Sexual Democrático, seu primeiro livro, sobre o mito sexual por excelência das "adoráveis loiras nórdicas", foi meu primeiro livro também. Jamais imaginei que o autor daqueles escritos que embalaram e estimularam a minha produção de testosterona juvenil fosse um dia meu parceiro e amigo por tantos anos. 
Estou triste! Perdi um amigo que realmente valia à pena! 
Abaixo um texto de Janer Cristaldo sobre seu primeiro livro. Uma delícia de texto: 

ONDE ME DESCOBRI TRADUTOR 

A vida é uma caixinha de surpresas. Em meus dias de piá no Ponche Verde, jamais imaginaria que um dia seria tradutor. E muito menos que minha primeira tradução seria do sueco. (As traduções do francês e do espanhol viriam mais adiante). Aliás, naqueles dias, nem imaginava que a Suécia existia. E que iria me atrair poderosamente, a ponto de um outro dia, bem mais tarde, fazer minhas malas e ir morar no paraíso dos Sveas. 
Só mesmo sendo jovem para fazer a loucura que fiz. Deixei em Madri, chorando, a mulher que adorava, e rumei ao norte. Ela, também chorando, rumava ao sul. Tenho certeza que hoje não teria forças para repetir tal insanidade. Eu conhecera Estocolmo há uns vinte dias. Caí lá em dezembro, em plena noite nórdica. Quatro horas da tarde, noite profunda. Me senti em Plutão e era em Plutão que queria aterrissar. Eu fugia do Brasil e do Terceiro Mundo, do carnaval e do futebol, da miséria e do subdesenvolvimento. Henry Miller dizia que os verdadeiros problemas humanos só surgem depois de resolvidos os problemas do estômago. Queria conhecer aquela sociedade onde os problemas do estômago já haviam sido resolvidos. 
Fui para não voltar. Estava irritado com o Brasil e desejoso de paraíso. Não que pretendesse abandonar a mulher que adorava. Pensava em levá-la para lá mais tarde, onde viveríamos juntos os verdadeiros problemas da condição humana. Mal cheguei, minha primeira providência foi encontrar um curso de sueco. Verdade que todo sueco fala inglês. Mas meu inglês era escasso. E eu queria falar a língua local. 
Mas as razões que nos impelem a viajar nem sempre são as que alegamos como motivo de partida. Conscientemente, eu fugia de um continente militarizado, do Brasil, do samba e da miséria. As gaúchas recém começavam a libertar-se dos preconceitos de Roma, e eu tinha pressa. Sem falar que, na época, o mito sexual por excelência eram as “adoráveis louras nórdicas”. Quando o sol cai por trás dos fiordes, dizia uma atriz, só nos resta ir para casa e fazer amor. É para lá que eu vou, pensou este ingênuo que vos escreve. 
Sim, ingênuo. Pois as suecas eram bem mais inacessíveis do que insinuavam os pacotes turísticos. Tanto que minha primeira “sueca”, de sueca nada tinha. Era uma brava cidadã soviética, de Ashkhabad, no Turcomenistão. 
Tinha pômulos asiáticos e deles muito se orgulhava. Como língua comum tínhamos o sueco, do qual conhecíamos umas dez palavras. “Jag, vacker” — me confessava Gysel, indicando seu rosto. “Eu, bonita”. Acontece que eu partira em busca das louras vikings. “Du vacker i Ashkhabad”, respondi. “Tu bonita em Ashkhabad”. “Jag, mycket exotisk”, insistia a camarada. “Eu, muito exótica”. Em suma, acabei partilhando do gosto dos Sveas — que assim se chama aquela tribo que erigiu a Suécia — pelos rostos orientais. Gysel casou-se com um sueco. Não que lhe agradassem os branquelas do Norte. Ocorre que faria qualquer sacrifício para jamais voltar a seu universo soviético. 
A adorável loura nórdica surgiu bem mais tarde, afinal elas não dão em cachos à beira da estrada, como imaginam os latinos. Encontrei-a em uma festa, num daqueles verões em que o sol jamais se põe e os suecos correm desvairados pelos florestas. A noite não caía, o dia não amanhecia e o vinho jamais findava. Olhando de hoje, vejo tudo como sonho. Naquela noite, corri nu atrás de uma sueca nua, numa noite branca como o dia, pelos bosques dos hiperbóreos. Deve ter sido sonho mesmo. Ou não. Afinal a ela está dedicado este livro. 
Se bem me lembro, naquela noite que não era noite, ensinei os nórdicos a dançar samba, logo eu que detesto samba, o que deve dar uma vaga idéia de meu estado etílico. Summa av kardemuma, como dizem os suecos: acabamos coincidindo na mesma cama. Amor? Nada disso, era puro porre. Em todo caso, daquela coincidência — como direi? — quase geográfica, resultou uma cálida amizade que embalou meus dias junto ao Ártico. Lena, a quem eu chamava de Lena Lena — lena significa doce em sueco — iniciou-me nos melhores autores suecos, e a ela devo minha descoberta de Karin Boye e a tradução deKalocain ao brasileiro. 
Há viagens e viagens. Conheço não pouca gente que gosta de conhecer culturas primitivas, bugres em estado selvagem. São em geral pessoas que vivem em países civilizados, ou que imitam as que vivem em países civilizados. De minha parte, prefiro a civilização. Não vejo maior encanto em tais viagens. Até já fiz uma. Em dezembro de 1975, estive no Saara argelino, mais precisamente em El Hoggar, onde vaguei por quinze dias pelo deserto, guiado por tuaregues e harratines. 
Foi uma viagem fascinante, devo confessar. Nas noites ao relento nas montanhas, tomei um porre de estrelas e quase fiquei surdo com o zumbido estridente do silêncio. Ouvir os tuaregues contando histórias em torno à fogueira, em meio a uma noite gélida, é também algo que não se esquece. Diria que as viagens que mais me encantaram foram esta e mais duas navegando pelos fiordes noruegueses. Mas do Assekrem só me restaram o silêncio das noites geladas, os vultos embuçados dos tuaregues e as silhuetas das montanhas. Nada trouxe da cultura tuaregue, muito menos de sua língua, o tamahak, que já nem a falam. 
Quando viajamos à civilização, o legado é outro. Da Suécia, junto om as paisagens nevadas e as noites brancas, trouxe uma língua, trouxe uma cultura distinta, mais um pouco da literatura dos Sveas. Lá, me descobri como escritor. Eu havia lido pelo menos uns quinze livros sobre o país antes de partir. Mal comecei a juntar palavra com palavra com palavra, fui descobrindo um país que não me fora mostrado pelos autores que havia lido. 
São estranhos os fatores que nos levam para lá ou para cá. Meus desejos de deserto começaram lá perto do Círculo Polar Ártico. Em um exercício de vocabulário de uma aula de sueco, soube que tinha como colega uma författarina. Isto é, uma escritora. Era uma suissesse elegante e charmosa, e chamava-se Federica de Cesco. (Em 2008, saiu um filme sobre sua vida, Der rote Seidenschal). Quantos livros havia escrito? Ah — me respondeu com certo enfado — mais de cinqüenta. 
Fiquei com um pé atrás. Era bastante jovem, mais de cinqüenta livros me parecia um exagero. Nunca havia visto umaförfattarina de perto, muito menos uma que tivesse escrito meia centena de livros. Passei no apartamento dela. Em uns dois metros de estante, ela tinha algumas das traduções de alguns de seus cinqüenta livros. Meu ceticismo caiu por terra. Perguntei qual considerava o mais importante deles. 
— Ah! Só escrevo best-sellers. Nada de importante. Mas gosto muito deste aqui. 
Passou-me um livro sobre El Hoggar, o país dos homens azuis. Falava da geografia dos tuaregues e harratines que habitam o extremo sul da Argélia. Havia na obra um certo deslumbramento de europeu em visita ao Terceiro Mundo. Mesmo assim, o livro incitava à viagem. O que me espantou naquele momento foi encontrar alguém que vivia de escrever, escrevia muito e não dava importância alguma ao que escrevia. Estava em Estocolmo paga por sua editora, para criar uma novela ambientada em aeroportos internacionais. Federica me deixava pasmo. A ela devo minha opção pela escritura. Se esta moça — pensei com meus botões — escreveu mais de cinqüenta livros e acha que só escreve bobagens, vou escrever pelo menos um, que não considero bobagem. Assim surgiu O Paraíso Sexual Democrata. 
Assim surgiu também o tradutor. Para preservar — e testar — meu sueco, mergulhei na tradução de Kallocain, editada pela eBooksBrasil, do infatigável difusor da boa literatura, o Teotonio Simões. O livro havia sido publicado em papel em 74, no Rio de Janeiro, pela Cia. Editora Americana. Mas a edição esgotou rapidamente e hoje a obra de Boye só pode ser encontrada em sebos, e olhe lá! Naquela tarde em que me despedi de Lena Lena em Arlanda, mais uma vez chorando, ela nem desconfiava que estava exportando Karin Boye para o Brasil. 
O Paraíso decorre de uma estada em Estocolmo nos anos 71 e 72. Ou seja: do alto deste livro, quatro décadas vos contemplam. A Suécia é um país pequeno, mas dinâmico. Muda rapidamente. Quando lá vivi, as prostitutas eram vistas como uma espécie de assistente social e beber álcool nos bares era proibido. Hoje, quem busca uma prostituta pode ser preso. E o álcool, embora permaneça proibido nos supermercados, é servido em qualquer bar. Estocolmo ficou mais alegre. 
O Brasil também mudou. Naqueles anos, até livrinho sueco dava cana cá entre nós. Daí minha insistência em mostrar a pornografia, que era livre na Suécia, e a nonchalance com que os jornais tratavam a temática sexual. Hoje, nestes dias de Internet, até a pornografia decaiu no Brasil. 
O livro envelheceu. Mas permanece como uma foto do passado daquela nação boreal. 

Janer Cristaldo 
Agosto, 2012 
Para ler O Paraiso Sexual Democrático clique! 
Postado por Sergio Rubim

LÁ ONDE TUDO É IGUAL

LÁ ONDE TUDO É IGUAL

Por Janer Cristaldo

Leio na Veja que, de olho no crescimento das classes C e D e da falta de tempo das pessoas para cuidar da alimentação, o colombiano naturalizado argentino Woods Staton, que há três anos comprou as operações do McDonald's na América Latina, quer abrir duas lojas por semana e chegar ao sertão do Brasil. "Nosso público são as pessoas que pertencem às cidades, que têm pouco tempo para comer", afirma o empresário. "Esse estilo de vida e a dinâmica nas cidades são bons para nós. É uma mistura entre o hábito de consumo e a falta de tempo". Propaganda desonesta de empresário com hábitos ianques. Mesmo em grandes metrópoles como Paris ou Madri, ou Berlim ou Roma, sempre sobra tempo para comer. Fast food é coisa de bárbaros, de gente que não tem savoir-faire. Isto é, de americanos. A boa restauração sempre foi escassa nos países anglo-saxônicos. E sempre foi generosa nos países latinos. Em meus dias de Europa, dizia-se que a Inglaterra construiu um grande porque buscava uma boa cozinha. Não duvido. É uma questão de estilo, que talvez tenha a ver com o “time is money”. Em Nova York, se eu pedia uma cerveja, a garçonete logo me trazia a conta e perguntava: - É só? - Não sei, moça. Depende de eu gostar da cerveja, do ambiente. Talvez seja uma só, talvez três ou quatro.
Leia mais. Beba na fonte.

http://deonisio.blogspot.com.br/

NOME DE POBRE NO BRASIL

Recebo de Moacir Japiassu, nosso querido amigo Japi, grande jornalista e romancista altaneiro, cujas luzes literárias brilham no céu da pátria a todo instante, esse inventário fabuloso sobre os nomes que os pobres dão aos filhos. Aumento uns pontos, pois quem conta um conto... 

1)Primeiras sílabas dos nomes do pai, da mãe ou dos avós. Exemplo Claudemarioneide. 
2) O pai (a mãe está em casa, de resguardo, cumprindo a quarentena) olha o mapa-múndi e tasca nomes de capitais, mas tal como pronunciados diante do escrivão: Uoxinton Alves; Uelinton da Silva; Sidinei dos Santos; Liverpul Pereira etc. Mas, atenção: tem que ser do primeiro mundo. Nada de Bogotá, La Paz, Montevidéu. Brasília pode. 
3) O show business: Máicon Jéquisson Chuarzenéguer Farias; Valdisnei, que é como o pai pronunciou Walt Disney diante do escrivão; Neide Gaga (era para ser Lady Gaga). 
4) Sofrendo com a falta de recursos, o pobre dá nomes em abundância para um único filho, afinal é uma das poucas coisas que ele pode dar ao rebento, chamado também nascituro. Fica assim: Jénifer Géssica Maiúscula Antrópode Correia dos Santos. Tem que ser nome proparoxítono. 
5) Pobre adora incluir consoantes estranhas. As preferidas parecem ser H e Y. Veja o caso do craque brasileiro agora revelado: Hyuri. Nem os russos ousaram tanto: pôr H antes de Y. 
6) Homenagem a jogadores de futebol: Amarildo, Rivelino, às vezes juntos. Fica assim: Gylmar Amaryldo Ryvelyno Barbosa (tem que pôr y). 
7) Marcas famosas: Simcar Levis, misturando o nome do escritor Sinclair Lewis, também conhecido como São Cler das Ilhas, e o carro Simca. E Simca Chambord Frigidér: neste caso, mesclando o carro e a geladeira. 
8) Nomes gerados por confusões, como Odvan. A mãe queria perpetuar a música O Divã. Saiu isso, que foi como o pai pronunciou e o escrivão entendeu. Outro exemplo: "Como é o nome do menino?" "É pra ser Dino". E saiu registrado Pracedino. 
9) Nomes de eventos: Udistoque (Woodstock) Ráley (o cometa de Halley) e Tisunami. 
10) Nomes tirados das primeiras coisas que o pai leu ao abrir um livro: Sumário, Índice, Prefácio.

Postado por Deonísio da Silva às 14:48

domingo, 11 de outubro de 2015

MORREU JANER CRISTALDO


Gaúcho de Santana do Livramento, onde nasceu em 1947, o jornalista, escritor, professor e tradutor Janer Cristaldo, Doutor em Letras pela Sorbonne, partiu para a eternidade na noite passada. Minha filha Manuela e eu o visitamos há alguns dias no Hospital Samaritano, em São Paulo. Sem voz, falou apenas por gestos, meneios da cabeça e palavras proferidas com o movimento dos lábios. Pareceu muito contente com nossa visita, apertou nossas mãos e nos ouviu com atenção, entendendo tudo o que lhe dizíamos. Seu blogue era visitado por cerca de 1,5 milhão de leitores. No último post, em 5/9/2014, ele recomendou a leitura de um livro do professor americano Mark C. Taylor, da Universidade de Columbia: "Crise no Campus: um plano arrojado para reforma das nossas Faculdades e Universidades (Knopf, 2010)". Destacou que o autor considera insustentável o sistema de doutorado, nos Estados Unidos e em muitos outros países, e que precisa de mudanças urgentes. Porque, do modo como estão os doutorados, interessam apenas ao corpo docente, em prejuízo dos estudantes. E conclui: "a realidade é que existem poucos empregos para as pessoas que gastaram até doze anos em sua formação". Grande Janer! Foi sempre um intelectual inquieto, culto, de vastas leituras, autor de livros muito bem escritos, tradutor de Ernesto Sabato, de autores suecos, franceses etc. Vão fazer falta suas pertinentes e polêmicas intervenções.

sábado, 10 de outubro de 2015

Polêmico Janer

UM POLEMISTA DE VERDADE



Fiquei muito triste com um post do professor Deonísio Da Silva (reproduzido pela médica Laís Legg, no Facebook) sobre a morte do jornalista e escritor Janer Cristaldo, no domingo passado.

O último parágrafo da nota de Deonísio:

Grande Janer! Foi sempre um intelectual inquieto, culto, de vastas leituras, autor de livros muito bem escritos, tradutor de Ernesto Sabato, de autores suecos, franceses etc. Vão fazer falta suas pertinentes e polêmicas intervenções.

Foi, sem dúvida, um grande polemista. Escreveu na década de 70 na Folha da Manhã, diário do doutor Breno Caldas. Desde então, não surgiu outro cronista com a sua capacidade. Posso dizer que o Juremir Machado, por exemplo, tem em comum com Janer a cidade de nascimento - Santana do Livramento. Não só o Juremir, todos.
-
Andou pelo mundo. Era Doutor em Letras pela Sorbonne, formado em Direito (detestava) e filosofia. Seu maior sucesso literário foi escrito quando morava na Suécia, "O Paraíso Sexual Democrata" - confira em

Quando saiu de Porto Alegre, teve uma rápida passagem por Florianópolis, onde foi professor na Universidade. Morava em São Paulo, onde escreveu para todos os jornalões. Nos últimos anos tinha o cristaldo.blogspot.com.br e o último post é de 5 de setembro deste ano.

Janer estava com aquela doença que me nego a escrever. Conta Deonísio:

Minha filha Manuela e eu o visitamos há alguns dias no Hospital Samaritano, em São Paulo. Sem voz, falou apenas por gestos, meneios da cabeça e palavras proferidas com o movimento dos lábios. Pareceu muito contente com nossa visita, apertou nossas mãos e nos ouviu com atenção, entendendo tudo o que lhe dizíamos.
-
Conheci o Cristaldo quando escrevia para a Folha.

A Companhia das Letras havia encomendado para o Caio Fernando de Abreu uma seleção de novos escritores gaúchos, para o livro "Assim Escrevem os Gaúchos - Inéditos". E eu fazia parte deste grupo. Sei lá o motivo, a tarefa foi transferida para o Janer. Um dia ele me chamou e disse que estava mantido.

Já imaginou? Andava nas nuvens. Selecionado pelo Caio e pelo Janer.

Mas o livro não saiu.
-
Sempre o acompanhei pelos jornalões em que escrevia.

Até que há uns anos descobri o seu blog e, a partir daí, reproduzi muitos de seus textos.
-
Quando comecei a pesquisar para o livro "Apaixonados por Porto Alegre - Personagens do Centro", conversei com o jornalista Rogério Mendelski, amigo do Janer.

Tinha pouco material sobre um dos personagens, Carlos Ducatti. E o Rogério me diz:

- O Janer era amigo dele e deve ter algum texto sobre o Ducatti.

Mandei um email pra ele, dizendo o que fazia e que reproduzia os seus textos. Ao final perguntei sobre o Ducatti. Bah, o cara foi de uma gentileza inesquecível. Quis saber quem eram os outros personagens e inclusive contribuiu com muitas informações.
-
Me mandou um texto sobre o Carlos Ducatti, que reproduzo. Está no livro "Apaixonados por Porto Alegre - Personagens do Centro":

O SNI, ÓVNIS E O HOMEM DE ORION

Porto-alegrenses de minha idade certamente lembrarão de Carlos Ducatti, o cientista, filósofo e poeta orionino. Ou orionano, não lembro agora. Ele não era terráqueo. Viera da nebulosa de Orion e tinha uma missão na Terra. Seguidamente eu o encontrava no Chalé da Praça XV e certa vez tivemos uma longa discussão sobre o que era ser orionino ou orianano. Não lembro agora como ele se definia. Mas havia uma substancial diferença entre um e outro conceito.

Ora, vivíamos em uma cultura na qual milhões de pessoas acreditam na existência de uma mãe virgem. Por que eu não aceitaria então que ele viera de Orion? Nunca pus em dúvida suas origens e, a cada vez que o encontrava, perguntava como estava a temperatura em Orion.

Ducatti fundou o Clube dos Sábios, que congregava sete pessoas, sendo uma delas sua mãe. Considerava que a mulher é prejudicial ao gênio. Só não seria prejudicial em uma circunstância: durante a relação, o homem deveria liberar um só espermatozóide. Interrogado por uma jornalista como isto seria possível, respondeu com um piscar de olhos:

- Questão de prática.

Pasmem! Foi de Ducatti que ouvi falar pela primeira vez a teoria dos buracos negros. Ele os conhecia muito antes de Stephen Hawking. Andava em busca de Galactus, ser galático que odiava a vida e se alimentava de planetas. Galactus fora, inicialmente, uma ilação teórica. Com o correr do tempo, sua existência passou a ser um imperativo de ordem conceitual, única explicação plausível para o desaparecimento de civilizações cósmicas multimilenares.

Até hoje, guardo em meus arquivos os panfletos nos quais Ducatti explicava seus projetos. Um deles era o esquema de uma complexa máquina matapardais. O Homem de Orion julgava que os ditos predadores tinham qualquer ligação com os poderes do mal, sem falar que não lhes suportava o chilreado. E os bichinhos eram legião em torno ao Chalé, particularmente na primavera. A máquina consistia basicamente em uma metralhadora giratória acoplada a quatro canhões sonoros e a um computador com gravação dos sons de pardais em sua memória. Ao ouvi-los, os canhões direcionais apontavam a arma para a fonte de emissão de ruídos e a metralhadora era acionada automaticamente. Havia pensado em uma arma à base de raios laser, mas sua filosofia ecológica não permitia sacrificar árvores.

Um outro projeto era uma proposição para viver com menos de um salário mínimo, com 33 itens, entre os quais se destacavam: não ter carro, televisão, aspirador, batedeira, etc., coisas perfeitamente dispensáveis; ser autodidata, evitar pagar cursos; acostumar o estômago a exigir pouco alimento; botar pouco açúcar no chá; fritar ovos com água; não seguir a moda, coisa irracional que nos impele a fazer compras; não fazer seguros, confiar no cósmico e na fraternidade; ir de preferência a espetáculos grátis; em caso de esgotamento nervoso, ir ao campo (as clínicas são caríssimas); não fumar; não comprar boné contra o sol: andar pela sombra ou proteger-se com um jornal; não estragar os tênis ou sapatos jogando futebol; não comprar quadros, pintá-los; ter letra pequena, afim de economizar papel. Etc.

Em um outro prospecto, fazia uma crítica ao filme Guerra nas Estrelas, a partir de suas experiências astrais. Vinte seriam as falhas do filme, entre elas o fato de todas as estrelas aparecerem iguais, desprezando-se as diferenças de tamanho, distância e cor; mesmo em satélites, a gravitação é igual à da Terra; entre os extra-terrestres há muitos tipos monstruosos, cerca de oitenta por cento, quando o normal seria quinze; a invisibilidade de naves e pessoas, recurso muito usado por seres evoluídos, jamais ocorre; pessoas supostamente evoluídas alimentando-se com pratos e talheres, quando seres adiantados ingerem só líquidos ou prana.

Alimentava o projeto UNAT - União das Nações da Terra - com sede em Brasília, para substituir a ineficiente ONU. Seu principal objetivo, a busca inteligente e objetiva das soluções para os problemas humanos, sendo uma das primeiras tarefas resolver a questão palestino-israelita. E planejava a construção de um espaçoporto em Porto Alegre, para receber os óvnis de galáxias distantes. Egresso do curso de Física da UFRGS, era tido como um louco manso. Creio que só eu acreditava piamente em suas viagens astrais.

Certo dia, quase tive uma eclampsia. Eu voltava das Ilhas Canárias. Na Gran Canária, estive no povoado de Arucas. Percorrendo sua geografia, encontrei uma espécie de oásis, algo como um mar sereno de areia em meio a montanhas pontiagudas. Lembrei do Homem de Orion e disse à minha Baixinha: “se os extras chegam à Terra, só pode ser aqui que eles aterrissam. Preciso comunicar ao Ducatti.” Encontrei-o no Chalé, como sempre.

- Ducatti, estive em Arucas, na Gran Canária. Acho que é lá que os extras aportam.

- Sei disso – respondeu o Homem de Orion -. Já escrevi ao prefeito de Arucas.

E puxou do bolso uma carta, a resposta do prefeito de Arucas. É nestes momentos em que minha descrença vacila. Profundo mistério!

Dito isto, leio hoje na Folha de São Paulo que o extinto SNI (Serviço Nacional de Informações) durante muito tempo pôs seus agentes à espreita dos óvnis, segundo documento de 86 páginas, obtido pelo jornal e classificado como confidencial.

Um objeto luminoso, que fazia evoluções em alta velocidade sobre a parte frontal da cidade de Colares [no Pará]" foi visto pelo menos duas vezes, há pouco mais de 30 anos, nos dias 16 e 22 de outubro de 1977. "A forma do objeto era cilíndrica, quase cônica", diz um relato pormenorizado. Um desenho rudimentar dessa suposta espaçonave interestelar completa a descrição do episódio.
(...)
Em meados de 1977, os jornais do Pará e do Maranhão traziam insistentes relatos sobre "luzes misteriosas, causadoras de mortes e alucinações". Pessoas em contato com o fenômeno apresentavam sintomas de "paresia [paralisia incompleta] generalizada, hipetermia, cefaleia, queimaduras superficiais, calor intenso, náuseas, tremores do corpo, tontura, astenia [fraqueza] e minúsculos orifícios na pele". A Aeronáutica não titubeou. Mobilizou homens e recursos para uma missão. Num ato de humor involuntário, batizou a empreitada para buscar discos voadores com o nome autoexplicativo de Operação Prato, segundo relato do SNI.
(...)
Os agentes se dividiam em turnos. Faziam vigílias noturnas até o dia amanhecer em lugarejos pouco povoados. O documento do SNI é apenas um extrato do que está na Aeronáutica e permanece em segredo. O esforço dos "observadores" militares às vezes resultava em nada. Por exemplo, no dia 27 de outubro de 1977:

"1h15 - Observadores instalados no alto da caixa d'água";

"4h05 - Populares observam o deslocamento de uma intensa "luz" ao nível das árvores (Roberto), informam aos observadores postados na caixa d'água (30 a 40 m de altura) ao nível do topo das árvores, nada observado. Restante do período, nada a relatar".

Quando raiava o dia, descanso. Sucessivos relatos dos militares da Operação Prato começam assim: "6h30 - descanso até as 14h".

Eles dormiam de dia e trabalhavam à noite. Algumas vezes, a intensa atividade celeste no turno da noite levava o descanso a se estender até as 15h.

E por aí vai. Segundo a Folha, o documento do SNI sobre a missão da Aeronáutica interessada nas coisas do espaço sideral só se tornou público graças a um pedido da CBU (Comissão Brasileira de Ufólogos). Com base em direito garantido pela Constituição do Brasil, os ufólogos pediram acesso a documentos sobre óvnis guardados pelas Forças Armadas e outros órgãos oficiais do governo federal. O requerimento foi protocolado na Casa Civil da Presidência em 26 de dezembro de 2007.

Em 31 de outubro passado, dez meses depois, chegaram as primeiras 213 páginas de papéis antigos e confidenciais da Aeronáutica. São datados de 1952 a 1969. Na última quinzena do mês passado apareceu o relatório de 86 páginas do SNI, relativo à Operação Prato, de 1977 e 1978.

Ora, o SNI perdeu tempo e dinheiro em suas pesquisas. Tivesse consultado o Homem de Orion, teria informações detalhadas sobre a atividade dos extras. Eu, por exemplo, graças a minha convivência com Ducatti, estava muito melhor informado que o SNI.

Postado por JLPrévidi às 13:29

Um comentário:
Prévidi,
Lá por meados dos anos 70 do século passado, na saudosa Folha da Manhã, tive o prazer de ter o primeiro contacto com a escrita deste nosso magnífico escritor e grande intelectual polemista. Nas questões das polêmicas, do gênio inquieto, eu me envolvi menos. Mas jamais me olvidarei do prazer que, pouco mais que guri, tive ao ler em capítulos diários em sua coluna da folhinha seu primeiro romance ( não me recordo do título ) e, depois, seus livros e traduções, principalmente do, também genial, Ernesto Sábato.
O triste é que tenha morrido tão novo; o legal é que tenha tido reconhecimento imenso pela sua obra. Fique com os deuses, cara!

Grande Janer

O ÚLTIMO DOS POLEMISTAS GAÚCHOS






Ontem publiquei um post sobre o falecimento do jornalista e escritor Janer Cristaldo - Terça, 28 de outubro de 2014 - parte 2.
Fiquei muito triste.
A médica Laís Legg me enviou um post de Andréia Zwetsch (sobrinha), a moça que está aí na foto com o Janer Cristado. Aliás, a Laís conta que ele "só teve uma filha (Isadora Pamplona Genecco Moreira), que é filha dele com a minha melhor amiga, a jornalista Iracema Pamplona Genecco, que trabalhou na Caldas Jr.".
Escreveu a Andréia:
Pra quem teve a chance de conhecer ou de ler esta figura ímpar, ou pra quem tanto me ouviu falar e sofrer com ele... aviso que o Janer morreu hoje de manhã, depois de uma peleja longa contra o câncer. Venceu cinco. Perdeu pro sexto. Precisava descansar. O homem das tantas palavras já estava calado desde setembro. Que a polêmica não acabe com sua saída! As reflexões continuam bem vivas no http://cristaldo.blogspot.com.br/ 
E aí vai um texto que muito me inspirou (e que foi o motivo de algumas discussões calorosas, afinal nunca dá pra concordar plenamente com ele).
Vai em paz, Janer! No fundo, no fundo, espero que tenhas uma grande surpresa, contrariando todas as tuas 'não crenças', e encontre a Tânia e mais um tanto de gente boa nessa nova viagem.
-
Andréia também publicou um maravilhoso texto dele. De 23 de junho de 2003:

Vai! 

Viagens. Minha primeira foi de bicicleta, 60 quilômetros de areia e barro, de Upamaruty, distrito rural de Livramento, a Dom Pedrito. Certamente foi a mais significativa. Eu teria dez anos e não conhecia cidade. Em meu imaginário, fruto talvez de contos de fadas, as cidades seriam douradas e brilhantes. Pedalando, avancei pela estrada real e, por mais que aguçasse a vista, não conseguia ver nada de dourado nem brilhante. Fui penetrando aos poucos por seus arrabaldes poeirentos, entrei pelas ruas de paralelepípedos e só apoiei o pé no chão frente a igrejinha da praça. Então aquilo era cidade? Fosse como fosse, seria minha nova geografia. Meu universo rural já pertencia ao passado.
A segunda mais significativa foi de navio, no finado Eugenio C. Estava abandonando o Brasil e não fazia parte de meus projetos voltar. No salão Opala, encontrei uma francesa que voltava da Amazônia, fascinada. C'est magnifique, me repetia com olhar sonhador. Eu não conseguia entendê-la. Mas na Amazônia só há árvores, índios e bichos – objetei. C'est ça! - me respondeu. Ela, oriunda de um mundo milenar e cosmopolita, queria ver o que ficara à margem da civilização. Eu, que nascera naquelas margens, queria a civilização propriamente dita.
Brasileiro, de índios só quero distância. Com eles nada tenho a ganhar, culturalmente. Que antropólogos os adorem, entendo. Índio, hoje, é o ganha-pão da antropologia. A francesa, européia e cosmopolita, queria ver atraso e primitivismo. Eu, vizinho do atraso e primitivismo, queria ver o presente e o futuro.
Fui, vi e voltei. Como Chesterton, considero ser impossível conhecer uma catedral olhando-a apenas por dentro. Se você quiser conhecer seu país, saia logo de seu país. O homem só conhece comparando. Nutro profunda lástima por essa espécie de patriotas, que louva o Brasil sem jamais dele ter saído. Hoje, um de meus prazeres diletos é incitar amigos ao viajar e já consegui convencer alguns a fazer malas e enfrentar oceanos. Mas atenção. Há viajar e viajar. Excursão não é viagem. É uma bolha de seu próprio país que o envolve, e dela você não sai. (Há exceções, é claro. Você não pretenderá, por exemplo, enfrentar a China ou o Sahara sozinho).
Viajar é largar-se na aventura, buscar geografias distantes, tentar entender e fazer-se entender em línguas esdrúxulas, perder-se por ruelas e tentar encontrar-se por mapa. Por tais razões, não vejo sentido algum em viajar por país em que todos falam nossa mesma língua, assistem à mesma novela nos mesmos horários e bebem as mesmas bebidas e comem as mesmas comidas que se bebem e comem em sua geografia nativa. Isto é: viajar pelo Brasil não é viajar. É mesmice. Claro que o Rio merece uma visita. Mas você não estará viajando. Apenas foi do quarto para a sala do mesmo apartamento.
Viajar, hoje, não mais é privilégio de milionários. Por pouco mais que o preço de um televisor de 29 polegadas você já está na Europa. Pelo preço de um carro de porte médio, você passa um mês na Espanha, Itália ou França. Uma casa na praia rende mais de uma volta ao mundo. Não estamos mais na época em que só os barões do café podiam permitir-se o estrangeiro. Nos anos 70, milhares de jovens sem maiores posses fizeram a Europa, eu entre eles. Muitos embarcaram literalmente sem nenhum vintém. Para pagar a passagem, trabalhavam em navios. Chegando lá, sempre havia algum restaurante onde se podia lavar pratos. Nem todos se deram bem e suicídios não faltaram. Mas coragem sobrava. Esta tradição de viajar sem um vintém é antiga e por ela optaram nomes ilustres, como Henry Miller e George Orwell. A luta de Miller para matar a fome de todos os dias está em seus Trópicos. A odisséia de Orwell está em Down and Out in Paris and London.
Mas se você acha melhor aplastar-se diante de uma televisão, tudo bem: fique em casa a ver novelas na telinha. Se preferir comprar um monte de lata para arriscar a vida nas estradas ou assaltos nas ruas, melhor ficar por aqui e irritar-se com o tráfego, com assaltantes e com as multas. Você pode também preferir uma casa para usar um mês ou dois durante o ano e renunciar ao vasto mundo. Falo de pessoas que apertam seu orçamento para conquistar estes mesquinhos sinais de status, mesquinhos mas indispensáveis à auto-estima de quem não tem personalidade. Quem tem tudo isto e folga econômica para viajar – e não são poucos – está excluído desta reflexão.
Bem entendido, nunca tive carro nem casa na praia. A cada vez que pensava em carro, juntava meus trocados e atravessava o oceano. Com um carro não se vai longe. A pé, o mundo não tem fronteiras. Usufrui também de bolsas e viagens patrocinadas por consulados. Bolsa também exige fazer opções. Ou você fica, segurando seu lugar no mercado. Ou parte, sem saber onde cair na volta. Quando voltar, seus colegas e amigos estarão empoleirados em altos cargos e dificilmente lhe darão colher de chá. Quem o mandou gozar o mundo enquanto eles mourejavam? Ocorre que o mundo é grande e a vida é breve. Além disso, não tem estepe.
Em meu dia-a-dia paulistano, tenho encontros esporádicos com pessoas de alto poder aquisitivo, para quem viajar é, no máximo, ir a praias no Nordeste. Constituem aquele tipo padrão que considera o Brasil o melhor país, sem nada conhecerem do mundo. Alguns, mais audazes, já foram a Cancun ou Orlando. Isto é, a locais exclusivamente turísticos, onde não existe o que se poderia chamar de nacional.
Se você é jovem, parta logo, antes que o mercado o escravize. Se é adulto, aproveite sua maturidade e vigor para explorar o planetinha. Está aposentado e se aproximando da velhice? Vá logo, antes que seja tarde. Kafka tem um apólogo, onde fala de casas onde se pode entrar a qualquer hora, encontrar ou não encontrar pessoas, ficar ou sair quando bem entender. Essas casas existem mundo afora. Nelas, milhares de pessoas o esperam, de bandeja na mão, prontas a recebê-lo com carinho e prestimosidade.
Ergue o traseiro desse sofá, leitor. Dá férias a teu medo do desconhecido. Esquece essa luta inglória por sempre mais dinheiro.
E vai.