domingo, 18 de janeiro de 2026

A Semente

Gilrikardo - eterno aprendiz 6.5

Ao reler uma publicação no meu blog de aproximadamente cinco anos atrás, encontrei o relato da minha tentativa de caminhar quatro mil metros por dia. Naquela época, contentei-me inicialmente com os míseros quatrocentos metros que havia no entorno de um canteiro; minha meta era dar dez voltas e, assim, perfazer os quatro mil metros. Intento que acabei abandonando.

Passados alguns meses, ou pouco mais de um ano, "avancei o sinal vermelho" sem perceber e, zássss! Atingi um Honda Civic no cruzamento; acertei bem no meio, na coluna. Ao descer do veículo, ainda me recuperando do susto, fui abordado por um senhor bem idoso — mais velho que eu, com certeza — que bateu levemente em meu ombro e, com a calma dos anjos, disse:

— Senhor, senhor, o senhor passou no sinal vermelho.

No mesmo instante agradeci e admirei a atitude nobre daquele homem. Vejam só: percebendo que poderia haver um impasse entre os motoristas sobre quem seria o culpado, ele resolveu esclarecer o fato. Com isso, poupou a todos de um embate desnecessário. Como eu tinha seguro total, acertamos tudo sem estresse e segui a vida, aguardando a manifestação da seguradora.

Nos trinta dias seguintes ao fato, refleti sobre a minha necessidade de ter um automóvel. Ruminei durante algum tempo e, finalmente, decidi voltar a ser pedestre. Fiquei impressionado com a forma como causei o acidente: sem perceber. Sinceramente, até hoje não entendo como não vi o sinal. Hoje, quando vejo relatos parecidos, acredito fielmente, pois tive um "branco" total ao cruzar o semáforo.

Fiz as contas do valor que deixaria de gastar com o veículo: em torno de dezoito mil reais anuais, o equivalente a três mil dólares (converto em função da data em que alguém possa ler este relato). Pois bem, com essa “economia” contabilizada, passei a utilizar carros por aplicativo.

Há muito eu já me sentia incomodado no trânsito. Vez por outra, alguém me xingava — até mulheres! Imagine uma senhora mostrando o dedo em riste e gritando: "Sai da frente, velho caduco!". Eu, dentro das limitações da avenida, a sessenta quilômetros por hora; ela, muito acima disso, mandando-me para "aquele lugar". Fora os que param em qualquer lugar e manobram de qualquer jeito. Além de cuidar da nossa trajetória, tínhamos que atentar para motoristas que não estão nem aí para os outros.

Tudo isso me levou a concluir que, ao andar a pé, eu estaria me livrando desse estresse, além de contribuir para a minha saúde. E fui levando a vida nessa toada: aplicativos para trechos longos e caminhadas para os curtos. Até que aquela semente de anos atrás — os quatrocentos metros iniciais — germinou.

Certo dia, calculei o trecho entre meu trabalho e minha casa: dois quilômetros e meio. Ida e volta perfazem cinco quilômetros. Bingo! Agora não há desculpa. Quando o universo conspira a favor, o desejo de ser pedestre floresce. Em meu entendimento, só vejo vantagens: eliminei a despesa e o estresse do automóvel (para urgências ou férias, eu os loco) e obtive o maior ganho de todos: a saúde. Cinco quilômetros por dia, vezes trinta, dão cento e cinquenta por mês.

Resolvi fazer este relato porque, muitas vezes, temos um desejo tão internalizado que nem precisamos pensar muito a respeito. O tempo se encarrega. É como dizem: "é no embalo da carroça que as melancias se ajeitam". E eu sigo feliz com minhas melancias de pedestre.

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