sábado, 13 de maio de 2017

COISAS DA MINHA TERRA

NATIVISTA A PRESENTA... A HISTÓRIA DO CINEMA NA LENDÁRIA VACARIA!

NA VACARIA DE OUTRORA, O CINEMA ERA ASSIM...

Os vacarianos tomaram conhecimento do invento dos Irmãos Lumière por um ambulante que, vindo de Lages, no início da segunda década do século, instalou uma tela e um projetor na praça. No outro dia o mesmo seguiu para Caxias e não voltou mais.

Mas o primeiro cinema convencional surgido em Vacaria foi o RIO BRANCO, pertencente ao seu Jango Santos, e funcionava num salão que existiu na Rua Marechal Floriano, quase na esquina com a Júlio. Pelo ano de 1917, os irmãos Carlos e Alfredo Scherechewski e o seu Osório Mota o compraram, tomando várias providências: instalaram um cartaz onde escreviam a programação, tocavam uma sirene um pouco antes e na hora de começar a sessão e, o mais importante: uma orquestra começava a tocar em frente ao Café, reunindo o público e, a seguir, iam todos, a orquestra inclusive, para o cinema!

As instalações eram rudimentares: cadeiras coloniais ao invés de poltronas, o filme era mudo, mas tinha a animação, ao fundo, do seu Carlos no piano, seu Alfredo no violino, seu Doca na flauta e seu Osório no flautim. Com tudo isso, o cinema em Vacaria prosperou, surgindo o CINE LIRA, na Rua do Vinagre, de propriedade de Natalício Bueno.

Em 1921, os irmãos Scherechewski, tendo agora como sócio Vespasiano Veppo (que iria fundar a Estação Rodoviária de Vacaria, em 1939, a primeira do Brasil) compraram o LIRA, e o RIO BRANCO ficou sendo usado como salão de festas. Anos depois, foi reformado e transformado numa pequena casa, a qual foi demolida posteriormente.

Em 1927, O LIRA mudou de nome, passando a se chamar GUARANI, o qual participou da vida social e cultural dos vacarianos por muitos anos. Nele, em 7 de setembro de 1922, realizou-se a solenidade comemorativa do centenário da Independência, que foi presidida pelo vice-intendente em exercício, Fausto Viterbo de Oliveira e teve como orador oficial o poeta Cassiano Ricardo.

Até pelo ano de 1933 os filmes continuaram mudos, mas sempre com uma orquestra fazendo a música de fundo. Os filmes eram de faroeste, sempre com o mesmo enredo: o mocinho, a mocinha e o s bandidos. A gurizada se divertia nas matinés, onde a sirene também foi usada e o filme era dividido em partes, cujos fins não coincidiam com o de um episódio (se dava quando acabava um carretel). A luz precisava ser acesa por alguns minutos para a troca do carretel, pegando muitos de surpresa, pois só aos noivos era permitido se darem as mãos ou se darem oVACARIA s braços. Em 1942 o GUARANI fora demolido.

Por volta de 1937 começou a funcionar o cinema UNIÃO, no prédio da União Operária de Mútuo Socorro, encerrando suas atividades em 1944, com o início das atividades do CINE REAL, na Rua do Vinagre. De propriedade de Mansur Adami, era um prédio moderno de alvenaria, feito para ser cinema. Ainda apresentava os filmes de maneira descontínua, mas nas interrupções a mudança do escuro para a claridade era feita de maneira suave. Pelo ano de 1946, no meio da noite, ele incendiou e, posteriormente, foi reformado, passando a ter os filmes de maneira contínua, mas mesmo assim não conseguiu concorrer com o novo GUARANI, funcionando por mais alguns anos e deixando, finalmente de operar. O prédio foi vendido para João Ramos, que nele instalou um hotel, sendo construído nos fundos um restaurante e, paulatinamente, foi transformando a sua destinação, passando a ser o “Real Center”, incendiando-se anos depois.

Em 1943, César Ramos César tratou da construção do novo CINE GUARANI, situado onde hoje está a Loja Volpato. Sua inauguração foi a 21 de julho de 1945 com o filme “Turbilhão”. Era mobiliado com modernas poltronas, inicialmente com assentos de madeira, depois substituídos por estofados de couro, possuía serviços de alto falantes (seu locutor era o jovem Firmo Carneiro) e a projeção dos filmes era contínua, mas havia interrupções entre a apresentação de trailers e do Jornal Nacional, e destes do filme (a iluminação era colorida e suave). Aos domingos havia matinê e duas sessões à noite. O seu operador era o Sr. Adir Silva, que trabalhou da inauguração ao seu fechamento, por 41 anos. Em pare devido à concorrência com a TV em cores, o CINE GUARANI fechou suas portas em 1986, com o filme “A vida te dois aspectos”. Nome sugestivo...

Pelo ano de 1952, Domingos Pegorini iniciou as atividades do CINE CENTRAL, construído na praça, na Rua Dr. Flores, no terreno onde havia o café de Nicolau Chedid. Para maior segurança foi feita uma porta na plateia, junto ao palco, dando saída para a Rua do Vinagre. Possuía equipamentos para projeção contínua e modernas poltronas, com assentos de madeira, mas em 1959 Pegorini mudou-se para Porto Alegre, abrindo lá dois cinemas, para onde levou o mobiliário do CINE CENTRAL.

Coube a Francelino Bortolon comprar o salão e a dependência do cinema, o qual tinha sido danificado por um incêndio da sala ao lado. Em 1963, o mesmo resolveu explorar o cinema, com equipamento todo novo e com poltronas estofadas. Nascia o CINE QUERÊNCIA, cuja inauguração deu-se em 14 de março de 1964 com o filme “No vale das grandes batalhas”. Foi bem até 1974, mas com a entrada da TV em cores nas residências, caiu o movimento. Francelino até tentou trazer teatros junto ao mesmo para atrair o público, mas em vão. Com a sua morte, em 1983, a família vendeu o prédio, a família vendeu o prédio para Geraldo Zamban, que o deixou fechado por algum tempo, e depois o alugou, primeiro para Décio Jacques César, e depois para uma família de Erechim, proprietária de cinema naquela cidade, que trocou o seu nome para AVENIDA.

Os novos proprietários operaram por algum tempo e embora tentassem até com filmes pornográficos, não conseguiram vencer a crise e tiveram de fechá-lo em 1986, poucos dias após o GUARANI. Com isso, Vacaria ficou sem cinema. 
Bem mais tarde, uma empresa instalou no Centro Comercial Sarasvati uma sala moderna e climatizada para sessões, mas fechou suas portas devido ao baixo público frequentador. E assim, Vacaria, a lendária, ficou sem cinema. Restam-nos, hoje as recordações, dos que o frequentaram, obviamente, daqueles tempos áureos em que as matinés e a inocência de toda uma geração eram sinais de felicidade e os relacionamentos se faziam estreitos, sejam nas filas que se formavam, sejam nas paqueras, que não tinham preço...

FONTE: RAÍZES DE VACARIA I (VI Encontro dos Municípios Originários de Santo Antônio da Patrulha), texto de JOÃO VITERBO DE OLIVEIRA (in memorian).

Laurita Baldi / Facebook