quinta-feira, 29 de outubro de 2015

O Enem ideológico

Prova aplicada no fim de semana passado tinha desequilíbrio no elenco de autores citados e propôs questões claramente enviesadas

Texto publicado na edição impressa de 29 de outubro de 2015
Já se tornou hábito, ano após ano, a busca por indícios de viés ideológico no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Não se trata de paranoia: não são poucas as questões de exames anteriores que pareciam feitas para induzir os alunos a oferecer respostas de acordo com certa ideologia para conseguir melhores notas. Neste ano não foi diferente: logo no primeiro dia de exame, no sábado passado, várias questões foram apontadas como enviesadas, e a polêmica cresceu no domingo, com o assunto escolhido para a redação.
As críticas ao tema da redação, no entanto, nos parecem um tanto exageradas. Não há motivo para que a violência contra a mulher não fosse abordada na redação de uma prova como o Enem, ainda mais à luz dos números apresentados como subsídio para a atividade. No entanto, pode haver margem para manipulação ideológica dependendo dos critérios de correção adotados. Supondo o caso de dois estudantes que demonstrem igual domínio do idioma e capacidade de argumentação, seria totalmente impróprio dar nota maior àquele que compusesse seu texto adotando as chaves marxistas de “opressor/oprimido”, culpando a “sociedade patriarcal” pela violência contra a mulher, e uma nota menor ao candidato que enfatizasse a responsabilidade individual do agressor e criticasse a objetificação da mulher promovida por determinadas manifestações culturais contemporâneas que um certo multiculturalismo obriga a aceitar como legítimas. Mas isso é algo que independe do tema em si proposto para a redação: depende das disposições dos corretores e daqueles que orientam seu trabalho, e o resultado só tem como ser avaliado a posteriori, após cada estudante conhecer sua nota no exame.
É olhando os cadernos de questões objetivas que se encontram sinais mais preocupantes. Uma pergunta sobre o movimento feminista nos anos 60 traz consigo uma citação de Simone de Beauvoir que pode ser interpretada como defesa explícita das teorias de gênero rejeitadas por Legislativos em todo o país, nos três níveis, mas que o MEC insiste em promover. Um texto do geógrafo de esquerda Milton Santos é usado como base para uma questão cuja resposta considerada correta leva o estudante a concluir que uma consequência da “globalização perversa” é o “aumento dos níveis de desemprego”. Os movimentos sociais são exaltados em uma questão que usa como base um texto de Maria da Glória Gohn, entusiasta do MST e que, nos protestos de 2013, afirmou que os vândalos black blocs representavam a “resistência”. Uma citação de Slavoj Zizek, um dos novos teóricos da “violência revolucionária”, é usada para igualar a ação militar norte-americana no Afeganistão ao terrorismo dos extremistas islâmicos. A crise econômica brasileira atual é ignorada, mas a crise mundial de 2008 – aquela que está na raiz de todos os nossos problemas, a julgar pelo que diz a presidente Dilma Rousseff – é mencionada em uma questão. O mercado e o capitalismo são apontados como causa de uma “polarização da sociedade chinesa” e descritos com viés negativo em uma das questões. Outra citação defende que não havia distinção nenhuma entre a arte produzida pelos europeus e a arte dos povos do Novo Mundo.
Todas essas são manifestações de um pensamento de esquerda, sem falar da desproporcionalidade verificada quando se analisa todos os autores e publicações usados na prova de “ciências humanas e suas tecnologias”. Não se questiona a presença desses autores no exame; o ideal é que o conjunto das questões ofereça ao candidato uma visão abrangente das ideologias mais expressivas no mundo atual. O problema aparece quando os representantes de uma ideologia específica são citados com muito mais frequência que os demais. Os poucos autores clássicos ou liberais citados no Enem 2015, como David Hume ou Tomás de Aquino, foram soterrados por uma profusão de autores como Slavoj Zizek, Milton Santos, Simone de Beauvoir ou Paulo Freire.
O conjunto dos elaboradores de provas como o Enem é um microcosmo do mundo da educação nacional. A maneira definitiva de despir completamente o Enem de um viés ideológico de esquerda seria alterar a composição de forças entre os educadores – uma tarefa ingrata, já que o socialismo de matriz gramsciana vê a educação como uma fortaleza que se deve manter a todo custo na construção da hegemonia política. Mas, enquanto o equilíbrio não se concretiza, é fundamental a vigilância de pais, alunos e da sociedade como um todo, denunciando os excessos e lutando por uma educação que não seja mero veículo para a doutrinação ideológica.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Arnaldo Jabor

O que provocou tudo isso? Foi o populismo endêmico, o patrimonialismo secular, a ignorância histórica. E esse sarapatel pariu um sujeito despreparado e deslumbrado consigo mesmo, cujo carisma de operário fascinou intelectuais babacas e comunas desempregados desde 1968, que resolveram fazer uma revolução endógena, um “gramscianismo” de galinheiro. 

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

DILMA ROUSSEF - Currículo

CARLOS ALBERTO SOARES DE FREITAS

("BETO", "BRENO", "CLAUDIO", "GUSTAVO", "MELO", "SERGIO", "FERNANDO", "FERNANDO SÁ DE SOUZA", "FERNANDO FERREIRA")

- 28/02/1971: ESTANDO PRESO, PRODUZIU UM DEPOIMENTO DE PROPRIO PUNHO DEPOIMENTO DE 28/02/1971

- 01. INICIAÇÃO POLÍTICA (FASE DA POLOP)

- 02. O "RACHA" DA POLOP E O SURGIMENTO DA COLINA

- 03. ATUAÇÃO NA COLINA

- 04. A FUSÃO COLINA-VPR E A VAR-PALMARES

- 05. OS "RACHAS" DA VAR-PALMARES

- 06. SOBRE A ÁREA

- 07. O CONGRESSO DE RECIFE (JAN/FEV 71)

- 08. O COMANDO NACIONAL DA VAR-PALMARES

- 09. REUNIÕES PREPARATÓRIAS PARA O CONGRESSO DE RECIFE

- 10. ATUAÇÃO DA VAR-P NO CEARÁ

- 11. SITUAÇÃO DA VAR-P NO RIO GRANDE DO SUL

- 12. INFILTRAÇÃO DA VAR-P NAS FORÇAS ARMADAS, IMPRENSA E CLERO

- 13. A VAR-P NO EXTERIOR

- 14. O SEQUESTRO DO AVIÃO E OS BANIDOS

- 15. SOBRE AS ORGANIZAÇÕES

- 16. POSIÇÃO DA VAR-P QUANTO A SEQUESTRO DE AUTORIDADES

- 17. FRENTE BRASILEIRA DE INFORMAÇÕES

- 18. SITUAÇÃO ATUAL DA VAR-PALMARES

- 19. CONJUNTURA POLÍTICA ATUAL

----------------------------------------------------------------------- - 01. INICIAÇÃO POLÍTICA (Fase da POLOP)

Ingressei (Carlos Alberto Soares de Freitas, dossiê 10.119) na Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG em 1961. Eu já era predisposto à iniciação marxista, pois já lera alguns livros e tinha, à mão, sempre jornais de esquerda (principalmente, o "SEMANÁRIO"). Na faculdade, conheci JUAREZ GUIMARÃES DE BRITO (o "JUVENAL", falecido), MARIA DO CARMO (sua futura esposa) e INES ETTIENNE ROMEU (atualmente na VPR); MARIA DO CARMO e INES eram minhas colegas de sala. Conheci também GUIDO ROCHA, THEOTONIO DOS SANTOS e VANIA BAMBIRRA (os dois últimos, atualmente no CHILE, são aliados da VAR-P). JUAREZ, GUIDO ROCHA, THEOTONIO e VANIA JÁ ERAM LIGADOS À POLOP. Aproveitando a crise causada pela renúncia de JANIO QUADROS, fizemos na Faculdade uma grande agitação e foi a partir daí que TEOTONIO e VANIA me convidaram para frequentar reuniões da POLOP; fui a várias delas, realizadas na própria Faculdade e na sede do Partido Socialista Brasileiro, do qual passei também a fazer parte. Eu não ocupava cargo na POLOP; tinha, através do PSB, atuação junto aos favelados e, através do DCE, atuava como "agitador" do Movimento Estudantil.

Em 1962 (creio que em janeiro), fui a CUBA em viagem patrocinada pela UNE (que recebeu 7 ou 8 passagens). Fiquei nesse país apenas 25 dias, assistindo atos públicos e visitando algumas províncias. Eramos cerca de 20 brasileiros. Lembro-me, entre outros, de VINICIUS JOSÉ NOGUEIRA CALDEIRA BRANDT (preso como militanto do PRT), FRANCISSO JULIÃO com a mulher e filhos, CARLOS ESTEVAM (da UNE), BELDA (do jornal METROPOLITANO), um filho de IVAN RIBEIRO e ÉLVIO CARLOS MOREIRA (na época, estudante de veterinária em BH/MG). Voltamos em FEVEREIRO, desembarcando em CONGONHAS/SP. Todos trouxeram material político, principalmente livros e revistas sobre Reforma Agrária e Reforma Urbana. A viagem foi legal, sendo os passaportes visados normalmente. Em CUBA, não mantive nenhuma conversação privada com funcionários cubanos. Desde então, não mais saí do BRASIL.

Em 1963, fiquei um pouco desligado. TEOTONIO, VANIA, JUAREZ e GUIDO ROCHA tinham se mudado. "LIA" (MARIA DO CARMO) já se casara com JUAREZ e estavam em GOIÂNIA, indo depois para RECIFE. TEOTONIO e VANIA estavam em BRASILIA. O que se fazia era Movimento Estudantil, com algumas poucas incursões no Movimento Operário.

Com o Movimento de Março de 1964, dirigi-me ao RIO, onde estive com ERICH SACCHS ("ERNESTO MARTINS", "EURICO MENDES" ou "SALLES" - asilado), EDER SADER ("RAUL") e RUI MAURO MARINI (no chile atualmente, como aliado da VAR-P). TEOTONIO E VANIA BAMBIRRA foram para SÃO PAULO. Apareceram, no RIO, GUIDO ROCHA e CLÁUDIO GALENO DE MAGALHÃES LINHARES ("LOBATO" - ainda deve estar no exterior). Fiquei no RIO cerca de dois meses e como não tinha nada para fazer, regressei a MINAS. Em julho, EU, INES ETIENNE ROMEU e alguns elementos do PC do B resolvemos fazer uma pichação a favor de CUBA; nessa operação, sou preso junto com uma menina simpatizante da POLOP (não me lembro o nome - consta no processo). A garota foi liberada porque era menor e EU fiquei preso cerca de três meses, sendo solto em novembro de 1964.

Em 1965 voltei a estudar, pois estava no último ano de sociologia, iniciando a fazer trabalho estudantil. INES ETTIENE ROMEU, então, já ingressara na POLOP e GUIDO ROCHA voltava a BELO HORIZONTE. Entre as "ampliações" que fizemos, recordo-me de: APOLO HERINGER LISBOA (atualmente, um dos chefes da DVP), ANGELO PEZZUTI (banido), MURILO PEZZUTI, ERWIN RESENDE DUARTE (preso), HERBERT EUSTÁQUIO DE CARVALHO (atualmente na VPR - o "DANIEL"), MARIA AUXILIADORA LARA BARCELOS (banida); na Faculdade de Ciências Econômicas, havia um rapaz de nome NILMÁRIO, na de Engenharia o EDSON SOARES, na da DIREITO o LEOVEGILDO e na de Filosofia, o BADIH MELHEM; posteriormente, ainda na de Ciências Econômicas, virão a "Wanda" (a DILMA VANA ROUSSEF LINHARES presa), o JOSÉ ANIBAL PEREZ ("CLEMENTE") e o MARCOS SPIEGNER depois da UNE); na de Engenharia, o "TOMAZ JUDEUZINHO", com a VAR-P, está na DVP). Essas "ampliações" foram feitas, principalmento em 66/67, quando a POLOP se rachou em MINAS GERAIS.

Em fevereiro de 1967, fui condenado a 3 (três) anos de prisão (caso da pichação) - fico, então, cerca de dois meses na casa de "LIA" (MARIA DO CARMO - banida) em NITERÓI/RJ, no bairro de ICARAI. De lá regresso a MINAS, onde fico cerca de um mês na dos PEZZUTI; em seguida, fui para a casa de JOSÉ ANIBAL PEREZ, na Avenida Francisco Sá (a casa foi "estourada").

- 02. O "RACHA" DA POLOP E O SURGIMENTO DA COLINA

O Congresso da POLOP, em setembro de 1967, ocasionou o "racha".

Grande parte do pessoal de MINAS "rachou" (EU, GUIDO ROCHA, INES ETTIENE ROMEU, ANGELO PEZZUTI, MURILO PINTO PEZZUTI, JOSÉ ANIBAL PEREZ, BADIH MELHEM, APOLO HERINGER LISBOA e sua esposa CARMEN, "TOMAZ" (Judeuzinho), HELVÉCIO LUIZ DE AMORIM RATTON ("CLEMENTE") e DILMA ROUSSEF ("WANDA"). Desses, não tomaram parte no Congresso: CARMEM, "TOMAZ" e "CLEMENTE". Ficaram na POLOP: EDSON SOARES, NILMÁRIO e LEOVEGILDO que arrastaram com eles mais alguns, entre eles o MARCOS SPIGNER.

JOÃO LUCAS ALVES e JUAREZ, da GB (ambos falecidos), também "racharam" (estavam no Congresso).

O "JACQUES" (talvez PIO CHAVES DOS SANTOS) e o "CHICÃO (não é codinome - é apelido, foi preso em 1969) eram delegados de SÃO PAULO e também "racharam".

Formaram-se, em consequência, em MG, na GB e em SP, grupamentos que se intitularam "DISSIDÊNCIA DA POLOP" e que pretendiam se juntar nacionalmente. Em MINAS, ficam na direção: EU (na época, "GUSTAVO"), ANGELO PEZZUTI e APOLO HERINGER LISBOA; pouco depois o JORGE NAHAS passa também à direção. No RIO, é o JUAREZ ("JUVENAL"), a "LIA" (MARIA DO CARMO) e o JOÃO LUCAS ALVES, que chefiam. Em SÃO PAULO, o "JACQUES" (na época "AMAURI"), o "LAÉRCIO" (WILSON EGIDIO FAVA, no exterior) e um outro ("caído" numa fazenda em MATO GROSSO em JANEIRO DE 1969); posteriormente estes de SÃO PAULO juntam-se ao grupo de ONOFRE PINTO (banido), formando o embrião da futura VPR.

Em junho/julho de 1968, há uma reunião para a fusão dos 3 grupos. Dela participam: EU, ANGELO PEZZUTI, APOLO HERINGER LISBOA, "LIA", "JUVENAL", JOÃO LUCAS ALVES, "LAERCIO", JOÃO CARLOS KFOURI QUARTIN DE MORAES ("MANOEL" - na EUROPA), "MOISES" (JOSÉ RAIMUNDO DA COSTA - foragido). A reunião é feita em ANGRA DOS REIS/RJ. O pessoal de MINAS e GUANABANA se unificam sob o nome de COLINA, mas SÃO PAULO permanece separado. A direção da COLINA vai ser composta por JUAREZ, ANGELO PEZZUTI, EU e, depois, "LIA" e HERBERT EUSTÁQUIO DE CARVALHO ("DANIEL") são cooptados; JUAREZ e PEZZUTI ficam nos Seteres de Operações (GB e MG, respectivamente), EU no Setor de Levantamento de Área e "LIA" e "DANIEL" nos Setores de Massa. No meu setor (levantamento de áreas), me auxiliaram: REINALDO JOSÉ DE MELO ("RAFAEL" - banido) e o ERWTN RESENDE DUARTE (preso).

- 03. ATUAÇÃO NA COLINA

A partir de setembro de 1968, são realizadas viagens de levantamento a MINAS GERAIS, ESPIRITO SANTO (CAPARAÓ), MATO GROSSO (NW de CUIABÁ), PARANÁ (SW), SANTA CATARINA E MARANHÃO. A última viagem não é feita pelo ERWIN, que devia ter sido preso em MINAS GERAIS.

Em janeiro de 1969, a COLINA foi duramente atingida em MINAS, assim como a VPR em SÃO PAULO. Em vista disso, a COLINA se concentra então na GUANABANA, sendo DILMA VANA ROUSSEF LINHARES ("WANDA"), cooptada para a Direção. Em abril 69, há uma reunião (não chega a ser Congresso) em TEREZÓPOLIS, quando se reestrutura a COLINA e o "MAX" (CARLOS FRANKLIN PAIXÃO DE ARAÚJO - preso) passa a integrar o Comando, juntamente com "CHIQUINHO" (CARLOS BRASIL - deve estar legalmente em PORTO FRANCO/MA). Além desses dois, são Comando: EU, JUAREZ, HERBERT ("DANIEL"), "LIA" e "WANDA" (DILMA ROUSSEF)."CHIQUINHO" e EU ficamos com a ÁREA, JUAREZ com o Setor de Operações e o restante encarrega-se das Regionais (RS, GB, MG, BA e GO).

EU e "CHIQUINHO" fizemos uma viagem ao NE, passando pela BA e CE (Chapada de ARARIPE). Quando regressamos, o Comando se reúne e resolve que a melhor área é de MARANHÃO/PIAUÍ (isso se deu em junho de 1969). Esta área é imensa (mais de 100.000 km2) - as cidades mais importantes selecionadas são: IMPERATRIZ, PORTO FRANCO, BARRA DO CORDA, TOCANTINÓPOLIS (N de Goiás) e continua para o lado de PIAUI, onde não chegamos a ir. A concepção do trabalho era ir enviando pessoas, de preferência legais, para a região fazendo um trabalho de implantação social e não propriamente um trabalho político de massa. Esse trabalho seria longo, demorado, pois só assim seria possível fazer algo que não "caisse" da noite para o dia. 

- 04. A FUSÃO COLINA-VPR E A VAR-PALMARES

Em junho de 1969, há a 1ª reunião das Direções da COLINA e da VPR para estudar o problema da fusão. Em julho, uma 2ª reunião decide pela unidade. Desta, participaram, além dos 7 já citados da COLINA, 5 da VPR (LAMARCA, ESPINOSA (ANTONIO ROBERTO ESPINOSA, "BENTO", "LINO"), CLÁUDIO DE SOUZA RIBEIRO, "MARIO JAPA" e o FERNANDO CARLOS MESQUITA SAMPAIO, o "DIOGO"). A nova Direção, da VAR-P, fica composta de: LAMARCA, "MAX", MARIA DO CARMO BRITO ("LIA"), CLAUDIOI DE SOUZA RIBEIRO ("MATOS"), ANTONIO ROBERTO ESPINOSA e JUAREZ GUIMARÃES DE BRITO. Essa reunião foi no início de Jul 69 em MONGUAGUÁ, perto de Santos. Dessa data, até o I Congresso da VAR-P, fico dessetorizado; encontro-mo com alguns deslocados e recebo a tarefa de diseutir com eles - é assim que vou rever antigos militantes da COLINA e ter notícias de outros. Encontro-me com ATHOS COSTA E SILVA (atualmente em CUBA), com RATTON ("CLEMENTE"), com GILBERTO (o "RUIVO", de origem COLINA de UBERADA que caiu em SP junto com "WANDA"). Eles irão encontrar-se, por sua vez, com APOLO HERINGER LISBOA, CARMEM (sua mulher), VERA LIGIA HUEBRA ("VERINHA", baixinha, mineira, presa no RS), ANA (gaúcha, Setor de Comunicações, "caíu" na GB), NAHAS (irmão de JORGE), "TOMAZ" (o judeu), um casal de origem VPR ("PAULO" = ANTONIO DE PADUA PRADO JUNIOR, e "NARA" = IARA GLORIA AREIAS PRADO, e que cairam no Sul), o "CLÁUDIO" e, o irmão de RATTON (de GOIÂNIA) e "LUCIANO" (que caiu, posteriormente, com MARIANI = JOSE MARIANE FERREIRA ALVES, PRESO EM 29 DEZ 69). 

- 05. OS "RACHAS" DA VAR-P

O Congresso da VAR-P desemboca no "racha dos 7". É realizado em TEREZÓPOLIS e a VAR-P é acusada de sabotar a guerrilha e se dedicar ao "massismo". Entre outros, lembro-me dos seguintes participantes: LAMARCA, "MARIO JAPA", CLAUDIO ("MATTOS"), LUNGARETTI, "MOISES", JUAREZ, "LIA", "MAX", "WANDA", ESPINOSA, "DANIEL", APOLO e a mulher, WELLINGTON, SAAVEDRA DURÃO, "FELIPE" ou "VALDO", "LOYOLA", "TADEU", "ALOISIO" (origem DDD da GB, foi para o CHILE), o "BODE" e a "JULIANA" ou "GALEGA". O congresso foi suspenso e nos 10 a 15 dias de intervalo, o JUVENAL, a "LIA", o "DANIEL" e o WELLINGTON romperam também com a VAR-P, levando com eles a INES ETTIENE ROMEU, o "DINO" e outros.

Na 2ª fase de Congresso, é eleito o Comando Nacional da VAR-P: EU, "MAX", ESPINOSA, "CLAUDIO" (JORGE EDUARDO SAAVEDRA DURÃO) e "LOYOLA". Na primeira reunião do CN, sou designado para o trabalho de área - a chamada "Executiva de Luta Principal". Os outros quatro dividem o trabalho da seguinte forma: ESPINOSA - Setor de Operações; "LOYOLA" iria reestruturar GOIÁS; DURÃO e "MAX" se encarregariam das diversas regionais (MG, SP, GB, RS e BA).

Ainda em 1969, logo após o término do Congresso, o APOLO, a CARMEM, um MILITANTE da COLINA/GB de origem boliviana (daí o "BOLIVIANO") rompem com a VAR-P e carregam com eles o "TOMAZ" (judeuzinho) e um elemento do Estado Rio. Criam a chamada DVP, que, pelo, que sei, se encontra na GUANABANA. - 06. SOBRE A ÁREA

Em fins de 1969/início de 1970, as primeiras pessoas começam a ir para a Área. São passadas a mim, entre dezembro 69 e junho 70: CARLOS BRASIL ("CHICO", "HONORIO" e "CHIQUINHO"); "DOUGLAS" (origem ALA VERMELHA); "CARLOS" (origem ALA VERMELHA); "ALBERTO" (origem NML, bancário); 2 camponeses de SÃO PAULO, da região de RIBEIRÃO PRETO; "MATEIRO" que ficou junto com "DOUGLAS"; o MARIANI; o "MARCOS", originário da BAHIA; o "LUCIANO", origem COLINA, que caiu com o MARIANI e o "OLAVO". Desses, MARIANI, "LUCIANO" e "MARCOS" caem quando se dirigiam para VITÓRIA DA CONQUISTA/BA, onde EU e o "DOUGLAS" nos encontraríamos com eles. Posteriormente, "DOUGLAS" sobe para o MARANHÃO e, de lá, para o PARÁ e se localiza mais ou menos a NW de IMPERATRIZ (no local chamado "ZERO"), levando com ele o MATEIRO (também origem ALA VERMELHA). "DOUGLAS", posteriormente em julho ou agosto de 1970, fura o ponto (e a alternativa) e foi para SÃO PAULO se ligar à VPR (conforme conta ao seu irmão, ligado a "ARI" - ADILSON FERREIRA DA SILVA); diz aí ao seu irmão (talvez DIMAS ANTONIO CASEMIRO, foragido) que recebera da VPR cerca de Cr$ 20.000,00 para continuar o trabalho, alegando, além de divergências políticas, o fato de que nós, da VAR-P, estaríamos negando-lhe dinheiro e sabotando seu trabalho. "DOUGLAS" ficou com o "MATEIRO" e a esposa deste. Nós lhe deramos, de 2 ou 3 vezes, um total de 15 a 18 milhões de cruzeiros, para comprar uma gleba (posse) e ali iniciar, com calma, sua infiltração social, assim como o reconhecimento de toda a região adjacente.Alguns dados sobre os outros elementos da Área:

- "CARLOS" (ou "CARLITO" ou "MANECO"): em fevereiro ou março de 1970, "CARLOS" foi para IMPERATRIZ e se instala no Município (não na sede), parece que com um pequeno comércio. Foi-me passado ainda em dezembro, mas tinha ido a SÃO PAULO resolver uns problemas. Estive com ele em IMPERATRIZ em julho ou agosto e em BELÉM (Novembro). Passei um ponto com ele para o "ALBERTO", mas perece-me que em final de Dezembro ele furou um ponto, mas tinha alternativa para Janeiro ou Fevereiro, que "ALBERTO" cobriria.

"CARLOS" deslocou-se para a Área juntamente com "CERQUEIRA" e sua família (este, também, origem ALA VERMELHA) para alguns quilômetros acima de IMPERATRIZ (no sentido do RIO TOCANTINS - no mapa, ao Sul de IMPERATRIZ). "CARLOS" comprou uma gleba à margem desse rio, no lado de GOIÁS - não é um povoado, apenas um aglomerado de casas (a uns 10 a 15 quilômetros de IMPERATRIZ). Eram conhecidos como "MINEIROS" ou "GOIANOS". O "CARLOS" já saiu de lá; participou do Congresso de RECIFE e tem ponto marcado com o "CIRO" (JAMES ALLEN LUZ) para a 2 fase. Em principio, não voltaria mais para a Área. O "CERQUEIRA" continuou lá.

- DOIS CAMPONESES de origem paulista (RIBEIRÃO PRETO). Fiz um ponto com eles em SÃO PAULO, em junho, passado pelo "MAX". Nessa oportunidade, passei-lhe aproximadamente Cr$ 18.000,00 para os dois, para a transferência deles e suas famílias e instalação na região. A cidade de IMPERATRIZ foi dada como ponto de orientação, para se localizarem a algumas dezenas de quilômetros de lá. Em princípios de agosto estive com os dois em BELÉM e eles desceram para encaminhar a tarefa. Quando retornei em novembro, eles não cobriram ponto comigo, nem a alternativa (24 horas depois). O "ALBERTO" cobriu um ponto um mês depois (pois eles poderiam aparecer), mas não o fizeram, ficando perdidos.

- CARLOS BRASIL ("CHICO", "CHIQUINHO" e "HONÓRIO"): foi o que primeiro se transferiu (Nov/Dez 69). Estive com ele em Março ou Abril em BELÉM, em julho ou agosto em IMPERATRIZ, mas em Novembro nos desencontramos em BELÉM. Não tenho certeza se quem furou o ponto foi eu ou ele. Encontra-se abaixo de IMPERATRIZ, possivelmento em PORTO FRANCO e eu teria que ir lá para achá-lo. É médico e clinica na região (PORTO FRANCO); tem uma C-14 bege (ou amarela); é muito cuidadoso em matéria de segurança, tendo se negado a comparecer no Congresso já que "sua clientela iria desconfiar de sua ausência". Apesar de legal, CARLOS BRASIL foi Direção da COLINA, conforme já relatado.

- "ALBERTO": de origem bancária, veio do NML (NUCLEO MARXISTA LENINISTA - dissidência da AP). Fiz pontos com ele em março, abril, agosto, novembro e janeiro (este último no NE, aliás, primeiro no RIO, depois no NE para o Congresso). Ele tinha ponto com o "CARLOS", para recuperar. Tenho um ponto com ele para princípio de março, no RIO (já aberto em depoimento anterior). Ele não estava fixo, entre BELÉM e SÃO

LUIZ, parece que montando em esquema de representação que lhe desse uma fachada mínima. Antes de descer, passaria novamente pelo NE. Sua esposa, SARA, é legal e atua também.

- "CRISTO": é baiano e está em IMPERATRIZ, onde é conhecido como "CARECA" ou "BAIANO". É preto, forte, totalmente calvo e tem um jeep que faz serviço de taxis. Deve ser legal. Foi-me passado por "VALDO" (FERNANDO LUIZ NOGUEIRA DE SOUZA, preso) que poderá identificá-lo.

- CASAL DE CAMPONESES: não é, na realidade, um casal, mas uma família constituída de um casal de velhos, um filho adulto, uma filha e seu marido e 2 a 3 crianças. Não são militantes, mas simpatizantes. Estão acima de IMPERATRIZ, 10 a 15 kms, à margem direita da BELÉM-BRASILIA. Foram ampliados por JOÃO LUCAS ALVES e SEVERINO VIANA CALLOU (ambos mortos) e são originários do Estado do Rio. O velho é "cantador", ajuda a rezar missa e, por isso, é muito conhecido na região. Foram-me passados em um ponto na BAHIA, no princípio do ano. Têm contato com o "CIRO" (JAMES ALLEN LUZ, foragido).

- "TIÃO": estava em PARAGOMINAS/PA (BELÉM-BRASILIA); é legal. Lá exerceu profissão de rádio-técnico (oficina montada em sua casa); talvez seja (ou tenha sido) a única oficina de rádio da cidade. Por ser a cidade inexpressiva e estar fora da área, ordenei-lhe que saísse de lá e procurasse outra região. Deslocou-se para a BAHIA, com família, perdendo o contacto, só se encontrando por acaso com "LOYOLA" que marcou um ponto para mim, no RIO (já "aberto" em depoimentos anteriores).

- "LUIS": origem DDD, entrou na clandestinidade porque seu nome surgiu como um dos autores do sequestro do Embaixador Americano ("LUIS" não teve nada a ver com isso); tem ligação com o ME de BELÉM. É de origem judáica. Pode ser identificado por JORGE EDUARDO SAAVEDRA DURÃO ("CLAUDIO" - preso).

- "OLAVO": em abril de 1970, tive um ponto com senha com "OLAVO", origem COLINA/GB, que tinha estado um período em MINAS. Nesse ponto, concluímos que, além de ele ser um pouco queimado, ainda usava o nome legal. Ficou, pois decidido que ele voltaria à GB para arranjar documentação falsa e alguma representação que lhe desse fachada legal na região. Passei o ponto para ele em maio, com o pessoal das comunicações (parece que ele caiu nesse ponto).

Quase nada se conseguiu na área. As pessoas estavam, inicialmente, se implantando, conhecendo a região, se ambientando, para, a partir daí, poderem enriquecer as informações sobre os melhores locais. O objetivo era, depois de feito todo esse trabalho social mas também político, possibilitar a atuação guerrilheira, tendo cobertura local. A falta de quadros e a queda de alguns que já se deslocaram limitam profundamente o trabalho. O estrangulamento maior vai se dar a partir de agosto, com as quedas de SÃO PAULO, que vão tornar totalmente impossível qualquer novo deslocamento. Discutia-se mesmo a validade de eu continuar ligado ao trabalho, já que teríamos que desenvolver trabalho na GB e em SP, onde a Organização fora praticamente aniquilada (principalmente em SP). Fora, sem dúvida, um trabalho pioneiro, mas os poucos que lá estavam ou estão não poderiam realizar nada. Discutia-se mesmo sua transferência (o que seria feito no Congresso, na parte de planejamento) para o RIO ou são PAULO. De qualquer forma, nada ficou decidido - o Congresso é que iria deliberar. 07. O CONGRESSO DE RECIFE

0 Congresso realizou-se no RECIFE, a partir de 23/24 de janeiro. Participaram: "NELSON" ou "ITALIANO" ou "TONINHO" ("MAX" o conhece) por SÃO PAULO, "MARCOS" e "MIGUEL" (NE), "ALBERTO" (pela área), além de EU, "LOYOLA", "CRISTINA" (ANA MATILDE TENÓRIO DA MOTTA), "CELIA" ou "CECÍLIA" (ex-amante de RAUL ELWANGER que está no CHILE), "WALTER" (antigo "JOAQUIM" do RS - deve ser ANTONIO DA CUNHA LOUZADA), "EMILIO" e "JUCA" pela GB e os "rachados" de SP, "ARI" (ADILSON FERREIRA DA SILVA) e "HABIB" (DAVID GONGORA JUNIOR). Compareceu também um representante do PCBR, creio que seu codinome é "CECI" - alto, cabelo tingido de louro, origem AP e bastante transtornado. Os dois "rachados" ficaram só uns 2 (dois) dias e perturbaram bastante os trabalhos; exigiram que o Congresso durasse no máximo 10 (dez) dias, exigindo que o temário fosse discutido nesses dias, o que não foi aceito e eles se retiraram. Os debates giraram em torno do Programa, que não foi fundamentalmente afetado, e da tática. As discussões se centralizaram sobre a conjuntura, tendo sido aprovado o artigo do Comando Nacional na revista AMERICA LATINA (com ressalvas no que se refere a um certo pessimismo do artigo). Sobre a tática operária, existiam duas posições: uma que achava que para se entrar na União Operária era preciso ser contra o regime capitalista e outra, que achava que bastava se dispor à luta pelos interesses da classe - a primeira posição foi aprovada, sendo que "EMILIO", EU e "ALBERTO" se colocaram contra. A posição aprovada advinha de uma análise, a meu ver irreal, do nível de consciência atual da classe operária. Nesse ponto da discussão, o representante do PCBR (acho que no dia 2 ou 3 de fevereiro) fugiu da casa na hora do almoço, pulando o muro de tráz e correndo. Isto, além do fato da saída do "ARI" e do "HABIB" e, pelo ambiente na região não estar bem (alguns carros policiais passavam pelo local) levou à suspensão do Congresso e seu adiamento por mais ou menos um mês, em outra região. Manteve-se um comando provisório composto por mim, "LOYOLA" ou "CORONEL" e "CIRO" (JAMES ALLEN LUZ). Desci, então, para a GB, tentando alugar uma casa de praia, o que não chegou a ser feito, pois fui preso. "CIRO" e "LOYOLA" deveriam continuar no Comando. EU não estava propenso a aceitar e coloquei isso para o Congresso, não só por condições pessoais mas também por posições políticas. Para a 2 fase do Congresso, ficou estipulado que seriam discutidos os seguintes assuntos: táticas componesa e estudantil; política de organização; estatutos; estrutura orgânica; critérios de recrutamento e militância; planejamento a curto e a médio prazo (fechar ou não algumas regionais, concentrando em 2 ou 3 regiões), política de frente (organizações mais próximas); validade ou não de ações armadas; balanço crítico geral; discussão ideológica e eleição do Comando e setorização dos seus membros.

A casa utilizada situa-se na praia de PIEDADE, perto de CANDEIAS (na rua principal, paralela à praia, por onde passa o ônibus Candeias); o número é dois mil quinhentos e pouco; casa de um andar, grande; jardim na frente, muro furadinho, varanda, dois portões (um grande e um pequeno), fachada com pastilhas azuladas claras. Antes dela, tem uma casa menor, depois uns dois ou três lotes vagos. Creio que foi alugada em janeiro, por 2 ou 3 meses.

08. O COMANDO NACIONAL DA VAR-P

Conforme já visto, com o 1º Congresso, em setembro/outubro de 1969, o Comando é constituido de: "MAX" (preso), "CLAUDIO" (JORGE EDUARDO SAAVEDRA DURÃO - preso), o "LOYOLA" ou "CORONEL", o ESPINOSA, preso) e EU; o primeiro a ser cooptado é o "ALDO" (CLAUDIO JORGE CÂMARA - preso). Com a queda de ESPINOSA ("BENTO") é cooptado o "VALDO" (FRENANDO LUIZ NOGUEIRA DE SOUZA, também preso). Com as quedas de "CLAUDIO", "MAX", "ALDO" e "VALDO", restamos apenas EU e o "LOYOLA" que decidimos não cooptar mais ninguém até o Congresso (inclusive porque não víamos quem poderia ser cooptado). Na prineira fase do Congresso de RECIFE, o "CIRO" (JAMES ALLEN CRUZ) foi eleito para compor, com os dois já existentes, provisoriamente, o Comando Nacional, continuando as Regionais a viverem semi-autônomas, situação que se deu a partir da queda de "MAX" e "VALDO".

As reunião do CN que EU me lembro foram as seguintes:

- Em Outubro/Novembro 69, na GB, em um apartamento no LEBLON, alugado pelo "MAX" (estourado). Tratou-se de: divisão de tarefas, envio de alguns militantes para o NE e início de trabalho na Área.

- Em Dezembro/Janeiro 70, em GUARAPARI: apartamento de temporada, alugado por alguns dias. Foram tomadas as seguintes decisões: lançar a tribuna de debates internos e o jornal PALMARES; discusão sobre situação política, com a elaboração de um documento sobre a conjuntura política nacional.

- Em Fevereiro/Março 70, na Região dos Lagos (RJ): parece que em SAQUAREMA (ou ARARUAMA ?); casa de temporada alugada por "ALEX" e esposa (ambos banidos). Sai um longo documento, definindo militante, parapartidários, simpatizante e aliado; sai, ainda, a tática operária que o Congresso não elaborava, aprovando apenas as linhas gerais. Delibero sobre a transferência de "LOYOLA" para o NE a fim de assumir a direção do trabalho; aprovação dos estatutos.

- Em Maio/Junho 70, em CURITIBA: casa alugada por "BODE" (ROBERTO HEINZ METZGER), reunião lenta - sai a tática camponesa, o jornal PALMARES, um documento sobre nível ideológico/nível político, uma análise de conjuntura. Também se decide sobre a convocação do Congresso para resolver alguns impasses (concentrar mais ou dispersar, fazer ou não ações armadas de propaganda, atualização tática). Dessa reunião, participa, pela primeira vez, o "VALDO". A reunião leva uns vinte dias.

Logo após essa reunião, caem o "ALDO" e o "CLAUDIO" e ocorreu furos de pontos com o "VALDO" que é encontrado, por acaso, na rua. Faz-se, então, uma reunião de emergência na casa de um parapartidário ou simpatizante operário, numa favela. Fomos até às imediações de taxi e fechados, levados pelo "VALDO". Tomam parte: EU, "VALDO", "MAX" e "LOYOLA". Esta reunião é em final de julho e o Congresso é adiado para convocação posterior.




A partir daí, não se reune mais o Comando - o "MAX" cai em SP e o "VALDO" no RIO ocasionando desestruturação bastanto acentuada. EU e "LOYOLA" nos reunimos em Setembro/Outubro em pontos de rua no RECIFE e na GB (Praia de BOA VIAGEM, Praia de BOTAFOGO, etc...). Convoca-se então o Congresso, já que os dois (EU e "LOYOLA") julgamo-nos incapazes de resolver a crise violenta que se abatera sobre a Organização e não víamos quem iríamos cooptar para o CN.

09. REUNIÕES PREPARATÓRIAS PARA O CONGRESSO DE RECIFE:

(JANEIRO/FEVEREIRO 71)

Houve as seguintes reuniões preparatórias:

a. Reunião preparatória na GB, para o Congresso de RECIFE:

Em fins Dez/início de Jan 71, "BRENO" e "LOYOLA" tomaram parte na reunião preparatória da Regional/GB (durou 3 a 4 dias). Esta reunião foi realizada no "aparelho" de "MARCELO", para onde todos os participantes foram "fechados" ("BRENO" acha que é na Zona Sul, um apartamento de 2º ou 3º andar). Tomaram parte na reunião:

- "EMILIO" ou "ANDRÉ" ou "MIGUEL" ou "ROBSON" (SERGIO EMANUEL DIAS CAMPOS), Cmdo Reg.

- "MARCELO" (= GERALDO LEITE) - residente no aparelho; deve ser legal, tem um volks creme ou gelo. Deve ser do Setor de imprensa.

- "MARIA" (= ROSALINA SANTA CRUZ LEITE) - amante de "MARCELO"; é bem bonita. "BRENO" teve 2 ou 3 pontos com ela; ela esteve em Recife, onde cobriu um ponto com "BRENO" no dia 18 ou 19 Jan, à noite, a fim de lhe entregar a documentação para o Congresso (toda documentação é rodada na GB). "MARIA" não tomou parte no Congresso.

- "ADRIANA" (= MARIA EMILIA SILVA) - origem mineira, amante de "ORLANDO" com quem reside. Fez curso de jornalismo em MG. Parece ser legal e não trabalha fora.

- "ORLANDO" (= OSMAR SANTOS) - é do GAV/GB, origem COLINA, estudantil. Bastante conhecido no ME de MG como "GRILO". É natural de uma cidade chamada COROMANDEL, em MG. Quem o pode identificar, como "GRILO" é ERWIN RESENDE DUARTE, preso em Minas.

- Observação: Talvez seja OSMAR SANTOS.

- "JUCA" ou "ZÉ" (= CARLOS HENRIQUE VIANA PEREIRA) - é, também, Comando Regional. Seus pais foram presos, há uns 3 meses, por motivo de cartas enviadas do CHILE para ele. No dia 4 ou 5 Fev 71, "BRENO" hospedou-se com "JUCA" no Hotel PARAISO, na Rua dos Democratas, em SALVADOR; nessa oportunidade, "JUCA" registrou-se no Hotel com o nome real, por estar sua documentação falsa deficiente; "BRENO" registrou-se como PAULO ROBERTO DE SOUZA. "JUCA" é de origem DDD.

- "TEREZA" (= HELIANA GASPAR BIBAS) - amante de "JUCA", não deve ser legal

- "MATEUS" - pára-partidário ou simpatizante, representante do ME. É estudante e legal.

- "TEREZINHA" - originária de MG; "BRENO" cobriu 2 pontos com ela, para receber documentação falsa. Morava com "BIGODE".

b. Reunião preparatória em SP, para o Congresso de RECIFE:

A reunião foi realizada em CARAGUATATUBA, numa casa alugada por "BRENO" (saindo de uma praça onde tem uma fonte luminosa, entra-se numa rua em direção contrária à praia; a casa fica à esquerda, quase no fim da rua; o dono da casa tem um caminhão que fica sempre parado à porta). Tomaram parte, além de "BRENO": "NELSON" (ou "ITALIANO"); "VERA" ou "SHEILA" (identificada per "BRENO" como OROSLINDA MARIA TARANTO COULART, origem COLINA); "ZÉ MARIA" (origem bancária, entrou na clandestinidade com as últimas quedas da VAR-PALMARES em SP) e "JUSTINO" (origem estudantil). "MAX" pode identificar "NELSON". A reunião durou 3 dias. Esta reunião foi realizada após o dia 20 Dez.

c. Reunião preparatória em RECIFE, para o Congresso:

Foi levada a efeito em um "aparelho" perto da praia, em princípios de Dezembro e durou 3 a 4 dias. Tomaram parte: "BRENO", "LOYOLA", "MARCOS", "CRISTINA", "CELIA" ou "CECILIA" (amante de RAUL ELWANGER), "MIGUEL" (ou "MANOEL") e mais 2 camponeses levados pelo "LOYOLA".

d. Reunião preparatória na ÁREA, para o Congresso em RECIFE:

Houve 2 reuniões (face à transferência de data do Congresso): em Ago 70 e em Nov 70.

Ambas foram realizada em um "aparelho" na lha do Mosqueiro (em frente a BELÉM) e tomaram parte: "BRENO", "ALBERTO" e a mulher SARA, ...UI, "TIÃO", "CRISTO" e "CARLOS" (ou "MANECO"). O "aparelho" foi alugado por "ALBERTO" e SARA. 10. ATUAÇÃO NO CEARÁ

No princípio deste ano (1971), através "LOYOLA", fizemos um contacto na BAHIA, com um antigo militante do PCB de codinome "HUMBERTO" (é de FORTALEZA, da família ALENCAR e foi ou é professor ou assistente da Universidade do CEARÁ - esteve preso várias vêzes, antes e depois de 1964). "HUMBERTO" tentava formar um grupo para luta armada. Esses contatos resultaram no encaminhamento de vinte e pouco milhões de cruzeiros para montar uma empresa cujos lucros reverteriam para a VAR-P. Segundo soube, foi montada uma empresa de compra e venda de madeira e, apesar de ter vendida duas partidas de madeira, soube que ela faliu. Pertenceu ao grupo de "HUMBERTO": "TORRES" (que se deslocou posteriormente para SP e rompeu com a VAR-P), um antigo operário "HIDALGO" e um outro, chamado de "PLACIDO" ou "BAIXINHO". Estive com eles, 2 ou 3 vezes em FORTALEZA, para discutir com eles (tomaram parte nessas reuniões, também, "CRISTINA" e um rapaz do interior). O nível deles era baixíssimo. Eles se diziam membros da VAR-P, mas pelo desinteresse e falta de ideologia, achei conveniente a sua não participação no Congresso.

11. SITUAÇÃO DA VAR-P NO RIO GRANDE DO SUL

Quando de sua entrada no BRASIL, o "CIRO" (JAMES ALLEN LUZ) fez contatos no RS e marcou um ponto no RIO para mim. Veio uma moça (não conheço) e EU passei para ela Cr$ 3.500,00 e pedi-lhe para que "JOAQUIM" (talvez ANTONIO DA CUNHA LOUZADA) viesse ao RIO - "MAX" o conhece legalmente. Encontrei-me com ele a fim de convidá-lo para o Congresso de RECIFE.

A situação no RS é legalmente acéfala e desorganizada. Ele ("JOAQUIM", agora "LAURO") mantém uns 6 ou 7 operários como militantes, mas de baixo nível político. No Sul, não houve reunião preparatória para o Congresso, já que só "LAURO" tinha condições de comparecer e opinar. 12. INFILTRAÇÃO NAS FORÇAS ARMADAS IMPRENSA E CLERO

A VAR-P não tem infiltração nas FFAA. Os contatos possíveis, se existem, são ou eram da VPR (através de seus militantes ex-militares). Após o "racha" (Set 1969), comentava-se que a VPR teria entrado em contato com o grupo do Gen AL (ALBUQUERQUE LIMA), sendo mal recebida por este que declarou não "dialogar com terroristas". Há também comentários que o Gen AL vem se encontrando com JANIO QUADROS.

Na Imprensa, desconheço qualquer aliado ou simpatizante da VAR-P ou de outras Organizações (de quem eu tenha conhecimento, apenas o GABEIRA - banido - que poderia ter feito muita coisa, caso não caísse).

No clero, existia um aliado no RECIFE, padre da Igreja Brasileira (GERALDO MAGELA DO NASCIMENTO) que foi preso. Em casa de MARIA DE LOURDES SIQUEIRA (amante de "CIRO"), foi-me apresentado um padre francês ao qual, expus-lhe, em linhas gerais, a finalidade da VAR-P; ele mostrou-se interessado e manifestou o desejo de discutir o assunto com detalhes posteriormente. Nessa ocasião, ele prometeu-me entregar um exemplar de "AMERICA LATINA" a TEOTONIO, no CHILE e tentar conseguir na EUROPA documentação falsa para a VAR-P. Ele é alto, corpulento, anda à paisana, cabelos esbranquiçados com entradas, tipo europeu (identificado posteriormente como FRANCISCO LESPINAI). Tem funções na Conferência dos Bispos de França e sua missão oficial, quando visita a AMÉRICA LATINA, é assistir os padres franceses neste continente. É bastante radical e profundo conhecedor da Igreja Brasileira. Deve retornar ao BRASIL em março ou abril. 13. A VAR-P NO EXTERIOR:

A Organização não mantém militantes no exterior. Na FRANÇA, o "JACQUES" (antigo "AMAURI" ou "GORDINHO" da POLOP e depois da VPR - foi para lá em 1968) se considera próximo da VAR-P e divulga seu material na imprensa (progresso, campanhas de torturas, etc...). O seu último endereço para correspondência era o de SAMUEL ("MORAIS") - 18, Rua des Ecoles, PARIS. No CHILE, existem o TEOTONIO DOS SANTOS e sua esposa VANIA BAMBIRRA DOS SANTOS e RUI MAURO MARINI - nenhum dos três é militante da VAR-P, apenas simpatizam com a Organização e aceitam divulgar material político. A comunicação com estes está perdida há algum tempo (de lá para cá); daqui para lá, é feita através de envio de material para o CESO (Centro do Estudos Econômicos e Sociais) da Universidade do CHILE. 14. O SEQÜESTRO DO AVIÃO E OS BANIDOS

Fui designado pelo CN da VAR-P de discutir com o "CIRO" (JAMES ALLEN LUZ) sobre um seqüestro de avião para CUBA, com tríplice objetivo: diminuir o monopólio de CUBA pela ALN e VPR, conseguir treinamento para alguns militantes e tirar do BRASIL a mulher e filhos de FAUSTO FREIRE. Após discutirmos o assunto, "CIRO" cncarregou-se do planejamento e execução da ação. Tomaram parte: ATHOS ("RODRIGO"), ISOLDE SOMMERS ("ANITA, "MARIA"), CLAUDIO GALENO ("LOBATO"), o próprio "CIRO" (JAMES ALLEN LUZ), a mulher e os filho do FREIRE e um gaúcho levado por GALENO, sem autorização, eu não o conheço ("TIARAJU" - NESTOR ......... HEREDIA). Após o seqüestro, só soube de uma carta de ATHOS e da ISOLDE (que eu não li) na qual diziam que não haviam sido matriculados em cursos, não faziam nada e que os dois haviam rompido com GALENO, CIRO e o gaúcho ("TIARAJU").

Em fins de DEZEMBRO, o "CIRO" entrou no BRASIL, pelo URUGUAI, vindo por iniciativa própria; veio junto com ele o "LAURO", da FLN, ligado ao CERVEIRA. "CIRO" me disse que GALENO e o gaúcho já estavam no CHILE, assim como o "BAIANO" (ADERVAL ALVES COQUEIRO - morto) e que viriam para o BRASIL. Além desses, havia mais outros dois banidos (o "CIRO" e o "LAURO" os conhecem). Haviam montado um esquema de um carro para ir buscar o "BAIANO" e os dois banidos que eu não conheço e que a VAR-P tinha que fornecer os meios. A Organização, então, entregou-lhe Cr$ 10.000,00, sob a garantia de que o carro, após ser comprado e usado, fosse vendido e o dinheiro obtido restituido à VAR-P. "CIRO" disse-me, então, que como a VAR-P não tinha infra-estrutura para manter esse pessoal, seus aliados o ajudariam.

Estando com "LAURO", no dia 13 Fev à tarde, ele me contou que "COQUEIRO" havia lhe dito que tinha ponto no fim do mês no URUGUAI para pegar os dois banidos citados e encaminhar 15.000 dolares que a VAR-P deveria ceder para compra de armas. Disse a "LAURO" que a VAR-P possuía apenas pouco mais da metade dessa quantia e que, além do mais, não tinha infra-estrutura para mantê-los ("COQUEIRO" e os banidos) e nem para guarda e uso das armas. O "LAURO" disse então que passaria um telegrama para o URUGUAL, adiando o ponto por 30 a 60 dias, a fim de aguardar a volta do "CIRO" do NORTE, para discutir o assunto. Desse esquema, eram conhecedores o CERQUEIRA (banido), o APOLONIO (banido) e o "CIRO". 15. SOBRE AS ORGANIZAÇÕES:

a. DVP - Conheço elementos de origem COLINA e outros. Rompeu com a VAR-P depois do 1º Congresso. Conheço apenas o APOLO e CARMEM e o "TOMAZ". Outros elementos parece que são de origem estudantil das anos 67/68, com os quais nunca mantive contato. Nunca li documentos deles, a não ser uma carta de "racha", de muito baixo nível. Soubemos que não chega a ser uma organização centralizada. Parece que se concentram na GUANABANA.

b. GPR - Não tenho mínimo informe, pois é pessoal origem 1969, quando eu já tinha saído de MINAS. Só fui informado que os poucos quadros que a VAR-P tinha em BH, aos quais não se dava assistência, estavam mantendo contatos com o APOLO e a VPR e logo depois "racharam".

c. VPR, ALN e MRT - Não temos frente com eles, que, aliás, têm para conosco uma atitudo extremamente sectária em tudo. Os boatos que correm é que estariam bastante fracos (a VPR), reduzidos a pouco mais de 10 pessoas e, inclusive, com a oposição interna do LAMARCA, que estaria mais próximo do "HENRIQUE" (do MRT). Supõe-se que a direção seja LAMARCA e "DANIEL" (HERBERT). No exterior, corre um boato de que muitos banidos voltariam para fortalecê-la (segundo informe do "CIRO"), mas não se sabe de nada concreto sobre isso, já que o próprio "CIRO" se dava muito mal com os elementos da VPR em CUBA. Outro informe é de que os que estão em CUBA (ONOFRE, "MÁRIA JAPA", "LEO") não aceitam "JAMIL" e MARIA DO CARMO (na ARGÉLIA) como líderes da Organização.

Sobre ALN e MRT não temos nenhum informe, a não ser que atuam junto com a VPR. Suas linhas políticas se parecem. A VPR não tem um programa político estratégico e tático. É considerada "foquista", no sentido em que superestima o papel de um foco guerrilheiro atuando no campo e, portanto, subestima o trabalho político necessário junto às massas de trabalhadores do campo e da cidade. Mas, essas são colocações e não um programa definido, o que torna difícil uma apreciaçaão crítica maior sobre sua posição política.

d. O PRT e o PCBR - Em São Paulo, houve proximidade com o PRT, que tem uma linha política próxima à da VAR-P. Seus quadros, depois da queda de ALÍPIO são reduzidíssimos (4 ou 5, segundo nos disseram) e hoje só em São Paulo. Estamos com contato perdido desde dezembro, não sabendo sua situação atual. Sua estratégia é socialista, através da luta armada guerrilheira na cidade e no campo. Propõe trabalho junto à classe operária e aos trabalhadores rurais, além de ações armadas de comando. Seu elemento conhecido é ALTINO (ex-vice-presidente da UNE, em 1965). Também o PCBR propõe este tipo de trabalho, só que prega uma estratégia de libertação nacional, isto é, no caminho do socialismo, existe uma etapa de libertação nacional, da qual poderão participar setores progressistas da própria burguesia. Os contatos com o PCBR estão rompidos (o caso do Congresso e furo de ponto com o pessoal da GUANABARA). Inclusive tinha sido marcado um ponto deles com o "LAURO" e parece que eles haviam furado, segundo aquele me disse. Tem poucos quadros na GB e outros tantos no NORDESTE.

e. PCB, PC do B e AP - Sobre PCB, PC do B e AP não temos notícias, nem informe, nem contatos. São consideradas Organizações reformistas.

f. VAR-PALMARES - Considera o BRASIL um país capitalista dependente, ligado ao sistema capitalista internacional. É a própria situação de dependência que vai informar sua maneira de ser, isto é, suas estruturas econômicas e sociais, em suma, sua situação de subdesenvolvimento. Só rompendo com a dependência ele pode romper com o subdesenvolvimento e propiciar ao povo brasileiro o usufruto das riquezas nacionais. Isto significa o socialismo, pois requer o rompimento com a dependência financeira, econômica, de tecnologia, patentes, knowhow, etc. Isto requer uma luta longa, que tem que ser armada. A primeira fase dessa luta é considerada como de defensiva estratégica, isto é, a esquerda é fraca e o governo e o imperialismo fortíssimos. Tem que se ir acumulando forças a fim de mudar essa situação. Na medida em que as forças se modificam, com o fortalecimento da esquerda e a instalação da luta armada na cidade e no campo, passar-se-ia a uma situação de equilíbrio de forças - equilíbrio estratégico. Esta seria a 2ª fase da luta. A terceira e última seria a da ofensiva estratégica, quando as esquerdas fossem mais fortes que o governo e tivessem o apoio da maioria do povo, na luta decisiva pela tomada do poder político. Seria a fase de ofensiva estratégica, etapa final da luta revolucionária, que culminaria com a tomada do poder e a instauração do governo socialista do proletariado.

A curto prazo teria que conquistar bases sociais no proletariado urbano e rural, consideradas as forças básicas (em termos sociais) da Revolução. Aí estaria seu trabalho fundamental. Como sua situação financeira era bastante ruim, teria que formar um setor de operações (já que o tinha e que estava em formação rompeu: "ARI") para conseguir alguns meios de sobrevivência.

Teria que procurar auxílio do exterior, mas não havia nenhuma perspectiva concreta em vista, já que CUBA não reconhece a VAR-P enquanto Organização.

Só a partir do seu fortalecimento junto ao proletariado poderia almejar intensificar ações armadas. Seu isolamento atual, como o isolamento das demais organizações de esquerda, teria que ser rompido através de sua penetração no proletariado. Do contrário, o desaparecimento certo do cenário político nacional.

Após o "racha", a VAR-P pouco fez, pois quando começava a se organizar vinham as sucessões de quedas que a colocavam por meses a tapar buracos e remendar os ferimentos. Não conseguiu fazer nem ações de meios nem ações políticas; a queda da imprensa nacional impediu, por longos meses, a circulação de material. Só o mimeógrafo da GUANABARA funcionou nos últimos meses, assim mesmo para rodar um número da "AMERICA LATINA" (que já estava quase todo pronto há vários meses) e um jornalzinho ("UNIÃO OPERÁRIA") da região, que não conseguia ser distribuido. 16. POSIÇÃO DA VAR-P QUANTO A SEQUESTRO DE AUTORIDADES

O último seqüestro demonstrou, segundo análise da VAR-P, que o governo passou a ditar as regras. Isto significa que mesmo que aceite soltar novos presos, será numa situação ainda mais dura do que a da última vez. Este problema foi abordado no Congresso mas não se chegou a nenhuma posição oficial a respeito. A VAR-P no entanto, achava (pode mudar de posição no Congresso) que mesmo não havendo condições políticas de fazer seqüestro nessa conjuntura, isso não significa que em outra situação não se possa pensar em fazê-lo. Em termos práticos, em função de sua nenhuma capacidade operacional, não discute o problema de maneira concreta.

Como adendo: encontrando-me, casualmente, com JOSÉ ROBERTO (nome legal), atualmente na VPR (origem COLINA/MG) (JOSE ROBERTO GONÇALVES DE REZENDE, "BIGODE", "ERALDO", "FLAVIO", "NELSON", "RODOLFO", "RONALDO", em fins de DEZ 70 em COPACABANA, disse-me ele que, nas listas de nomes exigidos (a serem trocados pelo Embaixador suíço) não constavam nomes da VAR-P, porque ela era contra os seqüestros e que os elementos da VAR-P que tinham caído (os Comandos) tinham aberto tudo o que sabiam sobre a VPR. Isso originou uma discussão violenta entre nós, nos separando em seguida. 17. FRENTE BRASILEIRA DE INFORMAÇÕES

Parece que a FBI não chega a congregar organizações, mas sim pessoas. Quem tem maior peso é o MIGUEL ARRAES e o MARCIO MOREIRA ALVES. Há também uma irmã de ARRAES. Pelo que se sabe, é a VPR que tem mais influência (há até comentários de uma aliança com ARRAES) - ela, a VPR, a influencia mas não a domina. O "JAQUES" não chega a ter influência na FBI, apenas trabalha para ela, de maneira não fixa - ele sabe, com certeza, os integrantes da FBI. 18. SITUAÇÃO ATUAL DA VAP-P

Após as quedas no SUL e as de SÃO PAULO, a VAR-P ficou restrita a pouquíssimos quadros no NE, GB e SP.

No NORDESTE, existiam:

- "LOYOLA";

- "MARCOS" (origem ALA VERMELHA. transferido para o NE junto com "JORGE CURURU", este agora na VPR; "MARCOS" pode ser identificado por "MAX" e "VALDO");

- "ANTONIO" (origem NML); e

- o irmão de NAHAS - ambos presos;

- há, ainda, em PE, o "MIGUEL" ou "MANOEL", camponês da região ampliado por "LOYOLA", com quem mantém ligação;

- na BAHIA, existe um elemento de codinome "BAIANO" que tem contacto com "LOYOLA".

Na GUANABARA, segundo o "EMILIO" (SERGIO EMMANUEL DIAS CAMPOS), há alguns pouco militantes sem capacidade operacional (ver letra "a", item 09) e alguns parapartidários ou simpatizantes (existem contatos no ME da GB).

Em SÃO PAULO, após as últimas quedas, restaram (que eu conheço):

- "NELSON" ou "ITALIANO" (antigo "ORFIRIO", gaúcho, já esteve na GB em fins de 1969 mas foi transferido para SP; "MAX" pode identificá-lo); e

- "VERA" ou "SHEILA" (OROSLINDA MARIA TARANTO GOULART - antiga militante da COLINA/MG). Creio que ambos têm contatos no Movimento Operário.

No RIO GRANDE DO SUL, "WALTER" (talvez ANTONIO DA CUNHA LOUZADA) me disse que só haviam restado seis a sete operários que, embora de baixo nível político, ele ("WALTER") os considerava militantes, por falta de quadros melhores

Na ÁREA e no PARÁ, são os elementos já citados (ver item 06).

Desde SETEMBRO de 1970, a VAR-P vive de forma federativa: cada Regional (ou, às vezes, cada militante) agia como achava melhor, até que o Congresso decidisse.

Em dezembro de 1970, na GB, fiz um ponto com um elemento do PCBR, convidando-os a enviarem um representante ao Congresso do RECIFE. Foi, então, marcado um ponto com senha para esse representante. Em SP, fiz um ponto com "ARI" (que ainda se dizia VAR-P e tinha ficado com sete ou oito "rachados") a fim de que ele enviasse dois representantes para o Congresso (o que foi feito). O PRT furou um ponto comigo, marcado pelo "ARI" e não foi representado no Congresso.

Quanto à situação financeira, restavam ainda cerca do 8.000 dólares do cofre do ADEMAR - 5.000 dólares estavam no meu "aparelho" na Rua Farme de Amoedo (estourado) e 2.000 dólares remeti ao "LOYOLA", através CRISTINA (ver depoimento do dia 26 FEV 71). Havia, ainda, em meu "aparelho" cerca de Cr$ 1.000,00. Essa importância (8.000 dólares) daria ainda para uns 4 ou 5 meses, inclusive o aluguel da casa para a 2ª Etapa do Congresso. Como se vê, a situação financeira é ruim já que o grosso do dinheiro caiu com o "ALDO" no RS.

Parece que existe um investimento no exterior - não sei exatamente o que seja, mas foi coisa de 25.000 dólares, que o irmão de "MAX" (= LUIZ HERON PAIXÃO DE ARAUJO - o "LOYOLA") levou para o exterior.

Não existe, na Organização, nem Imprensa Nacional nem Setor de Comunicações (os próprios membros do CN marcam ponto com as Regionais). Tudo gira em torno do Congresso e das definições que ele terá de adotar. Há, mesmo, perspectiva de haver um "racha" - o pessoal da GB se separando do NE; os que estão na Área não têm ainda definição elara, nem os de SP.




O armamento da VAR-P se reduz a uns dez a quinze revólveres calibre 38 e 32 e pouquíssima munição (2 a 3 cargas por arma). Não há, creio, nenhuma arma longa. Parece-me que no NE, há uma espingarda calibre 44. O único FAL que ainda tínhamos ficou com o "ARI", que "rachou". Este armamento (segundo fui informado) é o que restava do que não caiu, tendo sido comprado alguns revólveres avulsos.

Quanto à impressão de documentos, o "EMILIO" é que está a par de tudo, já que toda a documentação é confeccionada na GUANABARA. 19. CONJUNTURA POLÍTICA ATUAL

De acordo com análise que se pode fazer, o governo tem conseguido tentos econômicos (o que não significa que resolveu as contradições). Na medida em que elas são pelo menos atenuadas, torna-se mais difícil para a esquerda fazer avançar o seu movimento. A atual situação é de extrema debilidade para a esquerda brasileira, dispersa, desunida, sem lideranças e sem apoio popular. Os aparelhos de segurança do governo marcaram os últimos tentos e a esquerda, já combalida, ameaça desestruturar-se totalmente. Isto não quer dizer que a idéia da mudança social acabe, mas a situação subjetiva lhe é desfavorável. Na medida em que sejam tomadas medidas econômicas que pelo menos diminuam um pouco o arrocho salarial e sejam feitas modificações na estrutura agrária pode-se minorar a crise da maior parte do povo brasileiro. A questão imediata, e a médio prazo, está ai. De qualquer forma, pelo menos conjunturalmente, a situação é extremanete desfavorável à esquerda e, principalmente, aos grupamentos revolucionários que hoje, mais do que nunca, estão isolados das massas, numa briga direta com o governo, e entre si, na qual só levam desvantagens. Isto os fatos do último ano vêem mostrando e, principalmente, os últimos acontecimentos dos últimos meses. É claro ainda que uma abertura política atenuaria parte dos argumentos da esquerda (mas isso não é o fundamental e sim a situação econômica).

Em 28/02/1971



sexta-feira, 23 de outubro de 2015

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

domingo, 18 de outubro de 2015

TUDO SOBRE DIABETES E OVOS

Seria um eufemismo dizer que os ovos são um assunto controverso em nutrição. Talvez nenhum outro alimento tenha sido tão amplamente debatido por pesquisadores, não havendo consenso geral sobre se deve ou não ser incluído como parte de uma dieta saudável. Ao mesmo tempo que os ovos são super ricos em vitaminas, minerais e outros nutrientes importantes, são também prejudiciais para a saúde de muitos indivíduos. Seu alto teor de gordura e colesterol podem causar muitos problemas para as pessoas com diabetes ou problemas cardiovasculares, e neste post, vamos discutir exatamente como isso acontece.

Para começar, o que dizem as pesquisas em relação a este alimento controverso? Estudos recentes parecem dissipar a ideia de que os ovos estão ligados ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares ou AVCs em indivíduos saudáveis. Apesar de seu alto teor de colesterol, se uma pessoa pode ou não desfrutar deste alimento sem se preocupar com problemas de saúde depende de cada organismo. Em geral, a American Heart Association recomenda que se deva consumir cerca de 300 mg de colesterol numa base diária. Um ovo de galinha grande, normalmente contém 185 mg, que é uma quantidade substancial, mas que pode ser compensada comendo de forma responsável. No entanto, apenas por uma questão genética, alguns indivíduos podem ser predispostos a ter o colesterol mais elevado do que os outros. Aqueles com níveis já elevados, devem naturalmente evitar comer ovos e outros alimentos semelhantes apenas por esta razão.

Por outro lado, estudos mostraram uma forte correlação entre o consumo de ovos e o desenvolvimento de diabetes tipo 2. Descobriu-se que indivíduos que frequentemente comiam ovos, tiveram uma chance 42 % maior de tornarem-se diabéticos. E para aqueles que já tinham diabetes tipo 1 ou 2, o mesmo estudo descobriu que eles apresentavam uma chance 69% maior de desenvolver doenças cardiovasculares. Esses são os dois índices enormes, e é precisamente por isso que existe a preocupação com o consumo regular de ovos como parte de uma dieta saudável.

Apesar destes dados estatísticos, este alimento controverso tem um valor nutricional enorme também. A gema do ovo, que é responsável por seu elevado teor em colesterol, é rica em vitaminas A, B12, e D e ainda em cálcio, ácido fólico, e ômega-3. A clara do ovo também é benéfica por ser uma potente fonte proteínas e potássio, além de ser ter poucas calorias. Selênio e iodo são dois minerais encontrados nos ovos, que podem ser difíceis de obter de outros alimentos, o que também os torna nutricionalmente de grande valor.

Aqui no Diabetv, sempre salientamos aos nossos leitores que falem com seu médico ou nutricionista antes de fazer mudanças na dieta. Isto é especialmente importante para os diabéticos, pois são muito mais propensos a problemas de saúde decorrentes do que consomem. Dito isto, sentimos que podemos recomendar com segurança para indivíduos saudáveis, no máximo, três ovos por semana. O ideal é que sejam orgânicos, de galinhas criadas da maneira correta, já que estes contêm significativamente melhor conteúdo nutricional por se desenvolverem em um ambiente adequado. Para quem é diabético, tudo o que podemos dizer é que eles devem ser realmente cuidadosos antes de consumir ovos ou quaisquer produtos que os contêm. Uma vez que eles estão em um risco substancialmente maior de desenvolver problemas por simplesmente comer este alimento, devem consultar um médico ou nutricionista antes de tentar incorporá-lo em sua dieta.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Dia do professor

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

A caminho de Ítaca... como e por que sou professor
Paulo Roberto de Almeida

De todas as ocupações que fui dado até agora exercer, numa vida nômade e aventurosa da qual guardo não poucos momentos de orgulho, a que mais prezo e valorizo, obviamente, é a de professor, ou melhor de orientador de ensino, uma vez que não sou professor em tempo integral, nem retiro meu principal ganha-pão dessa nobre função de ‘mestre de artes e letras’. Não sei, aliás, se tenho o direito de me considerar professor, no sentido estrito do termo, já que nunca fui treinado para tanto, desconheço as mais elementares noções de pedagogia e não tenho certeza, de fato, se ao exercer esse nobre ofício minha real intenção é a de tentar ensinar algo a outras pessoas ou, como parece mais provável, faço de tudo isso uma grande figuração e estou, de verdade, aprendendo algo novo cada vez que me ocupo dessa absorvente atividade.
Antes que alguém pense que sou, apenas e tão somente, um grande ‘embromador’, utilizando-me de inocentes alunos para, constantemente, ensinar algo a mim mesmo, desejo retificar minhas palavras, e corrigir essa sensação de improvisação no trato com o corpo discente. Acredito ter realmente algumas coisas úteis a ensinar a outras pessoas, mais por desejo de transmitir coisas novas, que venho aprendendo desde muitos anos, ao longo de constantes e intensas leituras, do que propriamente por necessidade de ter uma segunda profissão (ainda que, de fato, eu a considere a minha primeira e eterna ocupação, ao lado desta mais formal que exerço temporariamente de diplomata). Com efeito, não retiro, como disse, meu sustento dessa atividade que muitos julgam paralela e exercida como uma espécie de hobby ou para complemento de salário. Longe disso, pois que nunca o fiz, pelo menos desde que ingressei no serviço exterior brasileiro, pensando nos retornos pecuniários que retiraria dessa dupla jornada de trabalho, muitas vezes estafante e exercida contra meu lazer pessoal ou dedicação à família, ou em detrimento da ainda mais prazerosa ocupação de simples leitor e escrevinhador de coisas várias.
Nunca pensei em ser professor, achando que eu tinha, de fato, qualquer coisa de extraordinário para ensinar a “mentes inocentes”, ou que essa minha atividade temporária e fortuita iria fazer alguma diferença na futura capacitação profissional daqueles temporariamente colocados sob minha responsabilidade docente. O que de fato sempre me motivou a ensinar, ou pelo menos a transmitir conhecimentos, foi uma espécie de motivação interior, algo como uma compulsão inata que me impele a sistematizar o meu próprio conhecimento e tentar repassar aquela maçaroca de idéias e conceitos sob uma forma minimamente organizada, de forma a satisfazer minhas próprias necessidades em termos de racionalização do saber adqurido nos livros (e também na observação homesta da realidade) e de “atingimento” de uma nova síntese a partir desses conhecimentos dispersos na “natureza”. Estou parecendo muito dialético?
Não importa, desejo confirmar e reafirmar que o que me impele a ser professor é mais uma força interna do que uma necessidade externa, quaisquer que sejam as outras motivações aparentemente altruísticas geralmente invocadas nessas circunstâncias (compromisso com o saber, transmissão de conhecimento, desejo de formar os mais jovens, atendimento de uma vocação e outras escusas do gênero). Sou professor porque eu mesmo “preciso” disso, não porque outros possam eventualmente precisar de minhas competências gerais ou habilidades específicas. Se desejar, você pode considerar isso altamente egoísta ou profundamente narcisista: não me importo com as classificações externas, pois minha motivação interior não vai mudar porque se descobriu, aparentemente, algum motivo menos nobre, ou passavelmente autocentrado nesta principal “ocupação secundária”. 
É esta motivação interna, não necessariamente “espiritual”, que me leva a desviar-me de outras atividades, talvez mais prazerosas – como o próprio lazer pessoal, a convivência familiar ou o simples tempo alocado à minha outra compulsão não tão secreta que é o hábito da leitura –, para dedicar-me a essas práticas docentes com uma certa regularidade e constância. Nem por isso desprovidas de algum retorno pecuniário: a despeito de já ter aceito dar aulas de mestrado gratuitas em universidade pública – e de dar incontáveis palestras sem nunca ter sequer invocado alguma remuneração em contrapartida, por vezes mesmo tendo incorrido em despesas pessoais de deslocamentos a outras cidades –, o essencial das minhas atividades docentes se faz segundo tradicionais práticas contratuais. Nem poderia ser de outro modo: se eu deixo de ler ou de escrever para dar aulas, que o ‘desvio’ de ocupação me permita ao menos alimentar esse terrível vício da compra de novos livros e periódicos.
Tampouco eu poderia invocar como motivação ‘nobre’ a própria arte do ensino. Sendo eu mesmo um autodidata radical, não me preocupa tanto o que os alunos possam estar aprendendo, como o próprio conteúdo do que estou ensinando, que pretendo seja o mais claro possível, o mais didático e o mais completo dentro daquele campo de conhecimento. Transmito aquilo que sei, aos alunos, depois, o encargo de reter o novo saber, de complementá-lo com as muitas indicações de leitura que não me canso de fazer ou de interrogar-me sobre algum aspecto pouco claro ou solicitar esclarecimentos adicionais sobre ‘coisas’ passavelmente complexas, quando não prolixas (sim: tenho esse péssimo hábito, talvez pelo excesso de leituras, de “complicar inutilmente” a vida de meus alunos, estendendo-me sobre longos períodos históricos, voltando a um passado remoto para encontrar as causas de algum processo atual ou supondo um conhecimento geral, sobre o Brasil ou o mundo, que simplesmente não existe mais para a maior parte das gerações mais jovens). Nesse sentido, sou mais ‘substância’ do que ‘forma’, ao dar uma densidade no mais das vezes dispensável a um conteúdo de aula que a maior parte dos alunos provavelmente preferiria superficial ou no estrito limite do “necessário para fazer a prova”. Mas, como disse, não estou principalmente preocupado com o que os alunos possam ‘aprender’ e sim com o que eu mesmo possa ensinar.
Tratar-se-ia, por acaso, de uma “má técnica docente”? Talvez, ou quem sabe até, certamente. Minha didática está em ensinar, ou transmitir conhecimentos, julgando que os alunos, ou ouvintes de alguma palestra, serão suficiente maduros ou responsáveis para procurar, depois, seu próprio aperfeiçoamento cultural ou intelectual, cultivando as boas práticas do autodidatismo que eu mesmo reputo valiosas para mim mesmo (e assim tem sido desde os tempos remotos em que aprendi a ler, na ‘tardia’ idade de sete anos). Tão motivado sou pela necessidade interior e imperiosa de ensinar, que procuro estender a tarefa além das quatro paredes da sala de aulas ou de um auditório ou seminário acadêmico. Pela necessidade de complementar esse ensino fora do período ‘normal’ de atividade docente, criei e mantenho, praticamente sozinho (sem possuir as técnicas para tanto) um site de informação com motivações essencialmente didáticas. Também tenho produzido material impresso como derivação ou complementação das atividades didáticas: praticamente todos os meus livros – com exceção de um grosso ‘tijolo’ de pesquisa histórica – resultaram de aulas dadas, conferências pronunciadas, palestras proferidas, seminários a convite (sim, nunca me ‘convidei’ para qualquer tipo de atividade externa, tanto porque não conseguiria atender a todas essas oportunidades).
Tanto o site como os livros e trabalhos publicados, bem mais até do que as aulas dadas em caráter necessariamente restrito, constituem, obviamente, oportunidades para aparecer em público, me tornar conhecido, quem sabe até ‘famoso’ em certos meios. Seria, então, por algum secreto desejo de prestígio pessoal, de reconhecimento público, de notoriedade acadêmica, que me obrigo a todas essas atividades cansativas, que não raro penetram fundo na madrugada e ocupam quase todos os fins de semana, para maior angústia familiar e evidente cansaço cotidiano?
Não posso, honestamente, recusar esse aspecto da ‘necessidade de reconhecimento’, talvez uma demonstração de ‘desvio de personalidade’, buscando na exposição pública e no aplauso dos demais uma satisfação de alguma necessidade ‘secreta’ que o excesso de timidez me impediria de realizar de outro modo. Não creio, todavia, que esse aspecto seja determinante, tanto porque tenho inúmeros outros trabalhos que permanecem rigorosamente inéditos ou porque mantenho, em paralelo, alguma atividade de correspondente dedicado – e não apenas em direção dos muitos alunos que me procuram pedindo ajuda em trabalhos ou projetos de estudos – e algumas colaborações regulares (em matéria de livros, por exemplo) com determinados veículos de divulgação que não necessariamente levam minha assinatura.
A principal motivação, volto a reafirmar, é interna, e deriva dessa minha inclinação pelo estudo, pela sistematização do conhecimento, pela necessidade de eu mesmo ver claro no emaranhado de informações que recolho diariamente de livros, jornais e revistas, pelo desejo subsequente de organizar o conhecimento adquirido em uma nova ‘síntese combinatória’ e pela motivação ulterior de tentar alcançar um público mais amplo ao colocar no papel, se possível impresso e publicado, essa massa de conhecimentos que adquiro de forma contínua e de modo interminável. Tanto é assim que acabo aceitando, contra a opinião familiar e contra o que seria sensato do ponto de vista profissional, dar palestras em alguns cantos recuados desse país continente que é o Brasil (e até mesmo em outros países), sem outra motivação aparente (e real) do que a de atender à solicitação de algum grupo de estudantes que acabaram descobrindo, na internet ou nas bibliografias, algum livro ou trabalho meu, que estiveram na origem dos convites.
Sem pretender dar qualquer conotação de ‘épico literário’ a esse meu ativismo docente, algo de “jornada de Ulisses” pode estar escondida nas minhas aventuras didáticas, no mar revolto das instituições de ensino superior e nas enseadas mais movimentadas dos seminários acadêmicos. Com efeito, minha busca incessante de ‘complemento professoral’ às atividades profissionais normalmente desempenhadas no âmbito da carreira diplomática – já por si suficientemente absorvente – pode ter esse sentido de unending quest, de busca incessante de algo mais, ou de itinerário contínuo em direção de algo valorizado, que eu não bem precisar o que seja, exatamente.
Na verdade, a comparação pode ser enganosa, pois mesmo Ulisses sabia para onde queria ir, e a esse objetivo dedicou todo o tempo do retorno de Tróia, ainda que tivesse sido constantemente desviado de alcançar seu destino final pelas trapaças da sorte e pelos acasos da vida. De minha parte, eu não sei exatamente o que persigo ao me ‘obrigar’, literalmente, a exercer uma ‘segunda’ – ou primeira? – profissão, ao lado daquela que me distingue socialmente, que me define institucionalmente e que me remunera essencialmente.
Independentemente do destino final, o caminho de Ítaca é, ele mesmo, a aventura de uma vida inteira, uma experiência gratificante (por vezes ‘mortificante’) e, de certa forma, um reconhecimento implícito de uma certa ‘dívida social’ que eu desejaria amortizar da forma mais inconsciente possível. Como seria isso? Sendo eu originário de família modesta, morador, até a adolescência tardia, de uma casa onde eram poucos os materiais de leitura e relativamente raros os ‘livros sérios’, tendo feito toda a minha educação formal em instituições públicas e tendo tido a chance de poder frequentar, desde muito jovem, uma biblioteca infantil, aprendi a valorizar tremendamente o hábito da leitura e o auto-aprendizado. Sou, essencialmente e verdadeiramente, um autodidata, no sentido mais completo e profundo da palavra, algo não necessariamente extraordinário ou excepcional, mas que no meu caso corresponde inteiramente a toda uma realização de vida que devo reconhecer e valorizar honestamente.
Mas, onde entra Ítaca nessa história de self-made intellectual, de sucesso profissional pelo esforço próprio, de mérito social pelo empenho no estudo e no trabalho? Creio que Ítaca é uma espécie de ‘Santo Graal’ intelectual que persigo por simples desencargo de consciência. Como aprendi por mim mesmo, mas também aprendi porque frequentei escolas públicas que num determinado momento eram ‘boas’ – mas que hoje são passavelmente sofríveis, quando não insuficientes para formar qualquer estudante para o ingresso no terceiro ciclo – e sobretudo aprendi porque tive à minha disposição uma biblioteca repleta de livros interessantes, acredito que ao me obrigar a dar aulas eu esteja, talvez inconscientemente, procurando dar aos outros aquilo que eu mesmo tive como ‘oferta da sociedade’, basicamente uma boa escola pública e uma ‘grande” biblioteca infantil.
São essas instituições que fizeram de mim o que sou hoje – ademais do esforço próprio no estudo e na leitura, por certo – e aparentemente eu tenho um certo calling, um certo dever de consciência de contribuir em retorno ao que obtive em priscas eras (com perdão pela horrível expressão ‘pasteurizada’). Obviamente não estou retribuindo na justa medida, pois que dou aulas e orientação a ‘marmanjos’ do terceiro ciclo, não a ‘pequenos inocentes’ dos dois ciclos anteriores, mas é o que eu posso fazer, com meu singular despreparo para aulas de ensino fundamental, e meu (reconheçamos) bom preparo para o ensino especializado, fortemente intelectualizado.
Voilà, minha ilha de Ítaca é uma espécie de miragem, um ponto não alcançável no horizonte, jamais realizado ou realizável, mas que conforma um objetivo material (e ‘espiritual’) que me traz imensa satisfação pessoal: a necessidade de ensinar, um desejo (agora não tão secreto) de contribuir para o engrandecimento alheio tomando como ponto de partida os conhecimentos que fui adquirindo ao longo de uma vida razoavelmente feliz, ainda que materialmente difícil, feita de muito estudo, de leituras intensas, de escrituras compulsivas, de perorações infinitas, de um constante navegar em busca de mais conhecimento, de mais informação, de um pouco mais de compreensão (no sentido weberiano da Verstehen). 
Não sei, aliás, se chegarei a alguma Ítaca algum dia: a sensação que mais tenho é a de que sempre há uma nova porção de mar para além do horizonte, de que a busca por conhecimento é infindável e propriamente inesgotável. Mas, pelo menos, não busco o conhecimento pelo conhecimento, não me retiro nos prazeres secretos da leitura pela leitura, como esses leitores de Proust que fazem da busca do tempo perdido um exercício de indeclináveis características de ‘eterno retorno’.
Eu acredito na ‘flecha retilínea do tempo’ (com os habituais acidentes de percurso), acredito que o saber tem um caráter instrumental, de liberação, de capacitação humana, de engrandecimento social, de aperfeiçoamento da humanidade, de busca de valorização do que é belo, do que é útil e, sobretudo, do que é bom. Nesse sentido, não sou relativista, nem agnóstico: acredito que o exercício das paixões humanas – e, no caso, minhas atividades didáticas ou professorais constituem uma ‘paixão’ – podem e devem servir a algo de valorizado socialmente, não para uma mera satisfação pessoal de fundo egoísta.
Repito: dou aulas ou orientação com um certo sacrifício pessoal e familiar, e de forma nenhuma motivado pela remuneração ou pelo prestígio vinculado a essas atividades. Eu o faço por necessidade interior e motivado por um sentimento que poderia, honestamente, classificar como ‘nobre’. Retiro satisfação social dos encargos docentes auto-assumidos, mas sobretudo retiro satisfação pessoal pelo fato de estar ensinando algo a mim mesmo: esse algo é a consciência de que pertencemos a uma entidade que nos transcende – sem qualquer espiritualismo aqui – e que precisa melhorar constantemente para que nós mesmos possamos ter motivos contínuos de satisfação social ou pessoal.
Sou perfeitamente materialista, mesmo correndo o risco de ser incompreendido por causa desse conceito tão carregado de significados obscuros e supostamente ‘vulgares’. Acredito que a elevação da humanidade se dará por força e empenho pessoal de seus componentes irredutíveis, que são os seres humanos como eu e você, que me está lendo neste momento. Eu procuro, modestamente, contribuir com o meu pequeno esforço para a elevação dos padrões materiais e morais da humanidade. Por isso tenho orgulho em ser professor ou orientador, mesmo não necessitando fazê-lo por razões objetivas ou externas.
Se não me falharem as forças, continuarei a caminho de Ítaca pelo resto de meus dias...

Paulo Roberto de Almeida
(www.pralmeida.org)
Brasília, 18 de outubro de 2004



1345. “A caminho de Ítaca”, Brasília, 18 out. 2004, 7 p. Ensaio sobre como e por que sou professor, de caráter autobiográfico. Postado no blog DiplomataZ (23.11.2009; link: http://diplomataz.blogspot.com/2009/11/24-por-que-sou-professor-uma-reflexao.html).

- See more at: http://diplomatizzando.blogspot.com.br/#sthash.cmFnM1jo.dpuf

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

A verdadeira miséria



A verdadeira miséria
Por João Cesar de MeloEm 14 de outubro de 2015

Já que a grande mídia e a intelligentsia se esforçam em festejar o assistencialismo a despeito de seus efeitos colaterais, torna-se pertinente recorrermos ao testemunho de um profissional que vive e trabalhou dentro desse ambiente de “fraternidade” estatal.


Theodore Dalrymple é um psiquiatra inglês que trabalhou por muitos anos em presídios e hospitais de bairros pobres da Inglaterra e da África. Em seu livro A Vida na Sarjeta ele relata suas experiências expondo a degradação moral e existencial da maioria dos beneficiados pelas políticas de bem-estar social de seu país, as quais, assim como no Brasil, dividem a sociedade em dois grupos de cidadãos: Um que só tem deveres e outro que só tem direitos.

Dalrymple começa nos lembrando que ao longo do último século o pobre deixou de ser alguém sem as mínimas condições de sobrevivência para se tornar um cidadão que apenas não tem o que os mais ricos têm; “pobres” que, em sua maioria, desfrutam de “comodidades e confortos que dariam inveja a um imperador romano ou a um monarca absolutista”, em suas próprias palavras. Tal percepção faz com que o psiquiatra aponte como a verdadeira pobreza de nosso tempo a total ausência de responsabilidade das pessoas beneficiadas pelos programas de bem-estar social. A luta pela subsistência, que confere orgulho e responsabilidade ao homem, vem sendo substituída pela tutela estatal que oferece tudo a todos que se apresentam como pobres independentemente da conduta de cada indivíduo, criando uma classe de pessoas depressivas, ingratas, arrogantes e sem interesses além dos prazeres das drogas, do sexo e do crime.

No decorrer do livro, o psiquiatra não traz apenas dezenas de casos que representam os dramas cotidianos da população que vive à custa dos programas sociais, mas também os relaciona com as teses socialistas sobre educação, liberdade sexual, juízo de valores e criminalidade.

Na educação, Dalrymple comenta o esforço dos trabalhistas em desvalorizar o conhecimento da língua inglesa como forma de interromper o avanço do “imperialismo cultural burguês” e também a política oficial de que o aluno deve ser preservado de quaisquer constrangimentos, tais como notas baixas ou punições por indisciplina. Ele cita o caso de um colégio onde os professores são proibidos de fazer mais do que cinco correções por prova.

As “boas intenções” socialistas simplesmente tiraram dos professores a função de ensinar qualquer coisa que possa mostrar que alguns alunos são mais inteligentes que outros. O professor foi rebaixo a um mero agente recreativo. O incentivo ao interesse pela matemática e por outras ciências nas escolas dos bairros mais pobres foi substituído por atividades que supervalorizam a cultura desses bairros. O resultado disso são jovens semianalfabetos, que não conseguem sequer preencher formulários e fazer operações matemáticas básicas (continuo falando sobre a Inglaterra), o que desqualifica profissionalmente essa parcela da população enquanto concentra o estudo científico e da alta cultura nas escolas dos bairros mais ricos.

Dalrymple relata também os resultados das políticas de incentivo à liberdade sexual, as quais favoreceram os impulsos masculinos em prejuízo da dignidade das mulheres mais pobres, condenando crianças a vidas preenchidas pelo medo e pela violência.

Quando se une uma educação desleixada à política de que uma pessoa, simplesmente por ser pobre, não precisa ter responsabilidades, automaticamente se inicia um ciclo vicioso que pode ser resumido a mulheres tendo diversos filhos de pais diferentes, cada um deles igualmente irresponsáveis e/ou viciados em drogas, que invariavelmente utilizam-se da violência como forma de estabelecer propriedade sobre as mulheres ou mesmo para dar vazão a seus desvios comportamentais, tudo, por terem a certeza de que tal comportamento lhes garante os benefícios dos programas assistenciais.

Um procedimento padrão dos agressores é tomar uma intencional overdose de drogas ou de pílulas logo depois de cometem suas violências, pois isso os qualifica, perante as leis de bem-estar social, como doentes, não como criminosos; sendo doentes, recebem uma dúzia de benefícios do governo, incluindo a liberdade. Isso explica a absurda reincidência de violência contra as mulheres, resultando também na morte de muitas crianças fruto de relações totalmente desprovidas de valores morais.

Essa realidade está intimamente ligada à política de não manifestação de juízos de valor, tão defendida pela esquerda − não há certo ou errado, há apenas “diferenças”.

Quando as pessoas são qualificadas em grupos, o caráter e a conduta de cada indivíduo perde importância, o que cria as piores injustiças. Enquanto uma parcela dessa população pobre luta por uma vida digna e independente por meio do trabalho, a outra parcela abraçada pela benevolência estatal curte a vida desrespeitando e violentando uns aos outros despudoradamente. Dalrymple cita um pedido padrão de seus pacientes: Que ele faça relatórios apresentando-os como dependentes químicos, com histórico de overdosesou como viciados em jogos; no caso das mulheres, que lhes sejam conferidos laudos de que fizeram diversos abortos, que tiveram namorados violentos, que também são viciadas em drogas e jogos etc. “Em nenhum caso alguém me pediu que escrevesse que é um cidadão decente, trabalhador e honrado”, relata o psiquiatra, comprovando a percepção das pessoas atendidas pelos programas sociais de que os desvios de comportamento lhes conferem muitas vantagens.

No combate ao crime os absurdos não são menores. Os indivíduos mal intencionados e identificados pelo Estado como sendo pobres ou negros ou imigrantes sabem que a lei lhes concede tratamento especial, sabe que a polícia preocupa-se mais com a opinião da intelligentsia do que com a criminalidade, por isso praticam os mais diversos tipos de “pequenos crimes”, tais como depredações, furtos e agressões. A delinquência desses jovens tornou-se cultura, cujas vítimas são seus vizinhos pobres, porém, honestos e trabalhadores. Mais: Overdoses também são recursos utilizados sistematicamente na véspera de audiências em tribunais e na véspera do primeiro dia de trabalho, o que lhes garante a conivência da justiça numa situação e mais alguns meses de seguro desemprego na outra.

Assim como no Brasil, os delinquentes ingleses pegos em flagrante sempre apresentam-se como vítimas do capitalismo, do racismo etc, quando, na verdade, eles optam pela vida que levam, o que é comprovado, segundo o psiquiatra, pelos tantos casos de irmãos que mesmo tendo sido criados sob as mesmas circunstâncias, optam por caminhos diferentes.

A conclusão que chegamos ao ler o livro não se resume à percepção de que a política de bem-estar social cria uma geração de pessoas improdutivas e/ou autodestrutivas, mas também que tal política inviabiliza a caridade privada, cujas ações sempre são muito mais justas e eficientes do que os programas de grande escala realizados pelos governos.

A Vida na Sarjeta, de Theodore Dalrymple, compõe a longa lista dos livros que os socialistas se recusam a ler.