quarta-feira, 3 de abril de 2013

O PT que a maioria não vê

Gilrikardo disse: "Carta de 8 laudas A4, é para ser lida do início ao fim. Depoimento interessante e esclarecedor a respeito do senhor Lula e de suas "relações" com o poder. Li, gostei e por isso recomendo. Destaques e marcações são minhas."


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PERIGUETES INSTITUCIONAIS

Texto definitivo 30-12-2012
Documento registrado no Cartório RTD&PJ Uberlândia/MG microfilme nº 3207509.

Luiz Inácio,

Meu olhar foi de desconfiança em você desde as primeiras greves dos metalúrgicos nos idos da década de 70. Aqui, um eco da Polônia. As mesmas greves retumbantes, uma contra a ditadura comunista da URSS, outra, apenas salarial, no estertor da ditadura capitalista/udenista do Brasil. Um Lech Valesa brasileiro? Ambos sindicalistas. Contemporâneos. Um nascido em 1943, outro em 1945. Ambos fundadores de partidos políticos: SOLIDARIEDADE e PT.



O polonês de Gdansk teve um mandato de cinco anos a partir de 1990. Na sequência não se elegeu, por uma diferença magra de 3%. No ano de 2000, na terceira postulação, obteve menos de 1% dos votos, vítima de um discurso e uma prática política que não interessavam mais ao seu povo. A estrela polonesa se apagou para sempre. Um pouco de história não faz mal a ninguém.



Aqui, um metalúrgico nordestino radicado no ABC Paulista. Até aí, tudo bem. Um operário ousado, que o momento brasileiro comportava, dentro dos limites de uma reivindicação meramente salarial. Quem seria aquele operário patropi? Desleixado, atrevido, raivoso, barbudo, que mal dominava o vernáculo, ignorava a gramática mínima, cuspia na cara da classe dominante e vinha meio alcoolizado, pelo menos assim parecia, protegido pela CNBB e pela OAB. Quem era ele? Era você, Luiz Inácio. Nítido como se fosse hoje, guardo na lembrança um programa de TV, RODA VIVA (?) onde você proclama dedicação exclusiva à luta sindical, esconjurando filiação partidária e chicoteando a conduta de políticos brasileiros e dos pelegos da CGT. Quem te viu, quem te vê...!


Rapidamente as melhores cabeças do Brasil intelectual ”progressista” se juntaram a alguns ex-presos políticos, ex-exilados políticos e inventaram um partido político que nascia com um nome discriminatório e arrogante: Partido dos Trabalhadores. Bem católico. Bem paulista/paulistano. Bem quatrocentão. Bem USP/UNICAMP. Universitários, operários e professores de história caíram de quatro no arraial do PT, com estrelinha vermelha na lapela e tudo mais. Fanatizados.

Burguês reacionário era todo brasileiro que discordava da cartilha petista. Estavam excluídos, e eram persona non grata, os simpatizantes do Partidão, os nascidos em berços ruralistas, quem teimasse em raciocinar com a própria cabeça e Brizola, evidentemente, seu carma mais contundente. Aliás, sua projeção foi articulada com o objetivo de enfraquecer o PTB getulista e exorcizar seu natural herdeiro, o experiente e perigoso gaúcho caudilho socialdemocrata, Leonel Brizola, que retornava do exílio apetitoso de poder.

Esta agremiação pretendia ser um PO, Partido dos Operários, e, na falta de mitos e heróis brasileiros, se apropriou da foto de um médico argentino singular, cuja biografia a militância petista jamais pesquisou, nem se interessou em saber quem era: CHE GUEVARA. Para a tigrada bastou decorar a frase: “Hay que endurecerse sin perder la ternura jamás!” Foi esta a pátria ideológica da juventude brasileira contestadora ou não. GUEVARA, mais amado no Brasil do que na Argentina, virou poster, virou chaveiro, distintivo, enfeite de parede, capa de caderno e camiseta. Na minha cidade dois irmãos cabeludos se mantém há três mandatos como deputados estadual e federal, gigolando a imagem do falecido guerrilheiro argentino que não cobra royalties nem cachê. Mito é mito, não se discute. A nível nacional, para compor a fantasia do bloco, o PT criou uma grife vermelha e empunhou uma bandeira idem.

Voltemos aos anos de chumbo. Uma porção de esqueletos gritava dentro do armário. Doíam na memória e no lombo da esquerda sobrevivente os mandatos cassados a torto e a direito, o Congresso fechado, os governos biônicos, os exilados políticos, a pancadaria e o sumiço de centenas de gatos-pingados da CGT, do CPC, da UNE, da Marinha, das universidades federais, do Partidão, das salas de aula, das redações de jornais, danos irreversíveis produzidos sob a égide do inesquecível e troglodita AI-5. Até hoje me amarga a boca aquela frase discricionária: BRASIL, AME-O OU DEIXE-O. Quando o PT surgiu, como a luz no fundo do túnel, era pegar ou largar. Muita gente acreditou e se agarrou a esta ideia libertária como se ela fosse uma tábua de salvação contra a ditadura militar.

Havia tanta gente séria, confiável, inteligente, interessante, comprometida com a História pregressa do Brasil, preparada para assumir o comando pós-ditadura militar. Gente ingênua. A luta por melhores salários, sempre justa e oportuna, foi apenas um pretexto para abiscoitar o partido, ganhar a confiança do povão e o poder. O importante, em curto prazo, era fustigar a burguesia nacional e internacional, o capitalismo selvagem e as forças armadas. Em médio e em longo prazo, manter os pobres na pobreza, dependentes de esmola governamental: FOME ZERO, BOLSA ESCOLA, BOLSA FAMÍLIA, BRASIL CARINHOSO, BOLSA CULTURA...

A massa falida, de memória curtíssima e vítima do mal crônico de preguiça mental, se identificou com o discurso messiânico e beatificou o novo salvador. Não reparou nem se importou com insignificâncias como, por exemplo, o fato de ele declarar que nunca leu um livro, não sabe de nada, não viu nada. Ele queria mesmo era passear. A primeira providência foi comprar um super avião com capacidade para mais de cem passageiros, mandar emperiquitá-lo no exterior e voar pelo mundo, para se vingar da infância pobre e tirar o atraso do tempo de operário pé-de-china, grevista do ABC. Reinou por oito anos, visitou dezenas de países e, mesmo com uma bagagem insignificante de leitura, se tornou Doutor Honoris Causa de cinco universidades brasileiras e uma portuguesa. ECCE HOMO! Você.

No Congresso foi fácil comprar dignidades e votos. E houve todo recurso do Tesouro Nacional para garantir todas as negociatas e para manipular a ingênua e burra opinião pública das classes C, D, E. Os institutos de pesquisa entrevistaram (será que entrevistaram mesmo?) punhadinhos de brasileiros e brasileiras, ninguém sabe onde, e fizeram a grande virada eleitoral. Eu, como nunca fui entrevistada nem jamais conheci sequer um cidadão brasileiro que o tenha sido, não me deixei sugestionar pelos resultados, porém as vitórias, garantidas pelas bolsas-esmolas, aconteceram. O famoso toma lá, dá cá. É dando que se recebe. O tempo se encarregou de botar os pingos nos is. Uns saíram do PT por desencanto. Outros, que tinham luz própria, foram defenestrados: Maria da Conceição, Erundina, Hélio Bicudo, Cristóvão Buarque, Gabeira, Luiza Helena, Marina Silva, Flávio Arns... Centenas. Milhares.

Luiz Inácio, você sabia que, apesar de tudo, ainda existe uma parcela da nossa população que raciocina, analisa, discorda, vê, ouve, rala pra caramba, paga impostos deduzidos na fonte e/ou no pé da Nota Fiscal, lê jornais, revistas, assiste telejornais todo santo dia, ouve a BBC de Londres? Pois existe. Eu me incluo nesta lista, com muito orgulho. Nós, brasileiros patriotas de plantão permanente, não depomos a esperança em dias melhores, com dirigentes mais honestos, mais decentes.

Machuca meus brios ver esta máquina extraviada, esta cúpula política em permanente cópula com o estelionato, a corrupção, o enriquecimento ilícito, a malversação do dinheiro público, as licitações maquiadas, superfaturadas ou, pior ainda, dispensadas legalmente, a governança exercida por medidas provisórias, as Câmaras vazias, legislando com votos de lideranças, através de indecorosos acordos de bancada.

Dizer apenas que dói em mim é eufemismo. Na verdade tudo isto me enche de indignação. Mal comparando é como se a sociedade brasileira fosse composta de debilóides e safados: índios que querem espelho, negros que querem samba e brancos que querem propina. Só isto.

Eu me pergunto para que tanto deputado, tanto senador? Para aprovar no tapetão, com apenas voto de liderança, bastava que o Brasil elegesse um único representante para cada legenda. Seria mais honesto e muitíssimo mais econômico. Quanto ao povão, sempre ocupado com futebol, carnaval, parada do orgulho gay, feriado emendado etc., para esta gente basta uma bola de futebol, uma latinha de cerveja bem gelada, e, na TV, uma novela bem indecente seguida de um reality show completamente idiota.

Você tem a responsabilidade histórica de ter subido duas vezes a rampa do Palácio do Planalto. Pesa em suas costas o ônus decorrente de medidas que não foram tomadas: reforma tributária, reforma política e reforma agrária. Mexer no item carga tributária é mexer em vespeiro. É desonerar encargos e reduzir a arrecadação de impostos. É nivelar por baixo o ICMS de todos os Estados. Quem assume?

Reorganizar a vida política nacional começa por moralizar o fandango partidário, reduzir o número de representantes no legislativo e acabar com o voto de liderança. Tem que ser muito macho pra reduzir o quantitativo de ministérios, secretarias inúteis, institutos de coisa nenhuma, ONGs e funcionários fantasmas. Para moralizar o executivo urge extinguir anomalias indecentes como a medida provisória. Tanta coisa a fazer! Não é mesmo para qualquer um.

Reforma agrária depende de uma revisão imediata da Lei Nº 8.629. Depende de um INCRA mais criterioso. Depende de Ministérios (Social e Agrário) com pulso firme para deter a ação nefasta e criminosa de bandidos e parasitas infiltrados entre trabalhadores sem-terra, ambos eleitores de cabresto de vocês. Assim como está, o que se vê é apenas uma desestruturação da vida no campo sem nenhum resultado. E, o que é pior, acampados e assentados são párias sociais favelados na roça, esquecidos da sorte, do governo e da Lei. O que mais prospera nos módulos dirigidos pelo MST e MLST são botecos para o comércio livre de pinga e drogas. Assentados são meros revendedores ou aspirantes a revendedores de módulos rurais dos quais eles não possuem escritura cartorial. E o INCRA, cadê o INCRA? Aqui em Minas Gerais, que tem quase novecentas cidades, quem quiser falar com o INCRA tem que ir a Belo Horizonte. Este órgão funciona ou é uma piada para boi dormir?

A pergunta que não quer calar é a seguinte: para que existe cartório, documento, registro, selo, firma reconhecida, matrícula, escritura, esta parafernália toda? Para nada? É tudo uma simulação de ordem, de legalidade, ou apenas um assalto sem revólver? O campo está em pé de guerra, Luiz Inácio. Veja o desastre que você e sua pupila consentiram e estimularam. O certo, o óbvio, seria que a propriedade privada estivesse protegida pelo Estado. Ou será que o lema ORDEM E PROGRESSO é apenas enfeite de bandeira? É preciso ter arcabouço moral e total credibilidade política para enfrentar estas promessas de campanha, o que não é o seu caso. Assim sendo, você não fez o que era urgente nem sua sucessora o fará.

A BOLÍVIA nacionalizou uma PETROBRAS nossa como bem quis, estimulada por Hugo Chavez. Como Evo Morales é seu amigo do peito, ficou por isto mesmo, mal negociada. Você cortejou e protegeu ditadores, genocidas e assassinos julgados. E muitas vezes foi motivo de espanto, de riso e zombaria aqui e no exterior.

Nossas tropas de paz no Haiti, que generosidade extrema foi aquela? Desvestindo um santo para vestir outro? O povo brasileiro se acabando na droga, no crime, na luta fratricida, nos deslizamentos das encostas, à míngua, sem vacina, no rabo da fila mundial do conhecimento, desmatando tudo, e você na pajelança de uma vaga para o Brasil (para você) na ONU ou um Prêmio Nobel de qualquer coisa. Enquanto isto a suruba correu solta no berço esplêndido da Pátria Amada e só agora vem à tona: cartões corporativos, mensalão, passaportes diplomáticos, Rose etc. Um presidente pífio, do qual me envergonhei tantas vezes!

E o Acordo Ortográfico? Você assinou, açodadamente, uma supérflua reforma denominada Acordo Ortográfico, a partir do qual a insegurança passou a presidir a redação de textos em língua portuguesa. Não foi uma atitude inteligente nem necessária nem patriótica porque forçou o Brasil a jogar fora toda sua produção editorial, todos os dicionários, enciclopédias e livros didáticos... Precisava? Não, não precisava. O mundo não ia acabar se permanecessem o trema na palavra linguiça e o acento agudo na palavra ideia. 

Para você, que se gaba de não ler e que decerto também não escreve, talvez não signifique nada o que eu estou dizendo, mas pode ter certeza de que o prejuízo foi incalculável para o País. Como terão ficado os demais signatários deste Acordo? Portugal, Angola, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e Timor Leste? Eles, tão menores do que nós, talvez com mais dificuldade financeira, como estarão honrando este Acordo Ortográfico?

Neste momento surgem trincas ameaçadoras nas muralhas da sua ficha limpa, do seu conceito de salvador da Pátria. Você não precisou de inimigos para conspurcar sua imaculada pele de cordeiro, esgoelada à exaustão em cada esquina, em cada boteco, em cada assentamento, em cada video institucional chapa branca. A você bastaram os amigos mais próximos, seus cães-de-fila: Palloci, Genoíno, José Dirceu, Delúbio, Luizinho, Valério, João Paulo etc etc etc... E os que você selecionou e anexou na sua agenda ao longo dos três mandatos: Collor, Sarney, Renan, Jefferson, Maluf etc. Tudo gente boa.

Nunca antes na História do Brasil amigas íntimas nomearam, fizeram e desfizeram. Amiga íntima é o quê? Foi no seu governo inovador que isto começou. Seu retrato chutando bola, na parede da sala da sucursal da Presidência em São Paulo foi um desacato à presidenta. E ela passou despercebida, o que é muito grave. Ou percebeu e consentiu, o que é mais grave ainda. Se a PF não dá pela história e a imprensa não bota a boca no trombone, estariam lá, até hoje, o escritório dentro do Banco do Brasil (dentro???), a foto atlética na parede e a dita-cuja na poltrona giratória. Cá pra nós, a foto do herói em momento relax, na parede errada, foi um descuido imperdoável. No tempo do meu avô teúdas e manteúdas corriam por conta do coronel, nunca por conta do povo brasileiro. Eles eram garanhões muito mais éticos, convenhamos.

Rosemary, a “madame” de Lula, decorou o escritório da Presidência em
São Paulo com um painel de seu benfeitor e estampou sua imagem
nas almofadas. Nós estamos falando de uma sala que é extensão da
Presidência, órgão executivo de um Poder da República,
que tem de ser, por lei, impessoal porque de todos.
Milhões e milhões de reais nas cuecas, nas malas e em contas em paraísos fiscais. Empregos em profusão, super faturamento à vontade, cartões corporativos e passaportes diplomáticos para seus familiares e amigos. Tudo fora do controle porque A VIÚVA é rica e tem hímen complacente. Enquanto isto, no SUS, falta médico, leito, remédio,vacina, lençol, esparadrapo, fraldão, seringa descartável etc. Faltam dentes na boca do Zé-povinho. Falta insulina no posto de saúde. Falta pavimentação nas estradas. Falta estrada. Falta ponte. Faltam eclusas nos nossos rios navegáveis. Faltam portos para escoar nossas riquezas. Falta ferrovia de bitola larga. Falta metrô nas cidades grandes. Faltam respeito e salário digno nas escolas públicas de todos os níveis. Falta tanta coisa, e o MENSALÃO escancarando mazelas de um governo longo que se auto-rotulou de pioneiro, o primeiro na História do Brasil a fazer e acontecer. Tem vergonha de tudo isto, não, excelência? Nem remorso?

Seus amigos estão aí, no pau da goiaba, na execração pública. Pensou que os ministros nomeados por você estavam obrigados a lhe vender a alma? Nem todos, viu só que gente mais ingrata? E você? São e salvo. Prestigiado por governadores e por institutos de pesquisa. Mudo e surdo. Tem nada a dizer, não? Vai deixá-los torrar na fogueira da Justiça? O gato comeu sua língua, companheiro? Que papelão! E agora esta Operação Porto Seguro, um polvo do mal, cheio de tentáculos, que horror!

A primeira dama esteve à toa por oito longos anos, vivendo vida de rainha neste Palácio da Alvorada, plantando canteiros vermelhos no jardim real. Podia ao menos ter prestado mais atenção às amizades do marido, às amigas mais próximas, de confiança. Uma convidada especial integrante da comitiva presidencial em mais de vinte viagens internacionais, não é pouco, não, hein, companheiro? Com passaporte diplomático, talvez? Com direito a cartão corporativo, será possível?

Revistas e jornais contam horrores, mas deve ser calúnia, não pode! Tanta contravenção, tantos escândalos... Por que você não se defende? Ou é tudo verdade? Parafraseando Castro Alves eu pergunto: “Onde estás que não respondes?”

O PT é hoje um partido esvaziado de líderes, desprovido de pensadores. Tão afeiçoado ao poder como se o poder fosse seu oxigênio, sua adrenalina. Ao cabo de trinta e oito anos de militância aguerrida, eis que a vitória acachapante aconteceu nas urnas municipalistas, mas vocês não conseguiram chegar sozinhos. Tiveram que vender a alma ao diabo a agora as coligações heterodoxas vão corroer seus governos. Perdendo a presidência da Câmara e do Senado, o barquinho de vocês estará à deriva. Quer apostar? No PT só sobraram índios. Cadê os caciques?

O PT não me interessa, quero lhe falar de sonho, de utopia. Hoje seus adversários pensam que vocês são comunistas. Temem o comunismo porque esta ideia é difusa, repleta de experiências malogradas e até perversas em alguns países do mundo. Aqui e agora este ódio à flor da pele é resultado das cabeçadas, dos desvios de comportamento moral e ético, das lambanças políticas praticadas por seus companheiros mais diletos, de absurdos privilégios criados para serenar a ira do populacho.

Qualquer um pode ter puxado o gatilho da arma que matou Celso Daniel. O mais importante, que ainda não foi apurado, é o motivo desta morte absurda e o mandante do crime, um espinho atravessado na garganta dos familiares daquele prefeito e de milhares de brasileiros menos burros, como eu. Precisava, não, Luís Inácio! A História do Brasil já registrava muitas irregularidades, muitos crimes e muitos suicídios mal explicados. Então vocês apareceram, prometendo consertar o País. Foi nisto que se acreditou.

Eu sei que vocês nunca foram comunistas. Alguns eram / são meros arruaceiros. Outros, meros delinquentes juvenis. Outros, bandidos mesmo. Pode até ser que houvesse alguns equivocados, rebeldes sem causa, que foram no vai da valsa. A boiada seguiu a corrente sem raciocinar. Sou testemunha ocular e vítima de todo o processo. Jamais peguei em armas. Nem eu nem minha família. O berço marxista me aproximou da utopia socialista e fez da minha prática diária a concretização deste sonho coletivista. Dia após dia, no meu lar e na sala de aula da escola pública, eu tentei ser uma cidadã atualizada, coerente, politizada e politizante. A luta armada, sem nenhuma chance, sem quadros, neste nosso País continental, foi mais uma infantilidade e uma burrice do que uma atitude heróica. E sacrificou tanta gente!

Falemos de você. A liderança caiu em sua cabeça por acaso. Um líder fabricado da noite para o dia, sem preparo teórico, sem histórico partidário nem político. Foi muito holofote, muita mídia, muito foguetório. Houve também muito aplauso importante: CNBB, OAB, FIESP, a grande imprensa e, por detrás da cortina, o consentimento do governo militar.

Você, ingênuo, acreditou. Bastaram-lhe 31 dias de reclusão para elegê-lo como deputado federal constituinte mais votado do Brasil. Na sequência você, que tanto havia achincalhado os ricos e os empresários, cooptou o empresário milionário José de Alencar e, com esta tacada de mestre, encerrou o ciclo de desconfiança ideológica que pesava sobre o PT e você. Enterrado o fantasma da esquerda, as dificuldades acabaram. Choveu dinheiro nas suas campanhas malogradas e nas vitoriosas. Os publicitários que o digam. Você vestiu a fantasia do SUPER-HOMEM, a faixa de presidente, e saiu voando, fazendo bobagens, dizendo bobagens no mundo inteiro. Chistoso. Eu o considero um impostor, Luiz Inácio, um coveiro do sonho de esquerda da minha geração prestista, que se preparava para ganhar “no papo” e não “no sopapo” como vocês fizeram. Na minha avaliação, seus heróis da luta armada atropelaram e atrasaram a História do Brasil desde quando empunharam armas, assaltaram bancos, sequestraram pessoas, até quando, trinta anos depois, assumiram postos, cargos e funções.

A ditadura militar agonizava, desmotivada, e os ditadores já estavam sem repertório. “VOLTA, FLÁVIA SCHILLING”, escreveu emocionado o truculento presidente João Batista Figueiredo. O PT foi apenas um dos atores do fim da ditadura, não foi o dramaturgo. Você sabe o que é dramaturgo? O Brasil merecia uma esquerda muito melhor, mais decente, mais patriota.

Não sei se os historiadores vão lhe reservar um lugar no panteão da glória como o MARCO ZERO da História do Brasil ou se vão julgar como um desastre o tsunami de revolta e animosidade que o governo do seu partido deixou como herança maldita para a família brasileira: a intolerância e o revanchismo. Militares e a esquerda, negros e brancos, índios e brancos, fazendeiros e sem-terra, estudantes da rede pública e particular, quanta mágoa e conflito supurando ao mesmo tempo!

Que dizer destas cotas, acendendo fachos de fogo no borralho étnico, social e político de nosso País? Um bem ou um mal? Tudo isto apenas para encobrir a incúria administrativa do governo petista, mero paliativo de uma governança pusilânime que não promove reformas de base, para quem educação não é prioridade. É mais fácil, mais prático, mais eleitoreiro, criar privilégios para o jovem portador de um título eleitoral, que já vota, do que educar, no berço, a massa que só votará daqui a dezoito anos. Óbvio ululante!

Seu colega Lech Valesa foi agraciado com o Prêmio Nobel da PAZ em 1983. Talvez uma picuinha contra a URSS. Mas foi. E você? Talvez decidam homenageá-lo como pai dos pobres pelas bolsas-esmolas incondicionais, sem prazo para acabarem, sem contrapartida para os beneficiários das mesmas. Mas também pode ser que considerem estas ditas “políticas afirmativas” como meras matracas de fazer voto e manter o povo à margem do crescimento social, cultural e profissional. Vai depender do historiador e de quem pagar pelo serviço. Infelizmente a verdade é uma moeda de duas caras e papel aceita tudo.

Muita saúde para você, são os meu votos de Ano Novo. Peço-lhe que não morra agora. Você corre o risco de ser canonizado pela massa ignara e isto é tudo que não pode acontecer.

Desculpe declarar que eu não tenho nenhum respeito especial, genuflexo, pela sua história de nordestino retirante, órfão de pai irresponsável, filho de mãe que nasceu analfabeta, inventor de um Brasil onde nunca antes de você ninguém havia ... blá-blá-blá.

Para mim você é apenas um nordestino vaidoso, petulante, irresponsável, complexado e ridículo, cercado de aproveitadores, que foi usado por bobos e ladinos e até por empresários, políticos e banqueiros oportunistas, ladrões e cretinos, brasileiros ou não. Só isto. Um cidadão que teve a sorte de nascer no Brasil, porque, se tivesse nascido em um País mais austero, algumas coisas não teriam acontecido em seu derredor nem em seu benefício. Pra Curupira, Macunaíma, Getúlio e Juscelino, lhe faltam um queijo e uma rapadura. Saiba, Luiz Inácio, que há ex-petistas frustrados, que pensam exatamente como eu, que nunca fui petista. Tenho milhares de mensagens deles. Se eles autorizarem, lhe mostro todas.

Escrevo-lhe esta carta motivada pela impossibilidade de lhe falar pessoalmente. Por um dever de lealdade comigo e com toda a verdade que sofrimentos políticos impuseram a minha família e a mim. Eu não cobrei do povo brasileiro um preço pela derrota do meu sonho ideológico, que vocês depois acabaram de jogar no lixo. Não pedi indenização. Sabe por quê? Porque um sonho ideológico não tem preço. E a derrota, assim como a vitória, faz parte do jogo. Pessoas maduras, equilibradas, sensatas, sabem disto.

Sou sete anos mais velha do que você. Compete a mim tomar esta iniciativa. Serenamente porque o momento é oportuno. E publicamente, porque somos pessoas públicas. A carta é longa, é verdade. Oito laudas A4 em fonte 11. Mas muito menor do que o tempo que eu venho tolerando você e seus cupinchas. Então, leia com paciência, meditando cada parágrafo, porque vai aqui um pouco da História do Brasil de que nós dois participamos como artífices.

Neste retiro a que se recolheu agora, tudo conspira a favor de uma autocrítica. Vai lhe fazer bem. Saia da concha, você não é uma ostra. Ou será que é? Vou lhe contar um segredo que é seu, que você viveu e não se deu conta: você não é um ex-presidente porque nunca presidiu coisa nenhuma. Por um tempo você foi hóspede do Palácio da Alvorada. Cumpriu as tarefas que meia dúzia de espertalhões traçaram para você, repetiu as palavras de ordem sugeridas por seus ministros, assessores, amigos e puxa-sacos, vários deles periguetes institucionais de saia justa ou de bigode, tanto faz. E foi bufo em alguns momentos, principalmente nas performances internacionais, quando vendeu a imagem cafona, bizarra e equivocada de um país emergente perdulário e fuleiro. O resto foi bajulação, farofa, churrasco, futebol e caipirinha. Devia ter perguntado a OBAMA qual o significado da palavra O CARA, que tanto lhe subiu à cabeça.

Se puder entender o que eu tento lhe dizer, o que eu sinto, saiba que neste momento sinto pena. Do Brasil e de você. Do Brasil porque fecha o ano sem votar os royalties do pré-sal, sem votar a Lei Orçamentária de 2013, com um PIB pouco maior do que ZERO, pelo Mensalão inconcluso, pela Operação Porto Seguro, pelo arquivamento do escândalo Cachoeira, pelo grande blefe Demóstenes Torres, pelo problemaço energético, pelo Velho Chico, pelas obras do PAC, superfaturadas e interrompidas, pela dispensa de licitação para obras em aeroportos, estádios, Brasil Carinhoso, por esta alucinação esportiva em um País sem atletas, pela volta da cerveja aos estádios, por confirmar a cada dia que o Brasil não é um País de gente séria. Ah, e pelos impostos que eu pago, para enriquecer malandros! Culpa da Dilma? Dilma é você, tanto faz.

Sinto pena de você, que parece ter caído no melado. Um animal acuado cujo constrangimento é evidente. O preço da glória é alto demais, principalmente quando tudo parece sinalizar um desfecho de conto de fadas de final infeliz, aquele no qual uma criança verdadeira grita durante o desfile: O REI ESTÁ NU! 

Peço desculpas aos meus netos pelo País que vou legar a eles, abarrotado de mentiras e de crimes institucionais.

Sinceros pêsames, Pátria Amada BRASIL!

Martha de Freitas Azevedo Pannunzio

Uberlândia - Fazenda Água Limpa, 01/01/2013 - Publicação permitida desde que mantidos autoria e meu e-mail.

Martha é formada em letras neolatinas pela Universidade Mackenzie, em São Paulo, e em comunicação visual e artes pela Universidade Federal de Uberlândia. Foi durante 31 anos professora de latim, francês e português, e se especializou em técnicas de redação e literatura infanto-juvenil. Foi vereadora por dois mandatos. É socialista e agnóstica. É estimuladora de projetos de leitura e de artes cênicas. É contadora de histórias e desenvolve em sua fazenda, onde reside, os Programas CERRADO E LETRAS e Projeto BICHO DO MATO.

Martha só escreve sobre fatos e personagens concretos e os retrabalha de acordo com sua sensibilidade. quando lhe perguntam de qual livro ela mais gota , Martha sorri e diz: "Livro é como filho, a gente gosta de todos". Martha considera-se perfeccionista e preguiçosa.

Seus livros têm merecido críticas elogiosas dos especialistas mais severos do Brasil. São lidos com muito carinho pelas crianças e adolescentes e constituem sucesso de vendas.Todos tiveram grandes tiragens, integrando projetos nacionais importantes como ciranda de Livros, MEC-FAE, Sala de Leitura, INL, Cantinho de Leitura, etc. (Fonte Wikipédia)