quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Coisas da vida

Mister Eme

Por Gilrikardo

Se hoje, com meio século de existência, julgo-me portador de certa ingenuidade que poderia até classificar de patológica. Imagine então, há trinta e tantos anos, representava nesta terra o Cândido* em carne, osso e candura. Nada era feio. Nada era ruim, tampouco existia a maldade. O mundo era um festival de boas intenções, se algo desse errado, de imediato concluía, obra do acaso, nada proposital. Até o dia em que o rumo das coisas apontou outras direções e percebi que tinha muito mais a descobrir sobre a vida. Geralmente aprendemos pela dor, e no meu caso não foi diferente, foi pela experiência de terror vivida no início da adolescência. 
Encontrava-me ao redor de uma mesa entre “amigos” e “conhecidos”, era um jogo de cartas, muito comum lá pelas bandas onde fui criado. Bastava alguns “de varde*”, algumas moedas ou notas no bolso, e pronto, se instalava o cassino. O que iniciava como simples passatempo, logo se mostrava uma batalha entre os egos malandros, ambiciosos, valentões, bobalhões, enfim, era ali que comecei a perceber as transformações humanas, e isso com meu ingênuo olhar que naturalmente ainda não era capaz de prever a profundidade ou consequências dos atos que poderiam advir duma rodada com aquela malta. 
Como não tinha recursos financeiros para entrar no jogo, contentava-me em observar como era que aquilo funcionava. Entre a  fumaça e o cheiro de bebidas alcoólicas que permanecem em minhas narinas até hoje, aquela turma passava as tardes, ou as noites, dependia das sobras financeiras. Alguns não tinham esse problema, tinham sim muitos outros, menos a falta de dinheiro, e entre eles Mister Eme (esqueci-me de seu nome). Era um sujeito que se arranjou na vida aplicando o famoso golpe do baú. Casou-se com a única filha (feia qual canhão, coitadinha!) de uma viúva que além de rica, gerenciava uma grande propriedade rural de sol a sol. Mister Eme, um vagabundo de primeira, nunca havia trabalhado na vida, o pai tinha um pequeno pedaço de terra, suficiente para não morrer de fome. E o que um vagabundo faz quando ganha um monte de dinheiro... oras bolas... fará o que sempre fez... nada! Sim, continuava na mesma vida, só que de automóvel zero quilômetro e a guaiaca recheada. Foi com ele que vi pela primeira vez o novo carro da Chevrolet, o Chevette... o primeiro da região! 
Naquele ambiente existiam muitas outras figuras, mas hoje o que me trouxe aqui foi a lembrança de uma noite fria entre os “camaradas” e a “jogatina”. Lá pelas tantas, percebi o Mister Eme pegando uma carta que não seria a “da vez”, isto é, estava roubando, de imediato gritei que não era aquela, pois em minha cabeça se eram amigos, não poderiam roubar uns dos outros (esse era o Cândido). Foi quando o Mister Eme puxando um revolver do tamanho de uma espingarda, apontou em minha direção e mandou-me ficar sentado ao lado dele, pois assim eu poderia “cuidar” melhor do jogo. Num primeiro instante imaginei ser brincadeira, mas foi perceber o olhar do resto da turma para entender a gravidade do problema. Eu não conhecia o lado negro daquela figura, não tinha dimensão de onde estava a meter-me. Comecei a tremer (era isso que o filho da puta queria) e o ar de bandido baixou naquele sujeito. Imaginem o vagabundo, legítimo pé de chinelo se achando cheio de poder. Poderoso. Pronto para arrepiar, humilhar e dizer a todos que ali ele era o maioral. Eu imóvel, não mexia nem os olhos, só tremia... todos notaram meu estado de pânico total, e aos poucos começaram a tentar amenizar o impacto daquilo. Num determinado momento, meu algoz, disse que iria "tirar a água do joelho", pegou a arma,  apontou para mim e foi em direção ao banheiro, a três metros da mesa. Abriu a porta e não entrou, disse que iria mijar dali mesmo, para não perder a mira. Surtei. E agora. Graças a presença de espírito de um colega de escola que ali estava, percebendo a oportunidade se colocou em frente ao revolver e com a cabeça sinalizou para eu correr. Corri. Não olhei para trás. Só ouvi o estampido de dois disparos. Jurei naquele momento nunca mais chegar perto daquele sujeito.
Cumpri a promessa, segui minha vida em outras querências e tempos depois, retornando à cidade em férias, perguntei para alguém sobre o vivente, e pela primeira vez senti a alegria pelo fim de uma pessoa. Segundo relato, numa noite de muita chuva e intenso frio, Mister Eme e um amigo pegaram duas meninas na saída do colégio e as levaram a mais de cinquenta quilômetros em estradas de chão batido (com chuva, puro barro), tentaram, elas negaram, então deixaram as duas nuas a própria sorte no meio do mato, tiraram-lhes até as sandálias. 
Meses depois do fato, em frente ao colégio em que as moças estudavam, numa sorveteria, parou uma camionete com dois homens, um desceu, entrou e se dirigiu à mesa onde quatro pessoas jogavam cartas. Perguntou quem era o genro da fazendeira Candinha, em meio ao grupo surgiu a voz arrogante a pronunciar, sou eu aqui e daí... o homem na maior calma do mundo, ergueu a mão que segurava um trinta e oito, e ainda mantendo a maior calma mandou dois "tecos"... e os balaços atingiram em cheio o peito do canalha que foi ao chão de costas. Conseguiu balbuciar “eu não quero morrer”... e morreu. 
O atirador era o pai de uma das meninas, toda a cidade sabia, ele não escondeu a cara, nem fugiu, pois voltou para a casa comercial onde era gerente. Não apareceu testemunha para contar o crime na delegacia, nem a esposa e a sogra dele se importaram, ou seja, Mister Eme mexeu com a pessoa errada. Coisas da vida.

*Cândido (personagem Voltaire)
*Varde (expressão utilizada na serra gaúcha, estou de varde, ou seja, estou desocupado)