quinta-feira, 28 de março de 2013

Coisas da vida

Arapuca

Por Gilrikardo 
 
Na vida nada se perde, tudo se transforma. Talvez seja a minha oportunidade de fazer uma limonada. Vamos ao que interessa.
 
Curitiba, anos oitenta, o guri recém chegado do interior, trazia no currículo toda a ingenuidade, valores e desconhe-cimentos cultivados desde o berço naquele rincão dos quintos do Rio Grande do Sul. Não seria o primeiro que ali aportava para também garimpar aquilo que praticamente todos os seres humanos almejam – condições melhores de presente e futuro. Pois donde vinha, o destino já estava traçado, ser o que seus antepassados foram, apenas sobreviventes a duras penas. E essa concepção de mundo não lhe agradava nem um pouco. Assim, cheio de gás e de esperança, passava os primeiros dias percorrendo as páginas dos classificados e também as agências de emprego. Não era fácil entender a dificuldade, pois num mundão daquele tamanho, com aquela quantidade de prédios, pessoas, carros, ruas e movimentos, as oportunidades de emprego não se apresentavam com semelhante intensidade. 

Indagava-me se havia algo de errado comigo, não enxergava nada, aliás todos temos dificuldades em nos olhar no espelho e ver quem realmente somos. Na maioria dos casos não chegava nem na entrevista, o motivo anunciado era a tal falta de experiência. Como vencer essa barreira. Ai lembrei-me porque em minha cidade de origem se falava que fulano tinha “padrinho”, que beltrano tinha “Q.I.”. Pois era assim que a etapa da experiência era lá ultrapassada. Ali onde estava o currículo era a peça fundamental e a maior pedra no meio do meu caminho. Sem padrinho, sem Q.I., sem currículo, sem dinheiro, não conseguia nem imaginar o que mais me faltaria. Mas uma coisa eu tinha para dar e vender, a necessidade de persistir. Dessa maneira prosseguir tornou-se meu meio de vida. Prosseguir. Dia após dia. Prosseguir. Até que surgiu um classificado precisando de pessoas sem experiência e com vontade de ganhar dinheiro. É o tipo de anúncio compatível com quase cem por cento da população, e não é a toa. 

Apresentei-me, era em um hotel cinco estrelas, no auditório um lanche para os “esfomeados” que vinham chegando, meu deus, parecia que ali era albergue para matar a fome, os caras enfiavam cinco bolachas de uma vez na boca, em vez de cafezinho, pegavam o copo de tomar água e enchiam com café até vazar. Nossa, fiquei surpreso com aquelas gentes, mais ainda por estar ali forçado pela minha condição, caso contrário daria meia volta sem vacilar. 

Os "empresários" eram cinco ou seis, bem articulados, pronunciaram cada um seu discurso, conversa é que não faltava àquele bando. A proposta consistia num emprego na filial que seria aberta em breve, para se chegar à vaga, os candidatos deveriam obter o maior número de pontos oriundos da venda de uma peça de plástico adaptável ao liquidificador - segundo a empresa, era parte do teste de seleção. O pessoal que não gostava de vendas, levantou-se e foi embora, ficamos os necessitados e apavorados. Peguei a minha cota, dez aparelhos. Para conquistar tal emprego, era necessário vender no mínimo cinquenta peças, sem esse número a gente só ganharia a comissão. Saí a campo com aqueles badulaques, e no primeiro dia vendi cinco peças, o bastante para me animar e sair cedinho no próximo dia. 

No decorrer da semana não consegui vender as restantes, sobraram três peças. No fim do quinto dia, coincidência do destino, uma menina que também estava lá no hotel, cruzou no meu caminho. Talvez sensibilizada pelo que estava prestes a acontecer comigo, abriu o jogo e contou-me que ela já havia caído na “ARAPUCA” noutra ocasião e que essa não parecia diferente. Ou seja, contratavam as pessoas com a promessa de uma vaga de emprego. Como teste de seleção, faziam os idiotas trabalharem de graça. Sim de graça, pois a comissão era uma merreca. Para eles importava a venda do produto, ali estava a grande parcela do lucro. Não importava a quantidade vendida, pois não existia empresa nem emprego algum. Agradeci à moça, e indignado terminei o dia. À noite na companhia de meu travesseiro, quase não dormi, iria a polícia no outro dia, resmungava. 

Amanheceu e pela manhã direto à Delegacia Especializada, não lembro o nome, mas segundo informações que recebi de um agente parado em frente a uma viatura, o meu tipo de ocorrência era lá. Ao entrar um duplo sentimento se apoderou de mim, a raiva por estar fazendo papel de otário aliada ao medo daqueles sujeitos. Pedi para falar com o delegado, queria fazer uma denúncia, prontamente me encaminharam para a sala do homem, abri o verbo e contei a história. Agora era só me levantar e deixar a bomba explodir. Quando esbocei ir embora, o delegado olhou-me e soletrou, e o senhor fica aí, vais aguardar a chegada dos elementos para apontá-los. Quase desmaiei, agora que aqueles caras vão me matar, imaginava eu. Se soubesse disso, não teria vindo. E agora. Esperei e quando a rapaziada chegou, o delegado se revelou, mandou que todos esvaziassem os bolsos e colocassem em cima da mesa. Enquanto isso eu permanecia sentado, agora sob o olhar da quadrilha. Antes de prosseguir, o delegado na presença de dois agentes, apontou o dedo para mim e pronunciou as seguintes palavras: 

--Olha aqui, corja de estelionatários, quando vocês virem esse guri aí pela rua, fiquem o mais longe que puderem dele, sugiro nem pegar o mesmo ônibus que ele, nem em sonho se dirijam a ele, a melhor coisa que tem a fazer é esquecer que ele existe, entenderam?... Entenderam vagabundos?... Silêncio... Querem me testar? Última chance... Entenderam?

--Sim senhor, sim, entendemos, sim senhor, pode ficar tranquilo chefe, entendemos perfeitamente. 

Momento em que o delegado começou a procurar em meio a papelada atirada em sua mesa, o dinheiro deles e colocar no bolso da camisa, isso na minha frente e de todos que ali estavam. Fiquei apavorado, mas logo a seguir fui liberado e ao rumar para a saída encontrei com algumas dezenas de pessoas na garagem, pois a ordem era trazer tudo que estivesse na sala do hotel. Um policial comunicou que poderíamos levar do lote da apreensão a quantidade de produtos que conseguíssemos carregar. Não me fiz de rogado. Abracei umas vinte caixas, peguei a rua e desci a ladeira com jeito, sentimento e cara de tristeza lembrando que ARAPUCA em minha terra era para prender passarinho e ali para pegar “trouxa”. 

P.S. “Deixo essa limonada em sinal de alerta às pessoas que pelas circunstâncias também procuram oportunidades de trabalho”